


 Procura-se uma esposa
  Wife wanted
  Christine Rimmer
  Famlia Fortune 8
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


   Natalie Fortune estava de repouso em casa, com a perna quebrada e um so bernardo de companhia. Suas frias tinham sido destrudas e sua "nova vida" adiada. At
que Eric Dalton, um novo vizinho super sexy, faz uma oferta irrecusvel...
   Mas ser que Natalie deveria ceder a esse homem irresistvel, ou estaria cometendo mais um erro em sua vida?


   NATALIE FORTUNE: Adorvel professora que sempre est disposta a ajudar aqueles que se encontram em dificuldades. Um acidente, porm, a obriga a depender da ajuda
de seu novo inquilino. E logo ela descobre que o toque suave de Eric Dalton  irresistvel...
   ERIC DALTON: Pai solteiro e muito atraente, Eric no pode ignorar o lugar que Natalie passou a ocupar no corao dele e de seu filho. Embora apaixonado por ela,
ser que ele ir correr o risco e tornar Natalie sua esposa?
   JAKE FORTUNE: Ser que ele continuar sitiado e permitir que Mnica Malone se apodere da Cosmticos Fortune para sempre?
   JESSICA HOLMES: Desesperada, Jssica necessita de ajuda urgente para salvar a vida de sua filha. Mas ela apenas pode contar com os Fortune, seus novos parentes.


   O Dirio de Kate Fortune

   Oh, no! Meu filho Jake est sendo acusado de ter assassinado Mnica Malone! Em que a famlia pode ajudar? Tenho total certeza de que Jake  inocente. Aquela
malvada s trouxe desgraa para os Fortune. Suspeito que ela seja em parte responsvel pela queda de meu avio e pela minha suposta morte. E ela no agiu sozinha.
Por isso, devo continuar me escondendo para apanhar os culpados. Mas como poderei ajudar Jake para que ele saia dessa enrascada?


   Liz Jones

   A Colunista N 1 das Celebridades

   Mnica Malone morreu! E ela foi assassinada por Jake Fortune!  claro que ele se declara inocente. Mas todos sabemos que Jake foi a ltima pessoa que a viu com
vida. E sabemos tambm que tiveram uma discusso sobre uma questo bastante pessoal - ou teria sido financeira? Sua prpria filha declarou t-lo visto bbado e fora
de controle. E ele ainda espera que as boas pessoas dessa cidade acreditem que ele  inocente. Se ele no for culpado, ento eu sou Lady Di! Fico enojada com o modo
como os ricaos conseguem se safar de serem condenados pelos seus crimes graas a advogados super bem-pagos. Mas espero que voc pague por isso, Jake Fortune!




   Captulo 1

   "Aluguel de ltima Hora para o Vero: Casa de stio espaosa, confortvel, em frente ao lago numa rea de dez acres. Perto de Twin Cities. Barco  disposio.
Tratar com Bud na Agncia Imobiliria Walleye: 555-8972."
   Rick Dalton tinha visto o anncio no jornal de sexta-feira. Ligou para o nmero imediatamente e falou com Bud Tankhurst, que lhe disse que o lago em questo era
o Lago Travis, e que a casa era "um pedao do passado com todas as convenincias modernas". O imvel ainda estava disponvel. A proprietria poderia mostrar a casa
e discutir os termos naquele domingo, 29 de junho, s duas da tarde.
   Rick e seu filho, Toby, saram de Minepolis no dia marcado.
   O campo era exatamente da forma que Rick esperava que fosse: sereno e aprazvel.
   De acordo com Bud Tankhurst, havia mais de noventa quilmetros de costa nas muitas ramificaes do Lago Travis. Oitenta por cento daquela costa eram propriedade
privada e o lago era perto de Cities.
   - No  lindo, filho? - Rick perguntou, como se realmente fosse receber uma resposta.
   Mas  claro que no houve resposta. O garoto de cinco anos estava com um olhar no vazio.
   Rick resistiu  nsia de perguntar: "Toby, voc est me ouvindo?" Ele havia feito aquela pergunta muitas vezes nos ltimos seis meses. O silncio era sempre a
resposta.
   - Quase l.
   Ele tentava falar de vez em quando, para mostrar que no tinha frustrao pela indisposio do filho de se comunicar. A Dra. Dawkins, a psiquiatra de Toby, dizia
que era importante conversar com o garoto, inclu-lo nas conversas, mesmo que ele no reagisse. Ela disse que Toby escutava e entendia, que melhorara, e que, com
o tempo, ficaria bem. s vezes Rick no tinha tanta certeza disso. Mas procurava seguir as ordens da mdica.
   Rick diminuiu a velocidade quando surgiu,  direita, a caixa de correio com o endereo que ele buscava.
   - Aqui estamos.
   Uma boa extenso de grama envolvia a casa. Vrias rvores exuberantes estavam plantadas ali, com as folhas agitadas pela brisa suave. Atrs da casa ficava o lago.
   -  perfeito.
   E, justamente quando ele disse isso, algum dentro da casa decidiu que era hora de ouvir no volume mximo um pouco de rock & roll.
   - Estava perfeito demais. - Ele reconheceu a msica: "Piece of my heart." Pedao do meu corao. A cantora era Janis Joplin.
   Rick instruiu o filho:
   - Fique aqui. Vou ver o que est acontecendo.
   Toby moveu levemente a cabea.
   Agora, alm de Janis, ouvia-se um latido de cachorro. Que diabos estava acontecendo ali dentro? No momento em que ia tocar a campainha, Rick pensou ter ouvido
outra voz feminina, berrando junto com Janis e o cachorro. Quando tocou a campainha, no houve resposta. Rick ento abriu a porta que estava destrancada e seguiu
em direo ao som.
   Ele viu imediatamente que havia um aparelho de som na parede do fundo, de onde clamava a voz de Janis. No sof do outro lado estava um So Bernardo.
   Entre a porta onde Rick estava e o sof em que o co latia, uma morena, em boa forma, com um vestido de noite de lantejoulas dos anos quarenta e sapatos plataforma
muito coloridos se sacudia e se esgoelava. Seu chapu era uma capa de abajur com franja, e ela berrava com Janis enquanto o So Bernardo latia. Rick encostou-se
na porta, perguntando-se o que ela faria quando virasse e desse de cara com ele.
   A morena estava concentrada demais em sua performance. Mas o co percebeu Rick imediatamente. Com a lngua para fora, trotou at Rick e farejou sua coxa com o
nariz grande e molhado. Rick fez um afago no animal.
   A mulher continuava cantando com toda paixo. Ela congelou, quando deu de cara com Rick.
   - H quanto tempo voc est parado a?
   - Tempo suficiente.
   - Eu tinha medo de que voc dissesse isso.
   - Eu toquei a campainha, mas...
   A moa comeou a se desculpar assim que a msica parou.
   - Voc deve ser meu futuro locatrio. Desculpe-nos. Bernie me implorou para tocar Janis. Ele adora essa msica.
   - Bernie. Seria o cachorro?
   - Aham. Eu sou Natalie Fortune.
   Rick tomou-lhe a mo.
   - Rick Dalton.
   - E voc tem um filho, certo?
   - Certo.
   A moa recuou um pouco e olhou fixamente para ele. Ela tinha os maiores e mais belos olhos castanhos que ele j tinha visto.
   - Eu achei que vocs estariam aqui s duas.
   Ele olhou para o relgio.
   - Acho que estou adiantado.
   Ela sorriu.
   - E eu perdi a noo do tempo. Ol. - Ela olhou por trs dele.
   Rick se deparou com Toby entrando pela porta da frente, esboando um movimento tmido, em resposta ao cumprimento de Natalie Fortune, sua mo estava na coleira
do So Bernardo, que estava ao seu lado.
   Rick ficou estarrecido. Seu filho estava sorrindo.
   Natalie seguiu pelo cho de madeira-de-lei at Toby, onde se agachou. O grande co sentou-se sobre as patas traseiras. Juntos, Natalie e Toby acariciavam o co.
   - Estou vendo que voc j conheceu Bernie - disse ela. Toby fez que sim com a cabea. - E eu sou Natalie. Qual o seu nome?
   - Toby. O nome dele  Toby - disse Rick, rapidamente. Toby esticou o brao, tmido, e tocou numa das lantejoulas do vestido de Natalie. Fazendo voz de vampiro,
ela disse:
   - Voc gosta? Venha por aqui, meu querido. - Pegando Toby pela mo, ela se levantou. Em uma ponta do sof estava um ba de viagem enorme e velho, com a tampa
aberta, com vrios artigos de vesturio saindo de dentro dele. Natalie levou Toby at o ba.
   - Este ba era da minha av Kate. Encontrei esse vestido fabuloso l no sto. Sem falar nesses sapatos incrveis. E algumas coisas do vov Ben tambm esto aqui.
   Ela se ajoelhou sobre o ba. Toby ficou parado a sua esquerda, e o So Bernardo sentou-se ao lado dela.
   - Veja s, Toby, esta casa era a casa da "segunda lua-de-mel" dos meus avs. - Ela comeou a retirar coisas do ba. - Quando estavam casados e dois de seus filhos
j eram bastante crescidos, eles atravessaram o lago para trazer esta casa de l da grande manso deles.
   Ela tirou uma echarpe florida, um chapu cor-de-rosa de aba larga e uma bolsa de mo de couro envernizado, e ps tudo no cho.
   - Voc sabe por que eles compraram esta casa? Vou contar a voc. Eles compraram porque perceberam que tinham se separado ao longo dos anos e precisavam se encontrar
novamente. - Ela diminuiu a voz at suspirar. - E voc sabe de uma coisa? - Toby a observava, embevecido. - Eles se entenderam novamente. Nove meses depois de passar
uma bela semana aqui, minha av teve mais um beb.
   Natalie comeou a vestir o So Bernardo com as coisas que tirava do ba.
   -  verdade. - Ela encaixou o chapu de aba larga na cabea do cachorro. - Depois de uma breve estada nesta casa, Vov Kate teve minha tia Rebecca, que  um pouco
mais velha do que eu. - Natalie amarrou a echarpe florida no pescoo do cachorro e ps a bolsa em sua boca. Em seguida, bateu palmas com satisfao e declarou:
   - Ele est lindo, voc no acha? - Toby concordou balanando a cabea. Ela se levantou e instruiu Toby: - V em frente sem mim. Bernie adora brincar de se vestir.
Vou mostrar a casa para o seu pai.
   Ela saiu de trs do ba.
   - Pronto para um tour?
   -  claro.
   Natalie o acompanhou at o vestbulo e subiu as escadas primeiro. Explicou que a casa tinha sido completamente modernizada quatro anos antes, e que tinham construdo
mais um banheiro e um lavabo.
   - Agora todas as janelas so de vidro duplo. - Ela sorriu para ele. - E voc ter at ar-condicionado.
   Rick no pde deixar de comentar:
   - Voc tem jeito com crianas.
   - Crianas e cachorros.
   - S falta dizer que voc  professora de jardim de infncia.
   - Primeira e segunda sries. Eu dou aula na escola da cidade.
   - Cidade?
   - Voc vem de Cities, no ?
   - Sim.
   - Bem, se voc seguir a estrada que tomou para vir at aqui, chegar a Travistown, em volta da outra ponta do lago. A populao  de trezentos e quarenta habitantes.
Temos nossa prpria escola, apesar de vrias sries se juntarem, e temos um mercado, uma loja de equipamentos e algumas lojas de presentes e roupas. E a Agncia
Imobiliria Walleye.
   - Certo. Bud Tankhurst  um dos corretores de l.
   - Bud Tankhurst  o dono e administra. A esposa dele, Latilla, faz a contabilidade.
   A testa dela se enrugou.
   - Toby est bem?
   Rick ficou tenso.
   - O que voc quer dizer com isso?
   - Quero dizer que o garoto no disse uma palavra at agora.
   Rick estava na casa daquela mulher h dez minutos. Ela era uma estranha. Mas ela no dava a sensao de estranha. Ela o atraa. E em dez minutos, ela j tinha
conseguido o impossvel: tinha feito o menino sorrir.
   - A me e a av materna de Toby morreram alguns meses atrs. Acidente de carro. Toby estava no carro quando tudo aconteceu.
   Natalie emitiu um pequeno gemido.
   - Toby no falou mais desde o acidente.
   - Ai... eu sinto muito...
   - A me dele e eu ramos divorciados. E eu... no via Toby h algum tempo. Por isso estou interessado neste lugar. A mdica de Toby diz que o menino est progredindo,
mas que ele vai melhorar mais depressa se passarmos mais tempo juntos.
   - Acho que vai ser timo! Bem, vou lhe mostrar o resto da casa.
   Ela abriu as portas de dois quartos pequenos e mostrou a ele o banheiro que era compartilhado pelos quartos.
   - Estes esto includos no aluguel.
   Ele viu duas portas fechadas no final do corredor. Ela olhou na mesma direo e explicou:
   - Ali  o meu quarto, banheiro e saleta. Como o quarto principal e outra saleta ficam no andar de baixo, estava pensando que talvez pudssemos deixar somente
meus cmodos particulares fora do acordo... se forem s voc e Toby. Farei os devidos ajustes no aluguel, evidentemente.
   - Se eu ficar com o lugar, tudo bem. A casa tem mais cmodos do que precisaremos.
   Quando Rick j tinha visto tudo, eles se sentaram  mesa do caf da manh para acertar as coisas. Natalie disse que tinha esperana de encontrar um inquilino
que levasse a casa "como estava", com toda a moblia.
   - Por mim est bem. Se fizermos assim, gostaria de usar a sala ntima para ser o quarto de Toby. s vezes ele tem pesadelos, e eu quero estar perto.
   - No me importo nem um pouco se voc trouxer uma das camas para baixo.
   - timo.
   Foi quando ele se deu conta. Ele lembrava de uma matria que tinha visto numa revista de fofocas. Uma mulher linda, ruiva, sentada  mesa apoiando o queixo com
a mo e um sorriso petulante nos lbios. Os olhos dela chamaram a ateno dele quando ele folheava a revista: grandes e castanhos e suaves. Exatamente como os olhos
da mulher que estava  sua frente.
   A legenda sob a figura dizia Rosto Fortune: Seu rosto. Antes, agora e sempre...
   - Voc disse que sua av se chamava Kate Fortune? Da Cosmticos Fortune?
   - Sim.
   - Sabe, voc parece um pouco com...
   - Allison Fortune. - Ela disse o nome da modelo internacionalmente famosa e garota-propaganda da Cosmticos Fortune. - Ela  minha irm. Est casada. Seu sobrenome
 Stone. Allie Stone.
   Ele lembrava de ter lido como a av morrera tragicamente mais de um ano atrs. O avio que Kate Fortune pilotava cara na selva da Amaznia.
   - Se voc decidir ficar com a casa, os serviais da manso da minha famlia, do outro lado do lago, tomaro conta do terreno, para que vocs no tenham nenhuma
preocupao aqui. E uma mulher vir uma vez por semana para limpar o local.
   - timo.
   Ela olhou para as prprias mos pousadas sobre a mesa.
   - Que foi? - ele perguntou. Seus olhares se encontraram novamente. - Parece que voc tem algo a dizer, mas no sabe como.
   - Voc tem razo.
   - Pode dizer.
   - Tudo bem. Existe uma condio, se voc quiser ficar com a casa.
   - Estou ouvindo.
   - Voc teria que tomar conta de Bernie enquanto estiver aqui.
   - Voc quer que eu tome conta do seu cachorro?
   - Eu sei,  loucura.
   - Mas por qu?
   - Este  o lar de Bernie.
   Rick considerou o pedido dela, lembrando de ver o filho parado no corredor, com a mo sobre o pescoo do co. Enquanto ele ponderava, Natalie fornecia mais detalhes
sobre seus planos.
   - Estou alugando a casa porque quero tirar longas frias. Vou fazer um cruzeiro no Mediterrneo. Partirei no dia vinte e oito de julho e retornarei no finalzinho
de agosto, antes de a escola comear. Mas se esse perodo de tempo no estiver bom para voc, eu posso ficar do outro lado do lago, na manso da famlia que eu mencionei,
antes ou depois de partir para minha viagem. Meus pais se separaram e meu pai est morando sozinho na manso.
   Os Fortune eram uma famlia muito importante. E desde a morte de Kate Fortune, Rick tinha a impresso de que havia muitas notcias nos jornais sobre eles. Um
herdeiro desaparecido teria ressurgido, e as aes da Fortune estavam em baixa. De fato, Jacob Fortune, CEO das empresas Fortune, estava na capa do Star Tribune
aquela manh mesmo. O artigo no era lisonjeiro. Poderia ser aquele Fortune o pai de Natalie?
   Agora, ela observava Rick ansiosamente, sem dvida preocupada com o silncio prolongado dele.
   - Senhor Dalton?
   - Me chame de Rick. Que foi?
   - Algum problema?
   - No. Nenhum problema. Parece que est bem para ns. E terei prazer em cuidar do cachorro. Eu preciso de algumas semanas para pedir uma licena no meu trabalho
e organizar minha vida em Cities. Ento eu gostaria de vir em 12 de julho, e ficar at 31 de agosto. E no se mude para o outro lado do lago, a menos que queira.
   - Ufa. Que alvio! Pensei por um momento que voc ia dizer que no era o que estava procurando.
   - No, isto  exatamente o que estou procurando.
   - timo. Porque voc e Toby so perfeitos. Bernie ficar to feliz por serem vocs.
   - Bernie ficar feliz?
   - Voc vai achar esquisito.
   - Conte-me.
   - Tudo bem.  o seguinte. Bernie era o cachorro de minha av, Kate. Quando ela deixou a casa para mim no testamento, estipulou que Bernie sempre teria seu lar
aqui. E tambm, at eu me casar, a casa sempre teria que estar sempre ocupada.
   - O que  que tem a ver o fato de voc se casar?
   Em volta do pescoo, ela usava uma corrente fina de ouro com um nico amuleto, um boto de rosa de ouro, pendurado. Os dedos dela estavam cruzados em tomo do
amuleto.
   - Se minha av ainda estivesse viva, voc pode ter certeza que eu perguntaria a ela. Temos um acordo? - perguntou ela.
   - Voc ainda no deu o preo.
   Ela deu.
   - Parece mais do que justo - ele disse.
   - Vou pegar um formulrio, ento. Mas  somente uma formalidade. Se voc quiser a casa do dia 12 de julho at o final de agosto, ela  sua.
   - Eu a quero.
   Ela trouxe os papis.
   - Terminou?
   Ele abriu um sorriso.
   - Tudo feito.
   - Ento deixe esses papis chatos a mesmo e vamos l. Quero que voc veja Lady Kate.
   Ela os levou at uma ampla doca e juntos entraram no barco anexo  casa, onde o barco que tinha sido mencionado no anncio estava atracado a um barco de esqui
muito menor, com a proa aberta.
   - Este  o Lady Kate, um dos brinquedos preferidos de meu av Ben - explicou Natalie, afetuosa, dando tapinhas no casco do barco maior. - Vov Kate gostava de
velocidade e aventura. Era exmia piloto. Tinha at uma doca de hidroplano na manso do outro lado do lago. E, apenas alguns anos atrs, ela comprou um par de jet
skis. O Lady Kate tem todas as convenincias de casa. Estar  sua disposio durante o tempo em que estiver aqui.
   Ele no podia deixar de pensar que iria querer mais que o barco  sua disposio.
   Ele estava pensando em si mesmo. Nos ltimos anos, desde o fracasso que havia sido seu relacionamento com Vanessa, ele tinha muita precauo com as mulheres.
Mas desde o momento em que entrara no salo de Natalie Fortune, sua precauo usual parecia desaparecer.
   O cachorro veio para o lado dele. E Toby, que estava segurando a mo de Natalie. Os adultos e o co seguiram at onde o garoto silencioso os conduzia.
   Rick queria esquecer tudo sobre Minepolis e a firma de arquitetura onde trabalhava h quase uma dcada. Queria esquecer sua casa cara numa rua elegante do subrbio.
Deixar tudo para trs e permanecer para sempre na casa de campo com o filho que havia sorrido hoje, o cachorro simptico e a mulher encantadora que cantava junto
com Janis Joplin vestindo uma capa de abajur na cabea.
   Mas nada daquilo era possvel; pelo menos, no por duas semanas.
   Ele sorriu para o filho.
   -  hora de ir.


   Captulo 2

   Natalie deu adeus aos seus novos locatrios.
   - Voc gosta deles, no  mesmo, rapaz?
   Bernie lambeu-a com sua lngua grande e molhada.
   Ela estava to feliz quanto seu co.
   Cinco possveis locatrios tinham passado por l ontem; nenhum deles fechou contrato. Mas agora ela podia relaxar. Havia encontrado exatamente as pessoas certas
para tomar conta da casa e de Bernie. O garoto silencioso e de olhos tristes era adorvel. E Rick Dalton parecia disposto a tratar a casa e o cachorro dela como
se fossem seus.
   Ele era tambm um homem e tanto. Ela estaria morando bem ali com ele por duas semanas...
   S se fosse em suas fantasias tolas e romnticas que um homem como Rick Dalton iria querer uma mulher como ela. Ele estaria muito ocupado tentando conhecer melhor
seu filho pequeno. A ltima coisa que estaria procurando seria um romance de vero.
   E Natalie tambm no estava procurando um romance, pelo menos no antes de tomar aquele navio de cruzeiro e encontrar algum extico e diferente. Da talvez ela
topasse ter um caso a bordo do navio. Mas ela nunca tinha sido do tipo de "ter um caso". Para tudo havia uma primeira vez.
   - Vamos l, Bernie. - A caminho da sacada, ouviu o telefone tocar. Ela conseguiu chegar at o telefone do vestbulo um instante antes de a secretria eletrnica
responder na saleta.
   - Natalie, por que demorou tanto? - Era Joel Baines, com quem Natalie havia namorado por cinco anos, at um ms atrs, quando Joel terminara com ela.
   No comeo, depois do fim do relacionamento, Natalie ficou arrasada. Mas, ento, ela finalmente percebeu que Joel estava com ela por duas razes: porque fazia
bem ao ego ter uma Fortune em seus braos e porque era conveniente estar com ela na sua vida.
   Infelizmente, nos ltimos dias, Joel estava repensando sobre sua deciso de terminar o relacionamento.
   - Joel, pare de me ligar.
   - Mas, Natalie.
   - Estou falando srio. Oua. Nunca mais me ligue novamente.
   - Natalie, eu fui um tolo.
   - Joel, voc me traiu.
   - Eu nunca deveria ter lhe contado sobre meus pequenos erros.
   - Por favor, me deixe em paz.
   - Eu amo voc, Natalie. Minha vida se tornou um enorme vazio sem voc. Se voc apenas...
   - Adeus, Joel.
   Em seguida, viu a Mercedes branca de sua me. rica Fortune pisou firme nos freios e parou o carro com uma derrapada.
   Natalie saiu para encontr-la.
   - Ai, Nat. Graas a Deus voc est aqui.
   - O que foi, me?
   - Aqui. Veja. - Ela estendeu um jornal.
   Natalie olhou a edio daquele dia do Star Tribune.
   Na parte de baixo,  direita. Natalie virou o jornal. E ali estava o rosto de seu pai.
   Maus Negcios nas Indstrias Fortune, dizia a manchete.
   - Eu preciso conversar. Ai, Nat, eu no sei mesmo o que est acontecendo com ele. Voc sabe o que o artigo diz?
   - Expe toda aquela sujeira novamente, acusando o papai de sabotar a prpria empresa. A insanidade de ele ter vendido suas aes pessoais quela horrvel Mnica
Malone.
   Assim como rica e a irm de Natalie, Alice, Mnica Malone tinha sido modelo da Cosmticos Fortune; a primeira, dcadas atrs. E, alm de se tornar Rosto Fortune,
a mulher havia se tornado a rainha da indstria do cinema. Ningum na famlia suportava aquela mulher, mas parecia que ela estava sempre nos bastidores em algum
lugar, causando problemas; e nunca tanto quanto recentemente, desde a morte de Vov Kate. Ela comprava aes da empresa onde quer que pudesse encontr-las. E quando
isso veio  tona, seis meses antes de Jake ter passado suas prprias aes para ela, ningum sabia como agir; e ainda no sabiam, porque Jake, irredutvel, se recusava
a dar uma nica razo para o que havia feito.
   - E no  s isso - rica continuava. - Tem uma especulao sobre o incndio nos laboratrios Fortune, um relatrio sobre as ameaas contra Allie, uma descrio
dos arrombamentos na empresa, e se voc virar a pgina, recebe de brinde um grfico que mostra o quanto as aes da empresa caram. Jake leva a culpa por no lidar
com nada direito.
   "Ai, o que aconteceu com ele? Eu no consigo entender por que ele faria uma coisa dessas."
   Natalie passou a vista no artigo. Olhou para a me.
   - No estou vendo nada de novo aqui.
   - Sim, e agora mais pessoas esto sabendo disso, j que  uma matria de capa na edio de domingo.
   - Mame, o que voc pode fazer a respeito?
   - O que voc quer dizer com isso?
   - Quero dizer, voc vai at l ver o Papai?  isso?
   - No. Eu no posso fazer isso. Voc sabe que no posso. Jake e eu quase no nos falamos.
   - Bem, ento, talvez seja um erro se preocupar tanto.
   - Eu no consigo me conter. Fiquei furiosa com seu pai por um bom tempo. Mas uma mulher no pode esquecer um homem com quem passou trinta anos de sua vida.
   Natalie sabia o que estava realmente incomodando sua me: rica ainda amava Jake. E Jake ainda amava rica. Natalie desejava que eles aprendessem a lidar com
as diferenas e se unissem novamente.
   - Nat...
   - Que foi?
   - Voc  a nica que consegue se entender com seu pai.
   Natalie olhou firme para os olhos verdes de sua me.
   - Mame, ns j conversamos sobre isso. Eu no vou ficar nesse leva-e-traz. No mais.
   -  claro. Voc tem razo.
   - Vamos entrar. Tenho ch gelado j pronto.
   - Se pudermos sentar e conversar um pouquinho, voc sabe que eu me sentirei melhor.
   - E  isto que vamos fazer.
   Mas rica estava comeando a se desligar de seu prprio drama de tal forma que reparou no que Natalie estava vestindo.
   - O que  que voc andou fazendo?
   - Vestindo-me a rigor. Fantstico, no?
   - No.
   - Voc s est com inveja.
   - Cinqenta anos atrs, seria um sucesso.
   - Cinqenta anos atrs, com certeza sim.
   - Onde voc conseguiu isso?
   - Encontrei um ba no sto.
   - Aquele vestido no era de Kate.  muito chamativo para Kate.
   - Eu pensei a mesma coisa. Sinto falta dela, Mame.
   E foi rica que ps um brao consolador sobre o ombro da filha.
   - Todos ns sentimos, querida.
   -  como se o mundo estivesse fora de controle, desde que a perdemos.
   - Eu sei. E como sei.
   - No posso deixar de sentir que, se ela estivesse aqui, estaria tudo bem. Ela iria resolver o problema com Papai. E daria um jeito na bruxa da Mnica Malone.
E saberia se Tracey Ducet era uma farsante como todos achamos que seja.
   Tracey, que era idntica  tia de Natalie, Lindsay, havia surgido recentemente, reivindicando ser a irm gmea perdida de Lindsay; conseqentemente, herdeira
de uma enorme parte do patrimnio dos Fortune. Sterling Foster, advogado da famlia Fortune de longa data, estava investigando aquela reivindicao, dizendo que
era falsa, mas incapaz de provar nada, j que os registros do FBI pareciam ter se perdido de alguma forma.
   - Mas Kate no est aqui. E ns temos que aceitar isso.
   Natalie se aproximou ainda mais da me. Ao mesmo tempo, passou a mo para sentir a corrente em seu prprio pescoo, e o amuleto de boto de rosa na ponta. O boto
de rosa era um talism dado pela av; Kate tinha deixado um amuleto diferente para cada um de seus filhos e netos.
   - Mame?
   - Hum?
   - s vezes eu sinto que ela est aqui.
   - Ai, Nat - murmurou rica com ternura. - Voc sempre foi a mais sentimental dos meus bebs.
   - Agora vamos entrar. Acho que tambm vou tomar um ch gelado.
   E durante todo o tempo em que Natalie e sua me estavam tomando ch gelado, Bernie sentava na ponta da doca, olhando longe sobre a gua at onde um barco de passeio
azul e branco flutuava nas correntes lentas do lago.

   - Isto  tolice pura, Kate. E voc sabe disso. - Sterling Foster levantou-se da cadeira de piloto do barco.
   Kate o observava. Ele era um homem bonito, alto e ainda em boa forma, mesmo aos sessenta e cinco anos. Seu cabelo era grosso e branco. Kate sempre gostara dele
e o admirara. Nos ltimos dezoito meses, desde o acidente com o avio, ela supunha que tinha ido alm de simplesmente gostar. Mas parou por a. Sua vida inteira
estava adiada at que essa crise estivesse resolvida. Ela nunca havia planejado ficar "morta" por tanto tempo, mas no podia imaginar como voltar sem destruir tudo
que havia conquistado; e tudo que ainda tinha para conquistar. O melhor amigo de Kate no estava satisfeito com ela.
   - Voc  uma mulher de aparncia distinta.
   - Ora, obrigada, Sterling.
   - culos escuros e um chapelo no vo escond-la de algum que a conhea.
   - No se irrite to facilmente, Sterling.
   - Voc morou na manso durante anos. A maior parte das pessoas em Travistown a conheceu pessoalmente. Qualquer um passando em outro barco pode reconhec-la.
   Kate olhou em direo  chcara onde, anos atrs, ela e Ben haviam sido felizes. Seu doce Bernie estava ali, sentado, com pacincia, na ponta da doca. O cachorro
estava esperando no mesmo lugar por quase uma hora. O corao de Kate balanou. Ele ainda teria que esperar um bom tempo antes de ver sua velha dona novamente.
   Kate se perguntava como Natalie estaria.
   Sterling interrompeu os pensamentos de Kate.
   - Vou lembrar a voc, Kate, que  voc quem insiste que pode fazer mais nos bastidores para descobrir quem est tentando destruir o nome dos Fortune... Se voc
for reconhecida...
   - Eu sei, Sterling.
   - Sterling, por favor, tente entender. Eu precisava vir aqui hoje.
   - Kate?
   - Desculpe. Estava s pensando.
   - Jake  um problema. Se toda essa situao das aes no for resolvida, ele pode perder tudo que voc e Ben trabalharam a vida inteira para construir.
   Kate o interrompeu com um aceno de mo.
   - Agora no. Por favor.
   Ela virou o rosto para ver a casa de fazenda novamente. Seu amado Bernie ainda estava l, esperando por ela...

   - O que voc est fazendo, rapaz? Estou procurando voc por toda parte.
   Natalie olhou o barco de passeio no meio do lago que flutuava na superfcie da gua, ondulada pelo vento. Era um dos barcos alugados.
   - Sinto muito, companheiro. No  ningum que conhecemos. - Natalie foi em direo  casa. - Vamos l.

   - Veja, Sterling - disse Kate. -  Natalie. - Kate pegou o par de binculos que estavam no assento. - Oh, cus. Estou vendo que ela esteve no sto. - Kate reconheceu
o vestido de lantejoulas e os sapatos plataforma cintilantes. J estava fora de moda h muito tempo quando Kate o vestiu; foi uma fantasia de Dia das Bruxas numa
festa vinte anos antes.
   - Ela precisa de amor de verdade, e um homem que dar a ela como ela sempre deu a todo mundo.  por isso que eu deixei a chcara para ela. Ben e eu encontramos
muita alegria ali. Talvez ela encontre, tambm. E Bernie vai ajudar. Aquele cachorro tem um faro para pessoas. Ele nunca gostou muito de Joel Baines. O que importa
 que Natalie est livre de Joel agora. Livre para encontrar um homem que a valorize.
   - Voc no acha que talvez esteja levando essa coisa de unir pares um pouco longe demais, Kate?
   - No, no acho.
   - Mas qual era o sentido de estipular que a casa tem que permanecer ocupada o tempo todo at que Natalie se case?
   - Naquela poca, parecia a coisa certa.
   - Bem, o que voc fez foi tornar tudo mais complicado. Toda vez que a pobre mulher quer ir a algum lugar, tem que encontrar algum para ficar na casa.
   - Eu quero saber de tudo que est acontecendo com ela. Mantenha contato com ela, est bem?
   - Voc sabe que eu sempre mantenho.

   No dia seguinte, Natalie estava cortando rosas para pr no salo quando Sterling Foster chegou. Ela o cumprimentou com um abrao e o conduziu para dentro da casa.
   - Ento, o que tem feito ultimamente? - perguntou ele enquanto ela lhe servia um copo grande de limonada.
   Ela contou tudo sobre os detalhes do cruzeiro. Ele j sabia que ela iria,  claro, uma vez que era ele que gerenciava o fundo de famlia dela.
   - Mas, lembre-se - alertou ele - pelos termos do testamento de sua av, esta casa deve permanecer ocupada e Bernie deve ter algum para tomar conta dele aqui.
   Ela garantiu a ele que no havia esquecido e explicou tudo sobre os timos locatrios que havia encontrado.
   - Rick vai se mudar no dia doze, um pouco antes da data prevista da minha partida.
   - Rick?
   - Sim. Richard Dalton. Seu filho pequeno se chama Toby. Rick  arquiteto. Trabalha na Langley, Bates e Shears, em Minepolis.
   - Voc deu a ele um formulrio para preencher?
   -  claro.
   - Posso dar uma olhada?
   - Ai, tudo bem. Se voc descobrir alguma coisa ruim,  melhor que me diga imediatamente.
   - Farei isso.


   Captulo 3

   O telefone estava tocando quando Natalie entrou. Ela estava carregando vrias sacolas de butiques exclusivas de Minepolis. Deixou as sacolas do lado de dentro
e correu para a extenso da cozinha.
   Era Sterling, ligando para dizer que tinha verificado a ficha de Rick Dalton. Estava tudo bem.
   - J estava mais que na hora de me ligar. Eles esto se mudando para c em dois dias.
   - Desculpe. Eu queria fazer um trabalho minucioso. E no h nenhum problema. Tenho certeza de que ele ser um bom inquilino.
   - Eu disse isso h mais de uma semana.
   - Eu sei, eu sei. A intuio venceu outra vez. Mas no  legal saber que os fatos do base aos seus instintos?
   Natalie concordou que sim. Ento, depois de prometer almoar com ele antes de partir para o Mediterrneo, se despediu.
   O telefone tocou novamente.
   - Natalie. Eu liguei um minuto atrs. O telefone estava ocupado.
   - Joel. Desista.
   - Natalie, ns temos que conversar.
   - No, no temos. Adeus, Joel.
   Ela olhou para Bernie.
   - Algumas pessoas simplesmente no entendem a palavra no.
   Bernie levantou a cabea e deu um enorme bocejo.
   - Exatamente o que eu sinto.
   Na saleta onde ficava a secretria eletrnica, viu que s havia uma mensagem. Uma mulher de fala suave, com sotaque britnico.
   - Ol. Meu nome  Jssica Holmes. Ai, isso  to difcil. Na verdade, estou ligando porque estou procurando parentes de Benjamin Fortune. Achei que talvez...
no sei como posso explicar... a no ser dizer que a questo  extremamente urgente. Eu agradeceria imensamente uma ligao de volta se voc for parente, ou conhece
Benjamin Fortune, na faixa dos setenta anos, que serviu na Frana durante a Segunda Guerra Mundial. - A voz deixou um nmero de Londres e se despediu.
   Como uma das poucas pessoas na famlia a manter um nmero na lista, Natalie pagava o preo por ser to acessvel; recebia muitos trotes.
   Pessoas totalmente estranhas tinham entrado em contato com ela em mais de uma ocasio com mensagens "urgentes". Inevitavelmente eram reprteres tentando um furo
de reportagem, ou pretensos negociadores que achavam que algum da famlia Fortune estivesse interessado em participar da base de algum esquema qualquer para ganhar
dinheiro que eles tivessem em mente.
   Porm, ningum antes tinha mencionado Vov Ben. Aquele era um ngulo ligeiramente diferente.
   Natalie ouviu de novo a mensagem da mulher e chegou a comear a discar o nmero que Jssica Holmes tinha deixado. Mas depois balanou a cabea e ps o telefone
na base. A, se deu conta de que Rick Dalton e seu pequeno garoto estariam chegando em dois dias. E Rick queria deixar Toby aqui, na saleta, para que estivesse por
perto se Toby tivesse pesadelos durante a noite.

   Quando finalmente chegou a manh em que ele e Toby retornariam ao Lago Travis, Rick estava pronto para ir.
    medida que se aproximavam da chcara, Rick tinha conscincia de que estava ansioso para ver Natalie Fortune novamente.
   Era loucura, e ele sabia disso, mas no podia tirar a morena encantadora de sua mente. Rick deu uma breve olhada para o garoto. Milagre dos milagres, Toby olhou
em seus olhos.
   - Animado? - Rick perguntou.
   Quando eles entraram no retorno em frente  casa, a cativante Natalie estava ali no gramado, da forma que Rick imaginara.
   O corao de Rick disparou. Vestida daquele jeito, com o cabelo para trs em um rabo-de-cavalo desgrenhado e o suor pelo calor e o exerccio fazendo sua pele
brilhar, ela era a fantasia viva que Rick Dalton tinha da garota da vizinhana. Ningum poderia adivinhar que ela era, na verdade, filha de uma das famlias mais
ricas e mais famosas da Amrica.
   Ela parou alguns centmetros da porta do carro.
   - Bem na hora.
   A risada de Natalie se ouvia alto enquanto o co se dirigia determinado ao lado de Toby no carro. Assim que alcanou a porta do carona, o enorme animal sentou-se
e deu um latido baixo e simptico.
   Toby abriu a porta do carro, desceu e abraou o cachorro. Rick, emocionado, observou.
   Ele deu uma olhadela em Natalie. Ela olhou nos olhos dele e sorriu: um sorriso suave, de lbios trmulos. Ela entendia o tamanho do passo que Toby estava dando.
E estava comovida.
   Um instante atrs, Rick a queria desesperadamente. Agora ele simplesmente a adorava. No havia dvida em sua mente agora de que a mulher e seu co eram absoluta
magia.
   - Venha - disse Natalie. - Vamos levar suas coisas para dentro.
   L dentro, Rick notou que ela j tinha arrumado a saleta como quarto de dormir. Ele levou as malas de Toby para l e ficou admirando as mudanas enquanto Natalie
seguia para a cozinha para deixar as sacolas de compras. Rick ainda estava analisando o quarto onde seu filho iria dormir quando ela apareceu  porta.
   - Ns trocamos a moblia daqui com as coisas do quarto no final das escadas.
   Rick estava parado do outro lado da cama. Ele tocou na colcha, que tinha figuras acolchoadas de avies.
   - Eu no me lembro de ter visto isso l em cima.
   - Tudo bem. Eu confesso. Comprei a colcha s para Toby. - Ela entrou no quarto, do lado oposto da cama ao que ele estava, e tocou na hlice de madeira da luminria
de avio que estava na mesinha-de-cabeceira. - E comprei esta luminria. - Ela apontou para o mbile de avio no centro do quarto.
   - Foi muita gentileza sua. Ter tanto trabalho para ajeitar o quarto para ele.
   - Trabalho nenhum.
   - Voc vai me deixar reembols-la por isso.
   - No, no vou.
   - Shh. Nem mais uma palavra a esse respeito. - Ela virou-se at a porta. - Agora, vamos l. Ainda no terminamos de descarregar o carro.
   Dentro de meia hora, Rick tinha todas as suas coisas e as de Toby arrumadas e o carro estacionado prximo ao de Natalie na garagem.
   Natalie estava mostrando a ele onde pr as compras quando ele disse a ela que queria levar o Lady Kate para o lago para um piquenique.
   - Tudo bem?
   -  claro.
   Rick pegou a ltima sacola, que estava cheia de coisas empacotadas, e dirigiu-se  lavanderia e ao pequeno armrio de despensa ali.
   Natalie ficou observando-o ir, lembrando a si mesma o que j estava fazendo desde que o homem e o menino chegaram, que Rick era o inquilino e ela era a proprietria.
E era s isso.
   Com o pensamento em Rick, Natalie foi at a geladeira e tirou um pacote de presunto fatiado, uma mostarda picante e um pote grande de ervas aromticas estilo
kosher.
   - O que voc est fazendo? - perguntou Rick.
   Ela olhou para a comida em suas mos. E caiu em si: estava a ponto de fazer sanduches para ele.
   Ela era um caso perdido; tinha sido assim com Joel. Ela emprestava dinheiro a ele e parte desse dinheiro ele nunca pagaria de volta. Ela corrigia os trabalhos
dele e limpava seu pequeno apartamento na cidade. Fazia as compras dele; e depois ficava esperando por ele toda noite quando ele aparecia trazendo roupa para lavar
debaixo do brao e o seu "boa-noite" era "O que tem para jantar?"
   Rick estava sorrindo.
   - O almoo j est pronto. Eu parei numa delicatessen antes de sair de Minepolis.
   -  mesmo?
   - Sim. Eles at puseram tudo em uma grande cesta de piquenique tima.
   Com muito cuidado, ela colocou o presunto fatiado de volta na gaveta de carne e a mostarda e os picles numa prateleira e fechou a porta da geladeira.
   - Oua. Tenho algumas coisas para fazer.
   - Droga. Eu estava esperando que voc viesse conosco.
   - Estava?
   - Sim. - Ele estava com uma camisa de tric azul escuro e calas caqui. A camisa marcava os contornos rgidos dos ombros dele. E com os braos dobrados daquele
jeito, os msculos de seus bceps estavam fortemente definidos. E seu cabelo escuro estava to brilhante, e at um pouco cacheado. Era o tipo de cabelo que qualquer
mulher iria querer passar os dedos nele. E tinha uma boca to linda. Natalie pensou que seria uma boca maravilhosa para beijar.
   - Natalie?
   - Hum. Sim?
   - Venha conosco. Por favor.
   - Est bem.
   - timo.
   E ela percebeu que estava suja com aquelas calas velhas e a camiseta suada.
   - D tempo de eu tomar um banho?
   - Claro.
   - Alguns minutos. No levarei muito tempo.
   - Vou sair e procurar Toby e o cachorro.
   - Faa isso.
   Natalie desceu vinte minutos depois, refrescada pela ducha e vestida com um short branco, uma camisa de acampar de seda vermelha e um par de sandlias. Todos
foram at a doca nos fundos e entraram no barco, onde Rick ps a cesta do almoo na grande cozinha da cabine, e em seguida recebeu uma lio rpida de Natalie sobre
como operar o barco. Como ningum planejava andar de esqui aqutico, eles deixaram para trs o barco menor.
   Para sair pela primeira vez, Natalie recuou o Lady Kate da rampa dentro do barco, para que Rick visse como se fazia. Depois, uma vez que eles tinham se lanado
e apontado na direo certa, ela entregou o timo para Rick.
   Muitos quilmetros depois, eles desligaram o grande motor e deixaram o barco  deriva. Rick trouxe o almoo. Enquanto eles devoravam o frango assado ao limo
e a salada de macarro, Rick brincou com Toby que Bernie ficaria gordo se ele no parasse de lhe dar comida.
   - Se ele ficar gordo, vai quebrar o cho da chcara - disse Natalie.
   - Vai afundar o barco - alertou Rick.
   Natalie acrescentou:
   - A doca vai afundar quando ele estiver nela.
   Quando j tinham comido o suficiente, o garoto e o cachorro se esticaram no convs, enquanto Natalie e Rick ficavam nos bancos junto  proa. Eles estavam encostados
no parapeito e olhavam para a costa, admirando os cavalos que se viam entre as rvores.
   - Ali  a manso da minha famlia. - Natalie apontou para uma casa imponente, estilo grego revivido, e muitas janelas brilhando.
   - Impressionante - disse Rick.
   Um surto de tristeza tomou conta de Natalie. Ela tinha falado com o pai dois dias antes. Ele parecia pssimo.
   Ele tinha dito a ela para no acreditar em tudo que lia nos jornais.
   Agora, ela se via dizendo a Rick:
   - Quando eu era uma garotinha, parecia que ns passvamos mais tempo naquela casa ali do que na nossa prpria casa em Minepolis. Ns vnhamos nos fins de semana,
mesmo na poca mais rigorosa de inverno, quando o cho estava todo coberto de branco e tnhamos que passar a maior parte do tempo dentro de casa. E no vero, s
vezes vnhamos e ficvamos durante semanas seguidas. Vov Kate e Vov Ben viviam juntos ali, at ele morrer, cerca de dez anos atrs. Quando eu era pequena, minha
tia Rebecca... ela  a mais jovem de Vov Kate e Vov Ben. Talvez voc tenha ouvido falar dela?
   - Rebecca Fortune... a escritora de mistrio?
   - Sim,  ela. Enfim, Tia Rebecca ainda era criana, tambm. Ento ela morava na manso. E meu tio Nathaniel trazia a famlia para visitar, da mesma forma que
meu pai e minha me nos traziam: o tempo todo. Ento o lugar sempre parecia estar cheio de crianas. - Rick observava Natalie, com um leve sorriso.
   - Quantos irmos e irms voc tem?
   - Trs irms, um irmo.
   - Uma grande famlia.
   - Voc parece ter um pouco de inveja.
   - Tenho sim - admitiu ele. - Eu era filho nico.
   - Voc queria irmos?
   - Acho que sim.
   Ela confessou:
   - Houve vezes em que eu poderia desistir de um ou dois dos meus.
   - Quais deles?
   - Isso  pergunta que se faa?
   - Qual o problema?
   - Ai, tudo bem. As gmeas. Allie e Rocky.
   - Allie  a modelo.
   - Sim. E Rocky  igualzinha a ela. Elas so idnticas. Duas das mulheres mais lindas do mundo. Rocky  piloto, como Vov Kate.
   - Por que voc as daria a algum?
   - Eu disse isso?
   - Vamos l. Conte.
   Ela riu.
   - Tudo bem. Porque eu tinha muito cime delas. Elas tinham aquela coisa que as gmeas idnticas tm com tanta freqncia. s vezes era como se elas lessem a mente
uma da outra, sabe? E, embora fossem apenas dois anos mais jovens que eu, ficava sempre excluda.
   - Ento voc tinha cime da proximidade delas.
   - Sim. E no  s isso. Por que estou lhe contando tudo isso?
   - Porque eu perguntei. Continue.
   - No  importante.
   - Natalie, eu quero ouvir.
   - Bem, para mim sempre pareceu que, entre as duas, Allie e Rocky eram perfeitas.
   - Perfeitas?
   - Aham. Elas pareciam ter todo e qualquer trao desejvel que faltava em mim. Beleza e coragem, um esprito de aventura, um ar de excitao que as seguia onde
quer que fossem. E voc sabe de uma coisa?
   - O qu?
   - Elas ainda so assim. Lindas e inteligentes e bravas e excitantes. E Caroline, minha irm mais velha, tambm  tima. A verdade  que eu sou a irm chata.
   - Voc est querendo ouvir elogios?
   Ela confessou:
   - Com certeza  o que parece, no ?
   Ele se aproximou dela, ela sentiu que ele tinha um cheiro exatamente to bom quanto sua aparncia. Ele disse:
   - Voc no  chata.
   Ela deu um suspiro. Rick era um rapaz timo. Ela recuou para afastar-se dele. Quando ela e Rick voltaram ao seu lugar no banco acolchoado, Natalie se viu perguntando
a ele:
   - Seus pais ainda esto vivos?
   - Eles morreram quando eu era adolescente. Um curto-circuito que ps fogo na casa. Tarde da noite, quando estvamos dormindo. Eu acordei e consegui tirar a mame
de dentro, mas no consegui encontrar o papai. Um vizinho me salvou, mas... nenhum dos dois conseguiu. Ela pegou na mo dele.
   - Que triste.
   - Isto foi h muito tempo. Eu fui morar com meu tio e minha tia, mas eles no tinham filhos, tambm. Enfim, eu sempre quis um monte de irmos e irms...
   Ento, lentamente, ele virou a mo e envolveu os dedos nos dela.
   Ela percebeu que ele estava sorrindo por algo atrs dela.
   - Que foi? - perguntou, virando-se.
   Bernie estava estirado no convs, adormecido. E Toby estava usando o co como um travesseiro gigante. A grande barriga marrom e branca servia de bero para a
cabea pequena e de cabelos escuros. Os olhos do menino estavam fechados.
   Natalie virou-se novamente para Rick. Ele sorriu para ela, olhando fundo em seus olhos. E por um momento, sentados ali, de mos dadas enquanto o menino e o co
dormiam to em paz a poucos metros de distncia, parecia a coisa mais natural do mundo.
   Natalie Fortune, voc est fora de si? Aquela voz em sua cabea alertava. Sem perceber, voc logo estar lavando as roupas dele e criando aquele menino adorvel.
   E foi a que percebeu que estava realmente tendo problemas. Joel ainda se recusava a admitir que tinha sido deixado. Era muito cedo para se apaixonar por outro
homem, especialmente um homem como aquele. Um homem que era bom demais para ser verdade.
   Ela se soltou da mo dele.
   - Natalie? - A voz dele era to gentil.
   - Hum?
   - Voc... est bem?
   - Claro - mentiu.
   E estava quente. O ar acariciava sua pele mida, refrescando um pouco.
   Rick estava encostado no parapeito.
   - Est quente.
   Ele continuou olhando para ela.
   - Muito.
   - Engraado. Quando as pessoas pensam em Minnesota, pensam na neve. Mas ns temos veres, tambm.
   - Com certeza temos.
   Ela enfiou a mo no bolso do short e encontrou uma fita de elstico para cabelo, que usou para arrumar rapidamente o cabelo molhado num rabo de cavalo alto. -
Melhor - disse, e se forou a sorrir diretamente para ele.
   - Eu estou... sozinho j faz um bom tempo.
   E em seguida, com uma ou duas olhadas para o filho que dormia, ele tranqilamente comeou a contar sobre sua ex-mulher, Vanessa Chandler, que ele tinha conhecido
na festa de Natal de um amigo e com quem se casara um ano depois. Ele confessou que no tinha dado tanto tempo e ateno ao casamento como deveria. Ele tinha usado
muita energia para ter sucesso no trabalho, e no para o casamento. Vanessa tinha se sentido rejeitada.
   E ainda, depois, ele no tinha sido um bom pai para Toby. Vanessa tinha se divorciado dele quando Toby tinha apenas um ano, e depois se mudado de volta para Louisville,
onde sua me viva morava, levando Toby consigo. As visitas com Toby tinham sido poucas e com longos intervalos. Vanessa teria sido perfeitamente feliz de nunca
mais olhar para a cara de Rick, desde que ele enviasse os cheques para o sustento no tempo certo. E Rick tinha estado to ocupado em progredir que no se empenhava
em suas responsabilidades de pai como deveria.
   - Ento agora estou tentando me reconciliar com meu filho.
   - Acho que voc est tendo um timo comeo.
   - E voc?
   - Se eu j fui casada?
   - Sim, para comear.
   - Nunca me casei.
   - E "relaes significativas"?
   E logo estava contando a ele sobre Joel, como ela o conhecera quando comeou a trabalhar na escola de Travistown e como eles ficaram juntos por cinco anos. Que
Joel havia terminado com ela cerca de um ms atrs. Que ela havia ficado profundamente magoada no comeo, mas tinha passado por cima.
   - E agora, estou planejando aproveitar plenamente minha liberdade.
   - Por isso o longo cruzeiro decadente?
   - Acertou. O cruzeiro  minha tentativa de fazer algo puramente auto-indulgente alguma vez, algo que no tenha a ver com crianas ou as necessidades emocionais
de outras pessoas.


   Captulo 4

   - A primeira vez foi arriscado, Kate - disse Sterling. - Mas desta vez  tolice pura. E voc pode por favor abaixar esses binculos? Estamos perto o suficiente
para que a luz do sol reflita as lentes.
   Kate apontou para a proteo sobre sua cabea.
   - Estou na penumbra. - Ela ajustou o foco dos binculos. Dava para ver Bernie, olhando de volta para ela. E, ao correr os olhos para a direita apenas um pouco,
pde ver a cabea de Rick Dalton de costas e o rosto doce e gentil de Natalie. Eles estavam prximos um do outro, aparentemente em plena conversa.
   - Kate. - Sterling esticou o brao e tomou os binculos das mos dela.
   Ela olhou para ele, irritada.
   - Sterling.
   Ele estava na popa, depositando os binculos na estante embutida ali.
   -  ali que vai ficar - disse ele.
   - Ai, tudo bem. Faa da sua maneira. - Kate amarrou novamente a echarpe que estava usando e ajustou os culos escuros. Ento pegou um leno branco e enxugou a
testa.
   - Voc no deveria estar aqui.
   - Eu sei, eu sei. - Ela acariciou a mo dele. - Eu tinha que ver pessoalmente o homem e o garoto. E sinto que sero muito mais que simplesmente os inquilinos
perfeitos. Espere e ver.
   - timo. Temos que lidar com alguns problemas muito mais srios do que se Natalie vai encontrar um novo namorado ou no.
   - Nada  mais srio que o amor.
   - Voc sabe o quanto as aes da empresa caram? Ontem, fechou em...
   - Eu sei em quanto fechou ontem.
   - Os acionistas esto berrando. E cada empregado que voc tem est horrorizado sobre o que vai acontecer depois. A segurana foi violada. Horrivelmente. A Frmula
Secreta da Juventude...
   Kate acenou com a mo e Sterling se ps em silncio.
   - Eu sei, eu sei.
   A Frmula Secreta da Juventude era o xod de Kate na Cosmticos Fortune, uma mistura em gel, ainda no perfeita, de certas ervas e extratos de vitamina que poderiam
realmente reverter o processo de envelhecimento.
   No muito tempo atrs, algum havia invadido o laboratrio e roubado a frmula. Provavelmente a mesma pessoa que iniciara a srie de incndios nos laboratrios.
E tentara matar Kate. E enviara um capanga para fingir ser um f enlouquecido que seqestrou Allie. E continuou a causar problemas.
   - At agora estamos levando.
   - Todo mundo est prximo de desabar. Seus dois filhos esto brigando. Nathaniel sempre sentiu que poderia administrar a empresa melhor que Jake. E recentemente,
com tudo o que Jake vem fazendo, estou comeando a concordar com ele.
   - No final, tudo ficar bem.
   - Mas faremos isso a tempo? Existe esta tal de Ducet maldita.
   - Ela  um problema.
   - Ela  mais do que um problema.  uma mquina de imprensa marrom. Vive dando entrevistas a jornais sensacionalistas sobre como a famlia no a est aceitando.
   - Uma vez que ela no  minha filha, no vejo nenhuma razo por que a famlia deveria aceit-la.
   O filho perdido de Kate, gmeo de sua primeira filha, Lindsay, era um garoto. Kate sabia disso. E Ben tambm sabia. Mas quando a criana foi seqestrada, pouco
depois de nascer, o FBI solicitou que a informao ficasse secreta para manter controle mais prximo da investigao. O sexo da criana nunca tinha sido divulgado
ao pblico. E Kate tinha proibido que se mencionasse a criana nos anos seguintes.
   Agora, por causa dos registros perdidos do FBI, excetuando os prprios seqestradores, Kate era a nica pessoa cuja declarao poderia acabar com a herdeira falsa
de uma vez por todas.
   - A ltima coisa que precisamos neste momento  mais imprensa negativa - disse Sterling.
   - Eu quero que a senhora Tracey Ducet jogue todas as suas cartas antes que a desmascaremos. Quero saber o que ela est querendo. E quero descobrir se ela tem
algo a ver com nossos problemas, desde os incndios no laboratrio at o seqestrador que provocou o acidente com meu avio.
   - Estou preocupado com Jake. Ele se comporta como um homem  beira de fazer algo desesperado.
   - V v-lo. Imediatamente. Tente fazer com que se abra para voc. Faa o que voc puder. E me d um relatrio completo. - Ela se levantou e foi at a popa.
   - Kate. No...
   Mas ela j tinha tirado os binculos da estante.
   - s vezes voc  to imprudente. - resmungou Sterling. Kate apenas sorriu e virou o foco dos binculos, de forma que pde ver o homem e a mulher no outro barco.

   No Lady Kate, a conversa tinha parado.
   - O que voc est olhando? - Rick perguntou.
   - No  o que eu estou olhando.  o que eu estou procurando.
   - Tudo bem, senhorita Fortune. O que voc est procurando?
   - O monstro camarada do Lago Travis.
   - O qu?
   Ainda encarando as profundezas ligeiramente cheias de musgo, ela explicou:
   - Quando eu era uma garotinha, e Vov Ben me levava para passear neste barco, ele olhava dentro d'gua e dizia que tinha visto o monstro camarada l embaixo.
   Eles sorriram um para o outro.
   O olhar de Rick se desviou para a boca de Natalie.
   Ela sabia, ento, que ele ia beij-la. E queria que ele a beijasse. Mas, alguma voz mais sensata bem no fundo de sua mente a repreendia deliberadamente.
   Ela se afastou dele. Rick franziu a testa.
   - Veja, Natalie, tu...
   Antes que ele pudesse dizer mais uma palavra.
   - E melhor irmos embora.
   - Tudo bem.
   Eles perceberam que Toby e o co no estavam mais l. Rick parou.
   - Ele nunca se afasta.
   - Tenho certeza de que eles s foram para dentro. Rick j estava  porta da cabine.
   Do lado de dentro, encontraram Bernie sentado em frente a um armrio da despensa do outro lado da rea do balco da cozinha. O co olhou para eles, deu um ganido
suave, em seguida ergueu uma pata gigante e arranhou a porta do armrio.
   Rick ajoelhou-se e abriu a porta.
   Toby estava ali, no espao escuro, com as pernas recolhidas junto ao peito estreito e os braos envolvendo os joelhos.
   - Toby, saia da.
   O garoto se encolheu ainda mais e escondeu a cabea entre os joelhos.
   - Venha, j...
   Toby apertou ainda mais o corpo para se encolher. Natalie estava atrs de Rick.
   - Ele faz isso s vezes - disse Rick. - Encontra um espao bem pequeno para se esconder e no sai dali. A mdica diz que eu no deveria me preocupar muito com
isso.
   Natalie teve uma idia.
   - Por que voc no se junta a ele?
   - O qu?
   - Entre ali junto com ele.
   Rick olhou para ela como se ela tivesse descoberto a plvora.
   - Confie em mim. Tenho certeza do que digo. - Ela dobrou os braos e tentou parecer supremamente confiante, embora no tivesse a menor certeza se a idia funcionaria
ou no. Mas, pela sua experincia, crianas com problemas s vezes reagiam de forma positiva aos adultos que se dispunham a aventurar-se no mundo delas junto com
elas. - V em frente, Rick. Faa isso. - Por alguns segundos, Rick no se mexeu. Em seguida, se ps de joelhos.
   - Isto tem que funcionar.
   Ento ele instruiu:
   - Chegue para l, filho. Deixe-me entrar.
   Ainda encolhido, o garoto deslizou mais para o fundo do armrio. Rick no cabia ali, mas conseguiu entrar com a cabea e os ombros.
   - Vocs dois, divirtam-se. Vou ligar o motor do Lady Kate e levar-nos de volta para casa.
   - Voc se sente seguro a dentro, Toby? - Rick perguntou, mesmo sabendo que no haveria resposta.
   Dra. Dawkins lhe dissera para no ficar preocupado demais quando Toby resolvesse se esconder, que espaos confinados s vezes significavam segurana para uma
criana problemtica. Toda vez que acontecia isso, Rick se lembrava das palavras da mdica, e em seguida se sentia totalmente preocupado do mesmo jeito. Esta vez
no era diferente das outras, a no ser que agora, estando junto com o filho no minsculo espao, ele tambm se sentia como um perfeito idiota. Mas Natalie tinha
sugerido isso. E Natalie parecia ter um sexto sentido sobre Toby.
   Pouco depois, Rick sentiu o toque de pequenos dedos em seu cabelo. Levou um instante para perceber que o filho estava tentando pegar a cabea dele com suas mos
pequenas. Rick fez o que pde para se mover at onde Toby o empurrava.
   Um instante depois, sua cabea repousava sobre um par de joelhos magrinhos. Quando o barco finalmente parou, Toby empurrou o ombro de Rick. Rick se contorceu
para sair do armrio. Toby se arrastou para fora atrs dele.
   - Tudo certo? - era Natalie, parada na porta do deck.
   - Tudo timo - respondeu Rick.
   O cu tinha ficado nublado durante a viagem de volta  costa. Enquanto eles atracavam o barco e carregavam a cesta de piquenique de volta para a casa, as primeiras
gotas de chuva caam. Rick ergueu a cabea em direo  chuva e pensou novamente que Natalie Fortune realmente era mgica.
   Estava interessado nela.
   Aquilo era uma surpresa para ele. Ele vinha dizendo a si mesmo pelos ltimos quatro anos que no se envolveria com uma mulher por um longo tempo. Natalie era
diferente de qualquer mulher que ele j tinha conhecido.
   Ela se afastou de seu beijo quando estavam a bordo. Mas ele tinha sido muito rpido, agora ele percebia isso. Iria com mais calma.
   Quem poderia dizer o que aconteceria em duas semanas estando juntos noite e dia?


   Captulo 5

   Enquanto Rick decidia que queria se aproximar, Natalie determinava que uma certa distncia deveria ser mantida. Assim que chegou, Natalie ligou para sua tia Lindsay.
Lindsay Fortune Todd era uma mdica que morava do outro lado do lago com o marido e dois filhos. A casa grande e confortvel deles no era muito longe da manso
da famlia. Tia Lindsay trabalhava at tarde no Hospital Geral de Minepolis como pediatra. Geralmente, quando Natalie ligava sem planejar, acontecia de a tia estar
trabalhando. Mas hoje ela estava com sorte. Lindsay atendeu ao telefone.
   - Nat - disse Lindsay, muita afetuosa. - Por onde voc tem andado?
   Natalie deixou de lado o sentimento de culpa. Desde que decidira mudar de vida, vinha evitando situaes que envolvessem a famlia. Mas, naquele momento, todos
os problemas na famlia eram como se no houvesse nada a se preocupar quando comparados ao olhar carinhoso de um certo par de olhos azuis.
   - Ento por que voc no d uma passada aqui? - perguntou Lindsay. - Frank vai fazer hambrgueres hoje  noite. Se a chuva parar, vamos comer no deck.
   Era exatamente o que Natalie esperava que a tia dissesse.
   - Eu adoraria. Estarei a em uma hora, mais ou menos.
   - Minha tia Lindsay me convidou para jantar - disse a Rick alguns minutos depois. Ele estava sentado no salo, folheando uma revista enquanto Toby assistia 
televiso, com Bernie ao seu lado.
   - Divirta-se. - Ele sorriu para ela.
   A chuva havia parado e o cu comeava a clarear quando Natalie dirigia e percebeu um carro esportivo, que nunca tinha visto antes, estacionado em frente  entrada
da casa da tia.
   Natalie piscou ao deparar com uma verso mal-acabada de tia Lindsay. Natalie estava olhando para Tracey Ducet, a mulher que reivindicava ser a irm gmea desaparecida
de Lindsay. Ao lado de Tracey, ela via o namorado espalhafatoso da moa, Wayne. Lindsay e Frank estavam ali, tambm.
   - Nat, como voc est? - Tracey agarrou Natalie com um abrao. - Eu s dei uma passadinha para dar um al para minha irm gmea. - Tracey deu um sorriso. - Mas
realmente temos que ir embora.
   Tracey correu porta afora, Wayne saindo atrs.
   O silncio no vestbulo depois da sada deles dizia tudo.
   - O que  que foi aquilo? - Natalie perguntou.
   - O que voc acha?
   - Ela quer dinheiro - explicou Lindsay. - Um pequeno emprstimo de sua irm gmea, at que tudo se esclarea e saia sua herana.
   - Meu Deus! E o que voc disse a ela?
   - Eu disse que no - disse Frank.
   - Mame! - Era Carter, o filho de seis anos de Lindsay e Frank, chamando-os do outro quarto.
   - Estou indo! - Lindsay segurou Natalie pelo brao. - Vamos l. Vamos abrir uma garrafa de vinho, preparar nossos hambrgueres, e esquecer o que acabou de acontecer.
   No deck dos fundos, Natalie ajudava Chelsea, de oito anos, a pr a mesa, enquanto Frank preparava os hambrgueres numa grande grelha a gs. Eles tomavam vinho
e comiam ao som dos repelentes de insetos eltricos que Frank instalara pelo deck.
   Depois da refeio, Frank levou Chelsea e Carter at Travistown para tomar sorvete. Uma vez que a empregada tinha tirado o fim-de-semana de folga, Lindsay e Natalie
limparam a cozinha.
   A conversa, como Natalie j podia esperar, se voltava aos problemas na famlia. Lindsay estava preocupada com o irmo Jake.
   - Sempre que eu ligo para ele, ele diz para eu no passar l. Ele est muito ocupado. Ou est de sada. Mas eu o vi em Travistown ontem mesmo, Nat. Ele passou
bem do meu lado. Eu tive que cham-lo trs vezes at ele me ouvir. Depois, por um minuto, ele olhou para mim como se estivesse se perguntando quem eu era. E est
com uma aparncia terrvel. Olhos vermelhos e olheiras. Como se no dormisse h dias. Eu sei que ele no lidou bem com a transio desde a morte de Mame. Tomou
algumas decises realmente ruins para a empresa. E esse lance com Mnica Malone e as aes que ele passou para ela... E voc conhece seu pai. Acha que tem que cuidar
de tudo sozinho. Seu pai  e sempre foi um homem difcil de se conhecer. Mas, ultimamente, est impossvel. Espero apenas que ele fique bem.
   - Eu tambm.
   - E eu me sinto... to mal por causa dessa tal de Ducet. E, no entanto... ela realmente  idntica a mim.
   - Ela  to...
   - Vulgar? - sugeriu Natalie.
   Lindsay suspirou.
   - Foi voc que disse, no eu. Ser que eu sou uma total esnobe?  isso?
   - No. Voc no  esnobe.
   - Eu acho que ela  uma farsa - disse Lindsay.
   - Todo mundo na famlia acha. Papai tem que mandar investigar o histrico dela.
   - Voc tem razo. Ele est fazendo isso.
   - Eu sabia. - Natalie lembrou-se do detetive que tia Rebecca havia encontrado para investigar a morte de Vov Kate.
   - Gabe Devereax, certo?
   - Certo. E Gabe est fazendo o que pode. Mas Tracey no est ajudando. E quanto ao casal que a criou esto os dois mortos. Gabe no pode nem procurar a certido
de nascimento dela. Ela reivindica que nunca teve uma. Como pode uma mulher de trinta e sete anos nunca ter precisado de uma certido de nascimento?
   - Parece que tudo que voc tem a fazer  esperar - disse Natalie. - Em algum momento o detetive de tia Rebecca vai descobrir a verdade sobre sua suposta irm
gmea h muito perdida. E nesse meio tempo, no lhe d dinheiro nenhum.
   - No se preocupe. Frank no deixar.
   - timo.
   - Eu acho que tem mais vinho naquela garrafa.
   - Hum... - disse Lindsay.
   - Perfeito. Voc serve.
   Lindsay virou-se para Natalie e sorriu.
   - Alm de ser uma de minhas sobrinhas preferidas, voc tambm  uma grande amiga.
   Lindsay trouxe taas limpas e as encheu com vinho.
   - E como est sua caa a um inquilino?
   - No contei? Encontrei o inquilino.
   - J? - perguntou tia Lindsay.
   - Sim. Ele j se mudou. Rick Dalton  o nome dele. Um pai solteiro. Com um filho adorvel de cinco anos chamado Toby. Naturalmente, Toby adora Bernie. E vice-versa.
   Lindsay pegou uma das taas de vinho e tomou um pequeno gole.
   - Ento, a criana  adorvel. E a criana adora o co e o co adora a criana. Mas a pergunta , e quanto ao pai solteiro. Ele  adorvel?
   - D-me mais vinho.
   - Sinto romance no ar.
   - Nem pense nisso.
   - Mas, Nat, por que no? - Lindsay deu um gole de sua taa. - Aquele vagabundo do Joel Baines realmente deixou voc muito machucada, no foi?
   - No foi somente Joel. ... tudo.
   - Tipo?
   Natalie pensou em Vov Kate, que tinha partido para sempre. E seus prprios pais, separados. E todos os problemas com as Indstrias Fortune. E o pai, outrora
firme, parecia que iria desmoronar a qualquer momento.
   - Vamos l para fora?
   - Voc no quer mesmo falar sobre isso?
   - Isso.
   - Tudo bem. Mas voc sabe que estou aqui, a qualquer momento. - Natalie agradeceu  tia e mudou de assunto.
   A noite terminou pouco depois que Frank e as crianas voltaram. Passava um pouco das oito.
   Natalie ficou atrs de alguma coisa para fazer at as dez ou onze. Tinha esperana de que Rick estivesse dormindo quando ela chegasse em casa.
   Talvez uma conversa franca fosse necessria.
   Ela se sentia um pouco desconfortvel ao pensar nisso. Tinha passado uma tarde com o homem. Certamente, eles no haviam atingido o estgio das conversas francas.
   Mas ento ela se lembrou das coisas que tinham dito. A eletricidade sutil no ar quando ele estava por perto. O beijo que quase aconteceu.
   Ele assistia  televiso no salo perto da cozinha quando ela chegou em casa. Ele olhou e acenou para ela.
   - Foi legal?
   - Sim. Foi timo. Onde est Toby?
   - Foi dormir.
   Bernie, que estava estirado aos ps de Rick, levantou-se e foi cumpriment-la.
   Natalie percebeu que havia uma mensagem em sua secretria eletrnica. Apertou o boto de reproduzir e l estava Joel:
   - Natalie, tudo bem. Se voc se recusa a me dar outra chance, bem, esta  uma deciso sua, e eu acho que terei que aprender a conviver com isso. Mas estou mesmo
com um pequeno problema. Lembra daquela minha camisa azul de estampa havaiana? Bem, no estou conseguindo encontr-la. Queria saber se ficou com voc. Eu realmente
adorava aquela camisa, Natalie, ento espero que voc seja compreensiva e...
   Ela apertou o boto de parar e reiniciou o aparelho, xingando, em silncio, Joel e sua camisa azul de estampa havaiana. Ento ela lanou uma olhada rpida para
Rick, de costas para ela.
   - Venha, Bernie - disse.
   - Boa noite - gritou a Rick.
   - Boa noite - ele respondeu.
   Enquanto subia as escadas at seus aposentos, Natalie resolveu que uma conversa franca era a ltima coisa de que ela e Rick Dalton precisariam.
   Apenas para ser justa com Joel, antes de ir para a cama, ela vasculhou o armrio atrs da camisa azul de estampa havaiana dele; no estava l.
   No dia seguinte, um domingo, Rick decidiu passear com o Lady Kate novamente aps o caf da manh. Ele convidou Natalie. Ela agradeceu, mas recusou.
   Ele perguntou se talvez pudesse levar Bernie.
   - Voc sabe como Toby fica por causa de Bernie.
   - Claro. Bernie adora passear de barco.
   - timo. Obrigado - disse Rick.
   Por volta das quatro, Natalie resolveu fazer sua caarola de galinha com brcolis preferida.
   A caarola estava no forno quando o Lady Kate finalmente apareceu. Natalie se ps  janela no salo e observou quando o barco chegou ao abrigo.
   Dez minutos depois, Rick entrou pela porta dos fundos. Toby e Bernie entraram como em marcha atrs dele e foram direto para o hall central.
   - Lave as mos, Toby! - Rick disse para o filho.
   Natalie o observou por um instante, depois props:
   - Eu fiz jantar para todos ns.
   - Que timo! Est com um cheiro divino. A que horas comemos?
   - Em quarenta e cinco minutos?
   - Vou lavar as chapas do repelente de insetos, e j ponho a mesa.
   - Combinado.
   Toby reapareceu, Bernie prximo atrs dele, apenas alguns minutos depois que Rick partiu. Natalie j tinha cortado a salada, e os pezinhos estavam quase prontos,
quando ela decidiu se manter ocupada pegando os pratos e dispondo-os na mesa. Toby veio e se sentou num banco perto dali, ela sorriu para ele. Ele sorriu de volta.
   - Hora de pr a mesa - disse ela.
   Mas Toby aparentemente achou que ela estava lhe dando instrues. Porque saiu do banco e pegou os pratos. Natalie observava, contente, enquanto Toby carregava
os pratos para a mesa do caf da manh e os distribua.
   - Excelente - disse, analisando os pratos e seu posicionamento na mesa. - Voc sabe como colocar os talheres, copos e guardanapos?
   Toby balanou a cabea.
   Ela mostrou a ele, dispondo cada pea no local adequado.
   - Voc acha que pode fazer isso?
   Ele balanou a cabea, afirmativamente. Cuidadoso, ele comeou a tarefa. Quando terminou, alguns utenslios estavam na posio errada, mas fora isso tinha sido
um bom trabalho.
   Natalie estava dizendo isso a ele quando Rick voltou. Ela olhou para ele quando entrava pelo corredor.
   - Voc no precisa pr a mesa. Toby j ps.
   - Ele o qu?
   - Ele ps a mesa. - Natalie disse mais uma vez. Rick foi at o lado de Natalie e examinou o trabalho do filho. Natalie tentou no pensar no cheiro bom e limpo
que ele tinha.
   - Isso est simplesmente...
   Natalie pde ouvir a comemorao na voz dele, e ps a mo no brao dele. Ele olhou para ela.
   - Bom - disse ela, uniforme. - Est bom.
   Ele entendeu a deixa de que no deveria se empolgar tanto.
   - Sim - ele concordou. - Est bom.
   Com um sorriso tmido, Toby virou as costas para eles e se dirigiu ao salo, onde ligou a televiso e se estirou no tapete em frente a ela. Bernie, que estava
sentado  mesa do caf da manh enquanto Toby arrumava os lugares, levantou-se e foi se deitar ao lado do menino.
   - Voc faz milagres - Rick cochichou no ouvido dela.
   - Talvez Toby esteja pronto para assumir algumas tarefas na casa.
   - Talvez esteja sim.
   Eles sorriram um para o outro. E ento ela percebeu que ainda estava segurando o brao dele. Largou e recuou.
   - Qual  o problema?
   - Ns temos que conversar.
   Ele no parecia nem um pouco surpreso.
   - Quando?
   - Hoje  noite. Depois que Toby for para a cama.
   - Voc est... interessado em mim... como mulher, digo?
   - Sim.
   Ela deu um suspiro.
   - Eu achei que sim.
   - Voc no quer que eu me interesse?  isso que est acontecendo?
   Ai, mas eu quero! Ela disse a ele que se calasse.
   - Eu no quero me envolver com ningum agora. Ele a observou, seus olhos azuis ofuscados pela luminria.
   - Por causa do cara da camisa havaiana?
   Ela deu um pequeno suspiro.
   - Ento voc ouviu aquela mensagem.
   - Eu estava junto  pia...
   - Aquele era Joel.
   - Seu ex, certo? Aquele sobre o qual me falou ontem, que terminou com voc um ms atrs.
   - Certo. Recentemente, no entanto, ele mudou de idia. Eu quero... um tempo sozinha.
   - Entendo.
   - Ai, Rick. Quando voc veio para ver a casa aquele dia, eu fiquei to feliz. E gostei tanto de voc. E de Toby, tambm. Eu sabia que tinha encontrado as pessoas
certas para morarem aqui com Bernie enquanto eu estivesse fora. Eu no percebi...
   - Que voc gostava de mim de mais de uma maneira.
   - Eu...
   - Deixe disso, Natalie. Est no ar, toda vez que a gente se olha. Ento, voc sente alguma coisa por mim, tambm?
   - Eu... sim.
   - Mas voc no quer investir nisso.
   -  que... foi to de repente para mim. No  o que eu estou procurando.
   - E o que voc est procurando?
   - No sei exatamente. Ultimamente, meu mundo inteiro parece to maluco. Virado de cabea para baixo. Se voc l jornal ou assiste aos noticirios, sabe a confuso
em que minha famlia est. E a tem minha vida pessoal. Eu realmente pensava que amava Joel. Mas depois que ele terminou comigo, comecei a ver que ele tinha sido
mais um hbito que qualquer outra coisa. Eu achava que estava segura com ele. Ele dependia de mim. Precisava de mim, eu pensava, e eu... ai, voc no quer ouvir
isso, quer?
   - Voc est confusa. Pelo menos voc est sendo honesta comigo. Ento, o que fazemos?
   - Eu poderia... me mudar para o outro lado do lago, at chegar a minha hora de partir.
   - Essa perspectiva no parece empolg-la.
   - E no empolga. As coisas esto bastante sombrias do lado de l, e eu estou tentando ficar por fora dos problemas que minha famlia est tendo.
   - Existe outra opo. Toby e eu podemos nos retirar.
   - No. Realmente. No quero isso. Eu sinto que este  o lugar em que Toby gostaria de estar agora. E vocs ainda so os inquilinos perfeitos. A no ser por essa...
coisa entre mim e voc.
   - Eu concordo com voc, quanto a Toby pelo menos. E neste momento, na minha vida, Toby  o que mais importa.
   - Ento voc quer ficar?
   - Sim. E voc no quer ir?
   - No, a menos que eu tenha que ir.
   - Ento o que fazemos?
   - Bem...
   - Diga.
   - Tudo bem. Eu estava pensando que poderamos tentar nos evitar.
   - Evitar?
   - Sim.
   - Sem mais caarolas de frango com brcolis?
   - Certo. J que voc est alugando o lugar, voc tem prioridade. Vou me adaptar a voc. Ou eu comerei fora ou usarei a cozinha quando voc no estiver.
   Ele balanou a cabea.
   - Eu no sei o que pode acontecer.
   - Vamos nos dar uma chance, pelo menos. E se no funcionar, vou encontrar outro lugar para ficar.
   Mais tarde, na cama, Rick disse a si mesmo que era melhor que ele casse na real, que Natalie Fortune no tinha idia do que queria da vida, a no ser que no
era ele.
   Ele supunha que estava errado quanto a ela desde o comeo. Ela no era a garota da porta ao lado da sua fantasia com vida, afinal. Era uma mulher muito confusa.
Ele dizia a si mesmo.
   Rick suspirava e se virava. Ele estava sendo um tolo. Ficar sentimental, e totalmente excitado, por causa de uma mulher que tinha acabado de pedir que se afastasse
dela.
   J passavam das onze quando ele finalmente conseguiu adormecer. E parecia que eram apenas alguns instantes depois que os gritos horrorizados de Toby o fizeram
saltar da cama em disparada, empurrando os lenis.


   Captulo 6

   Rick correu at a porta que ligava seu quarto ao do filho. Assim que chegou, acendeu o interruptor.
   Toby berrava.
   A cama com a colcha de avio estava vazia, os cobertores estavam emaranhados. Num canto do outro lado do quarto, Toby estava agachado.
   - Toby, oua. Toby,  o Papai. Toby, est tudo bem. - Com cautela, Rick se aproximou.
   Toby parecia se encolher dentro de si mesmo.
   - Ai, Toby... - Ele queria dar segurana, proteger. Contudo, os demnios estavam dentro da cabea do filho. Como Rick poderia proteger Toby disso?
   A Dra. Dawkins tinha dito que Rick deveria "oferecer conforto. Estar ali com Rick quando surgissem os pesadelos. Acima de tudo, ficar calmo".
   Tudo aquilo soava timo. O nico problema  que, quando isso acontecia, Rick simplesmente no se sentia bem.
   Toby deu um grito assustado e se pressionou ainda mais firme contra a parede.
   - Toby, filho...
   Toby ousou olhar para cima. Seus olhos eram poos azuis de puro medo. Ele encolheu os ombros e apontou por trs do ombro de Rick. Rick olhou para trs e no viu
nada alm da porta do pequeno armrio do quarto, ligeiramente aberta.
   Ele virou-se novamente para o filho e percebeu que Toby tinha enterrado a cabea contra os joelhos mais uma vez. Rick no tinha a menor idia do que fazer em
seguida.
   E ento ouviu a voz suave de Natalie.
   - Rick.
   Rick esqueceu todas as coisas que ela lhe dissera antes, de noite. Sentia-se simplesmente agradecido que ela tivesse vindo, que viesse ajudar. Ele no duvidava
nem por um segundo que ela saberia o que fazer.
   Ele se levantou e se afastou enquanto ela vinha tomar lugar diante de Toby, agachando-se como ele tinha feito. Bernie atravessou a soleira e sentou-se do lado
de dentro.
   - Conte-me, Toby. Conte-me o que houve. - Ainda tremendo, Toby levantou a cabea.
   - Conte-me, -  ela voltou a dizer.
   Toby deu o mais longo olhar para ela. Ento seus lbios silenciosamente formaram uma nica palavra.
   - Monstro.
   - Onde? - perguntou Natalie.
   Ele olhou para a porta do armrio. Depois, levantou a mo, que tremia um pouco, e apontou o dedo para onde estava olhando.
   Bernie rosnou. Rick deu uma olhada para o co grande, normalmente amigvel, e viu que ele mostrava os dentes, ameaador, em direo  porta do armrio.
   Rick olhou para o filho, que tinha parado de tremer e estava olhando, de olhos arregalados, como que em adorao pelo cachorro.
   - Venha c. Venha.
   Toby se atirou nos braos abertos dela.
   - Oua. Voc est seguro. Seu pai est aqui. E Bernie. E eu tambm. No deixaremos que aquele monstro pegue voc. Nunca. - Bernie veio com passinhos curtos imediatamente
at a ponta da cama, onde farejou a perna de Toby.
   Quando o garoto esticou o brao para tocar no cachorro, Natalie olhou para cima e sinalizou que Rick desligasse a luz de cima, que era forte. Ela ligou a luminria
de avio ao mesmo tempo. A luz mais suave foi uma mudana bem-vinda, Rick percebia.
   Natalie tirou Toby de seu colo e acenou para que Rick se sentasse prximo a ele no outro lado. Ento, ela perguntou:
   - O monstro estava no armrio,  isso?
   Rick viu o garoto balanar a cabea. Ela acariciava o cabelo de Toby.
   - Voc sabe que na verdade no h monstro nenhum, no sabe, Toby?
   Toby no sabia disso; ele balanou a cabea com veemncia.
   - Tudo bem, eu admito - confessou Natalie - meu av Ben sempre dizia que havia um monstro no fundo do Lago Travis. Mas era um monstro camarada.
   Aquilo chamou a ateno de Toby. Ele recuou e olhou para ela, com os olhos arregalados.
   - Voc no sabia que havia monstros camaradas, Toby?
   Toby balanou a cabea.
   - Bem, pela minha experincia, este  o nico tipo que existe.
   - Ei - ela disse. - Voc gostaria que Bernie dormisse aqui com voc? Isto , se seu pai concordar.
   Rick concordou.
   Natalie olhou para Toby novamente.
   - Bem?
   Toby fez que sim com a cabea.
   - Combinado. - Ela se levantou. - Boa noite, Toby.
   Toby balanou a cabea.
   Natalie ajeitou o robe e fez uma carcia na cabea do cachorro.
   - Fique.
   Rick no pde se conter.
   - Natalie. Obrigado.
   Ela sorriu para ele.
   Enquanto Rick cobria Toby novamente, dizia a si mesmo que Natalie Fortune poderia se esquivar da atrao entre eles de agora at o juzo final; ele seria grato
para sempre pelo que ela estava fazendo para ajudar Toby.
   No dia seguinte, segunda-feira, Rick e Natalie foram cordiais um com o outro na hora do caf da manh. Um observador de fora no teria percebido a tenso sutil
entre eles. Toby veio  mesa e comeu com apetite. Rick no podia deixar de pensar que, em poucos dias que eles estavam na chcara, Toby comeava a parecer cada vez
mais com um garoto normal e saudvel. A no ser pelo continuado silncio,  claro. E as incurses ocasionais para dentro de espaos apertados. E o pesadelo da noite
anterior.
   Mas os pesadelos de fato no eram to freqentes como tinham sido antes. E Toby estava comendo melhor. E agora, algumas vezes, ele sorria.
   De fato, veio  cabea de Rick depois que voltou para a cama na noite anterior que, sem Natalie e o cachorro, Toby poderia estar exatamente onde ele comeou:
isolado em si mesmo, incapaz de dar a mo, ou sem disposio para isso.
   Natalie iria embora exatamente duas semanas depois. O cachorro estaria por perto at o final de agosto. Mas, quando Toby e Rick voltassem para Minepolis, o co
ficaria para trs. A consulta semanal de Toby com a Dra. Dawkins estava agendada para as duas daquela tarde. Rick decidiu que teria que compartilhar sua preocupao
com a psiquiatra, e ver o que ela dizia a esse respeito.
   Depois do caf da manh, Rick levou Toby at a doca por um instante. Eles brincaram de pescar com um par de linhas antigas que Rick tinha encontrado no abrigo
para barcos. Quando se cansaram de fingir que estavam pescando, caminharam de volta para dentro e, no salo, comearam a formar um quebra-cabea das Tartarugas Ninja.
   Rick estava mostrando a Toby alguns truques para montar um quebra-cabea quando o So Bernardo, que estava sentado confortavelmente prximo dali, de repente levantou
a cabea e rosnou; o mesmo rosnado que tinha dado para o monstro no armrio na noite anterior.
   A batida na porta de vidro dos fundos veio segundos depois. Rick olhou e deu de cara com o visitante pelo vidro: um homem, aproximadamente da idade de Rick. Rick
deu um palpite imediato que deveria ser Joel, o antigo namorado.
   Quando chegou  porta, julgou que o visitante tinha apenas uns trs centmetros a menos que seus quase um metro e noventa. E, tirando um queixo pequeno, ele era
um homem boa pinta.
   Rick abriu a porta.
   - Sim?
   - Natalie... est?
   - Est no andar superior, eu acho. - Ele estendeu a mo. - Eu sou Rick Dalton. Voc  Joel, certo?
   - Sim. Sou Joel. - Joel retribuiu o aperto de mos. - Natalie no mencionou que tinha companhia.
   Bernie rosnou novamente. Joel franziu a testa para o co. Rick deu um sorriso.
   - Bem, eu vou l busc-la.
   - Bom. Obrigado.
   - Sem problema. Entre.
   Bernie estava agora sobre as quatro patas. Ele parecia mesmo estar olhando furioso para Joel. Toby tambm estava observando o outro homem, com seu rosto pequeno,
como que zangado. Se Bernie tinha suas dvidas quanto a esse rapaz, Toby tambm no queria nada com ele.
   - Vou esperar aqui na sacada.
   Natalie apareceu do hall central no momento em que Rick se virava para ir busc-la.
   - Joel.
   - Natalie,  realmente importante para mim que conversemos. Se voc pudesse somente...
   - timo. L fora.
   Rick voltou para onde estavam o filho, o quebra-cabea e o cachorro sensvel, perspicaz, devorador de ex-namorados.
   Do lado de fora, Natalie disse:
   - Joel, sua camisa no est comigo. No tem nada comigo que pertena a voc. Ento, por favor, deixe-me em paz.
   - Tudo bem. Na verdade, no  sobre a camisa. Quem  aquele?
   - Meu inquilino. E seu filho pequeno. No que seja da sua conta.
   - Inquilino? Para que voc precisa de um inquilino?
   - Joel. Vou contar at cinco.
   - Tudo bem. Eu s queria que voc soubesse que eu vou me casar.
   - Lembra-se daquelas infidelidades que eu havia mencionado?
   - Bem, na verdade, a mulher com quem tra voc no tomou tanto cuidado como deveria. E agora eu vou ser pai.
   - E o que isso tem a ver comigo?
   - Voc sempre foi boa ouvinte, Natalie. E eu senti falta disso. Voc sempre parecia saber exatamente a coisa certa a dizer. Melissa, essa  a mulher que vai ter
meu beb,  bonita e muito divertida. Mas  muito exigente. Ela me cansa muito, sabe? Eu sinto falta dos momentos tranqilos que eu e voc dividamos. No quero
mais nada alm da chance de dividir momentos como aqueles com voc novamente.
   - Espere um minuto. Vamos esclarecer isso. Voc engravidou uma mulher. E voc vai se casar com ela. Mas ainda quer continuar a me ver.  isso mesmo?
   - Eu no sei o que quero. Mas sinto falta de voc, Natalie. Percebo que, romanticamente,  provvel que voc no queira saber de mim. Se pudermos ser apenas amigos,
Natalie. Amigos, por favor.  tudo que eu peo.
   - Joel, est escrito no meu peito "Bem-vindo"?
   - O que voc est dizendo?  claro que no.
   - Ento por que voc se sente tentado a limpar os seus ps sobre mim?
   - Natalie. No seja boba. S quero conversar com voc, dizer a voc...
   - Joel. Se algum dia voc chegar perto de mim novamente, vou chamar a polcia. Est entendendo?
   - Mas, Natalie...
   - Vou entrar agora. Se voc no se retirar imediatamente, vou chamar a polcia agora mesmo.
   - Voc est mesmo falando srio, no est?
   - Estou.
   - Voc nunca mais quer me ver.
   - Acertou.
   - Bem. Acho que... j vou.
   - Obrigada.
   No podia deixar de se perguntar, como podia ter se envolvido com algum como Joel Baines?
   - Natalie? Tudo certo? - Rick parecia sinceramente preocupado.
   - Sim. Tudo timo. Joel e eu tivemos um pequeno... mal-entendido. Mas eu acho que j ficou esclarecido.
   - Fico feliz em ouvir isso.
   - Vou pegar um pouco mais de caf - disse ela. - E voltar para os meus aposentos.


   Captulo 7

   Naquela tarde em Minepolis, depois que a Dra. Dawkins encontrou-se com Toby, ela convidou Rick para seu escritrio particular para uma rpida consulta.
   - Toby est indo maravilhosamente bem. Ele est olhando nos olhos. At sorriu duas vezes durante nossa visita de hoje. O perodo de recolhimento que ele sofreu
terminou quase completamente. Pode contar que ele vai comear a falar de novo em breve. E quando ele o fizer, no faa muito alarde. Ele deve falar uma ou duas palavras,
e depois no falar novamente por um tempo. No force a barra. Deixe que ele redescubra a voz de sua prpria maneira. Tambm, eu acho que  hora de reduzir a duas
consultas por ms.
   Rick sentiu um surto de pura felicidade. E pensou em Natalie e no co.
   - O senhor est pensando em algo, Sr. Dalton?
   - Na verdade, sim. - Ele explicou sobre sua senhoria e o co que Toby adorava. - Toby sorriu no primeiro momento em que a conheceu. E ela est saindo de viagem
em duas semanas. E Toby est doido por aquele cachorro. Tomaremos conta do cachorro quando a proprietria estiver fora. Mas quando Toby e eu voltarmos para a casa
no outono, o co vai ficar. Estou preocupado.
   - Que ele retorne sem eles?
   - Sim.  exatamente isso.
   - No se preocupe.
   - Mas...
   - Senhor Dalton, deixe-me recordar que o senhor  a figura central aqui.  o seu comprometimento, seu investimento em tempo e ateno com Toby que est fazendo
a diferena para ele. Enquanto a relao dele com o senhor permanecer estvel, ele continuar a progredir. No tenho a menor dvida de que chegar o dia, e no tardar
muito, em que o senhor olhar para o seu filho e ver um garoto perfeitamente normal, saudvel, feliz. A senhoria simptica e o cachorro bacana podem ajudar, e voc
pode ver alguns sinais de comportamentos de um passado preocupante quando Toby perder contato com eles. Mas isso no vai arras-lo. Ele ir superar isso. Voc 
a pessoa com quem ele est criando vnculos. E, desde que voc continue mostrando a ele seu amor e comprometimento, ele ficar bem.
   E a mdica prosseguiu:
   - Eu sei que  uma grande responsabilidade. Mas o senhor est indo muito bem at agora.
   Ele pensou em Natalie, na noite anterior, sabendo exatamente o que dizer a Toby sobre o monstro no armrio, quando o prprio Rick no tinha a menor idia. Ele
balanou a cabea.
   - Fico feliz que a senhora pense que estou indo bem. Mas, s vezes, eu no tenho tanta certeza.
   - Tenha certeza. Voc est indo bem.
   - s vezes eu acho que o que eu preciso  de uma esposa.
   - O senhor no precisa de uma esposa, senhor Dalton. No no que diz respeito a Toby. - Ela se levantou da cadeira. - Acho que j est bom por hoje.
   Quando Toby e Rick retornaram  casa de fazenda, havia uma Mercedes branca estacionada na frente. Rick deu a volta at a porta lateral, para descarregar as compras
que havia feito.
   Antes que ele e Toby pudessem sair do carro, Natalie apareceu no caminho at a sacada lateral pequena e fechada. Bernie deslizou em volta dela e desceu os degraus,
saltitando. Rick deu uma acariciada rpida em seu flanco largo quando o co passou, dirigindo-se ao real objeto de suas afeies: Toby.
   - Achei que era melhor trazer as compras para dentro pela porta mais prxima desta vez.
   - Voc trouxe meio mercado com voc quando chegou aqui. Isso foi anteontem.
   Rick no disse nada. Ele se perguntava como isso poderia estar acontecendo com ele. Tinha conhecido a mulher duas semanas atrs, e esse era apenas o terceiro
dia que passava na casa dela. Ela o fizera prometer que manteria distncia. No entanto, toda vez que punha os olhos nela, tudo que queria era se aproximar mais.
   - Vou ajud-lo. - Ela se dirigiu ao porta-malas do carro.
   - No precisa. Eu dou conta disto.
   Ela parou no meio do caminho entre ele e a casa.
   - Tudo bem.
   Ele abriu completamente a tampa do porta-malas.
   - J disse que eu cuido disto.
   -  claro.
   Ela deu um passo para trs.
   - Natalie?
   - Estou indo, me. - Natalie virou-se e dirigiu-se novamente  casa.
   A bela loira sorriu para ele por sobre a cabea da filha.
   - Ol. Eu sou rica. A me de Natalie.
   - Rick Dalton, o inquilino.
   -  um prazer.
   - Vamos entrar, Mame. Rick quer descarregar suas coisas.
   - Natalie, tenho certeza de que ele no se importa de tomar um instante para dizer ol. E eu quero conhecer a criana.
   Toby, que j tinha percebido a mulher estranha, agora se aproximava, cauteloso, com Bernie ao lado.
   - Ol. Eu sou rica. - Ela sorriu calorosamente, e subitamente Rick pde ver a semelhana entre me e filha.
   Toby, tmido, sorriu de volta.
   - O nome dele  Toby - disse Natalie.
   - Eu sei. Voc me disse. Eu tive um pequeno garoto. Apenas um. Agora ele  adulto, com seus prprios filhos e uma esposa adorvel e boa.
   Toby estendeu o brao e acariciou o cabelo loiro e grisalho da mulher. Ela riu. Em seguida, agarrou Toby e abraou o menino.
   - Voc  um anjo - disse a Toby. Ela olhou para Rick, e ele viu que seus olhos verdes estavam molhados. - Eu amo crianas - disse ela. - s vezes eu sinto falta
dos dias em que os meus eram pequenos. A vida parece to... tnue s vezes. Naquele tempo, as coisas eram mais simples.
   - Vamos l, Mame. Vamos subir at meus aposentos e...
   - No, realmente. Voc j fez o que sempre faz. Ouviu. Eu me sinto muito melhor. Ento j estou indo.
   - Tem certeza?
   - Absoluta. Prazer em conhec-lo, Rick.
   Enquanto as duas mulheres se dirigiam  frente da casa, Rick pegava as sacolas no porta-malas. Ento viu seu filho, pelo canto do olho, voltando para brincar
com o cachorro. Veio-lhe  mente que um garoto que se dispunha a abraar uma mulher que nunca tinha visto antes provavelmente estava pronto para ajudar a carregar
as compras.
   - Ei, Toby!
   Toby parou e virou-se.
   - Vou querer ajuda aqui. - Toby fez uma careta. - Estou falando srio. Vamos l.
   Arrastando os ps, encolhendo os ombros - em suma, muito parecido com a mdia dos garotos - Toby fez o que Rick pediu que fizesse.

   Do lado de dentro, Rick viu o jornal sensacionalista aberto sobre a mesa do caf da manh. Curioso, largou as sacolas que estava carregando em um balco e foi
olhar aquilo. Mnica Malone e Ben Fortune, dizia a manchete, o amor secreto que durou um quarto de sculo. As palavras estavam dispersas por fotografias separadas
da rainha da beleza e um homem bonito de cabelo grisalho, o falecido Ben Fortune. Pior, as fotografias tinham sido dispostas juntas para fazer parecer que a atriz
estava a ponto de beijar o antigo chefe do imprio Fortune.
   Havia uma foto de Kate Fortune, tambm, mais para o lado. Estava com uma expresso de desaprovao em seu rosto aristocrtico, que provavelmente estava dirigida
a qualquer membro determinado dos paparazzi que tirara a fotografia. Mas,  claro, o jornal queria que o leitor pensasse que a expresso de Kate mostrasse a aflio
pelo que estava acontecendo entre seu marido e a antiga deusa da indstria do cinema.
   Posso ir brincar agora? dizia a expresso do garoto.
   - V l fora e traga aquela sacola de batatas e a caixa de sabo de lavar roupa. E depois voc pode brincar.
   Toby saiu, arrastando-se, seguido bem de perto por Bernie.
   Rick voltou para a revista. Ele corria os olhos pelas linhas rapidamente. No havia nada que substanciasse a acusao escandalosa. O texto comeava com "Uma fonte
informada revelou..." e no tinha muito a dizer alm da manchete chocante, a no ser propor a teoria de que a recente aquisio de Mnica Malone de to grande parte
das aes das Indstrias Fortune poderia ser sua forma de se entender com a famlia Fortune.
   "Ainda que a lendria Mnica Malone fosse o grande e verdadeiro amor da vida de Ben Fortune, ele nunca desistiria de sua esposa e sua famlia por ela. Ento eles
compartilharam esse amor s escondidas. E agora, finalmente, Mnica Malone est dando um passo  frente, exigindo que a famlia Fortune lide com ela, reivindicando
seu prprio lugar ao sol..."
   O resto era uma recapitulao das conquistas de Kate e Ben Fortune em toda a vida deles, bem como uma lista dos filmes que Mnica Malone havia feito em sua longa
carreira. Toby entrou quando Rick terminava de ler. Veio arrastando para dentro as batatas, que deixou no cho bem na entrada. Logo, com um suspiro alto, ele virou-se
para buscar o detergente.
   - Ei, espere por mim.
   Toby olhou para ele com um olhar de tolerncia enquanto Rick se apressava para alcan-lo.
   Rick estava descarregando seu terceiro e ltimo carregamento de compras no balco e Toby j estava l fora brincando quando Natalie apareceu.
   Ela franziu as sobrancelhas, e ele sabia que ela sabia o que ele estivera fazendo enquanto ela se despedia da me.
   - Voc leu isto - disse ela, em tom de acusao.
   - Sim. - Ele carregou a sacola de mantimentos que tinha trazido para a geladeira.
   - Minha me trouxe o jornal. Ela est muito chateada. Ela odeia esse tipo de coisa.
   - Eu posso entender por qu.  totalmente apelativo e aposto que  uma armao.
   - Voc acha isso?
   - Se eu fosse voc, teria dito a sua me que no perdesse o tempo dela preocupando-se com esse lixo sem provas.
   - Acho que disse alguma coisa parecida.
   - timo.
   - Bem. Eu tenho que subir.
   Rick no disse nada.

   No apartamento que Sterling havia encontrado para ela quando primeiramente se escondeu, Kate estava sentada em uma pequena escrivaninha na sala de visitas  luz
do cu, com o jornal sensacionalista aberto  sua frente.
   - Kate...
   Kate olhou para as prprias mos, que tinha dobrado sobre as fotografias ridiculamente manipuladas de seu marido e Mnica Malone. Ao longo das dcadas, Kate tinha
suspeitado que pudesse haver algo entre Mnica e Ben. Especialmente durante os piores anos de seu casamento, aqueles anos quando o primeiro sucesso real de Kate
com a Cosmticos Fortune tinham feito com que Ben se sentisse ameaado pela crescente independncia dela. Mas o casamento deles tinha durado, e Kate sabia que Ben
a amara profundamente.
   Ainda assim, havia pequenos sinais. Coisas muito pequenas. Coisas que somente uma mulher que conhece um homem at a alma perceberia: um assunto evitado, um olhar
desviado, um olhar deliberado do outro lado de um salo lotado.
   Mas Kate nunca se dispusera a descobrir com certeza se seu marido a estava traindo com a mulher que ela prpria havia escolhido para ser o primeiro Rosto Fortune.
Talvez ela no quisesse saber.
   Ela teve a ousadia de perguntar:
   - Voc acha que  verdade?
   Os olhos de Sterling no denunciaram nada.
   - No sei.
   - Mas voc ouviu os rumores, tambm, ao longo dos anos? Voc viu os... indcios?
   Ele tossiu, e em seguida resmungou em voz baixa um relutante "Sim".
   - Tudo bem, ento. Eu quero descobrir quem deixou vazar isso. Quem quer que seja, deve ter informao sobre a situao como um todo.
   - Eu sei. E vou investigar a fundo. As possibilidades, infelizmente, so infinitas. Um funcionrio ressentido de alguma filial das Indstrias Fortune. Um reprter
vido disposto a baixar tanto o nvel a ponto de tramar uma histria puramente inventada. Ou algum totalmente sem conexo, como um garom ou dono de loja, que por
acaso tivesse visto a tal da Malone e Ben juntos.
   - Estou entendendo. Que tal Tracey Ducet, ou aquele namorado dela?
   - Vamos verificar os dois.
   - Ou at a prpria Mnica.
   - Como eu disse, faremos tudo que pudermos. Vou acionar Gabe Devereaux imediatamente.
   - Tudo bem, ento. - Kate levantou-se da escrivaninha. - Agora temos que falar sobre Jake.
   A expresso de Sterling era muito sria.
   - Eu fui v-lo na manso, s nove da manh.
   - E...?
   - O que eu posso dizer? Ele foi distante e educado e me despachou o mais rpido que pde.
   - Voc descobriu alguma coisa sobre sua conexo com Mnica Malone, e sobre o que a mulher possa ter com ele, para que ele passasse tantas aes para ela?
   Sterling olhou para ela.
   - Ele no me deixou chegar nem prximo a esse assunto.
   - Mas... como ele est? Como ele parece?
   - Kate...
   - Tem alguma coisa. Posso ver nos seus olhos. Conte-me.
   Sterling hesitou mais alguns segundos antes de confessar.
   - Ele tinha bebido.
   - s nove da manh?
   - Sim. Ele parecia muito mal, Kate.


   Captulo 8

   Carregando uma sacola com algumas peas reveladoras de lingerie, Natalie entrou pela porta lateral. O dia tinha sido quente. E, embora tivesse planos de fazer
compras at tarde, depois que comprou a lingerie, tinha perdido a vontade. Ento, para matar o tempo, foi at o cinema e assistiu a uma dobradinha de Pocahontas
e Cinderela. Natalie amava os filmes da Disney. Saiu do cinema cantando "Pift paft pum" para si mesma.
   Ela ouviu a voz de Rick vindo do salo da frente no momento em que entrou pela porta.
   Natalie ficou ali, ouvindo. Ele estava lendo uma histria. Rick e Toby estavam sentados juntos no sof, com um livro de fotografias de bom tamanho aberto entre
os dois pares de joelhos. Bernie estava esparramado aos ps deles, com a cabea sobre as patas. Natalie desejava que estivesse sentada com eles, ouvindo Rick ler
uma histria no salo com ar-condicionado numa tarde quente.
   O garoto, o cachorro e o homem olharam todos ao mesmo tempo.
   Natalie deu um sorriso brilhante.
   - Ol pessoal.
   - Estamos lendo Aladim - explicou Rick.
   Ela podia ver as figuras dali onde estava.
   - A verso do Disney?
   - Sim - disse Rick, depois franziu as sobrancelhas quando algo lhe veio  mente. - Oua. Voc recebeu um recado h cerca de uma hora. Parecia importante. Talvez
voc deva...
   Ela pensou em seu pai, que andava to instvel ultimamente. E em sua me, perpetuamente atormentada. E as milhares de outras coisas esquisitas que andavam acontecendo
com as pessoas que ela amava nos ltimos meses.
   - Obrigada. - Com o corao disparado, ela foi para a cozinha.
   Como Rick a alertara, a luz de mensagens estava piscando na secretria eletrnica. Ela pressionou o boto de reproduzir.
   E a suave voz britnica que ela ouvira uma vez anteriormente dizia:
   - Ol. Aqui  Jessica Holmes novamente. Telefonei alguns dias atrs. E esperava, sinceramente, receber um retorno seu. Como eu disse daquela vez,  a respeito
de Benjamin Fortune, que estaria com setenta e poucos anos, e serviu na Frana na Segunda Guerra Mundial. Apenas caso voc no tenha ouvido minha primeira mensagem...
Por favor. Se voc ou algum que voc conhea for parente de sangue desse homem,  imprescindvel que voc retorne minha ligao. No quero ser alarmista, e  impossvel
explicar pelo telefone, mas isto  mesmo um caso de vida ou morte. Obrigada. - Mais uma vez, antes de desligar, ela deixou um nmero de telefone de Londres.
   - Bem?
   Natalie levantou os olhos e viu Rick parado perto da entrada para a lavanderia. Ele a seguira pela sala de jantar para ver o que ela faria em relao quela ligao
"importante".
   Ela pressionou o boto de reiniciar.
   - Voc no vai nem retornar a ligao dessa mulher? Rick atravessou a cozinha, parando do outro lado do balco em relao ao que ela estava.
   - A mulher disse "vida ou morte". Uma questo de vida ou morte.
   Natalie contou mentalmente at dez. Ela lembrou que Rick no vinha de uma famlia abastada e conhecida. Ele no fazia idia do que era a total falta de escrpulos
de um reprter farejando uma grande reportagem.
   - Natalie. Ligue de volta para ela.
   - Isto no lhe diz respeito.
   - , sim. Qualquer questo de vida ou morte me diz respeito. E a voc tambm deveria.
   - No  uma questo de vida ou morte.
   - Como voc vai saber, a menos que telefone e converse com ela?
   - Eu sei. Todos os sinais esto a.
   - Que sinais?
   - Ai, Rick...
   - Que sinais?
   Natalie simplesmente no tinha vontade de entrar nesse tema. Ela tentou mudar de assunto.
   - Onde esto Toby e Bernie?
   Mas Rick no queria mudar de assunto.
   - No outro cmodo. Que sinais?
   - Voc viu aquela pgina escandalosa ontem, com aquele artigo ridculo sobre Vov Ben e Mnica Malone.
   - E da?
   - Ento, est evidente.
   - O que est evidente?
   Ela olhou para ele, irritada. Ainda assim, tentou novamente faz-lo entender.
   -  coincidncia demais para mim. To de repente, pessoas demais ficam interessadas em um homem que morreu dez anos atrs.  algum reprter, Rick. Algum reprter
de meia-pataca fazendo uma encenao, jogando um verde para atrair meu interesse e eu ligar de volta. E eu no vou fazer isso.
   - Se for uma reprter, voc pode desligar na cara dela.
   - Voc no sabe como isso funciona. Reprteres so como vampiros: eles j esto sugando seu sangue antes que voc perceba quem atacou.  tudo uma escria. A mulher
quer mais informaes sobre Vov Ben para poder escrever mais mentiras sobre ele.
   Rick franziu a testa, e sua expresso se suavizou e sua voz ficou mais gentil.
   - Natalie, entendo que voc amava muito seu av. E que deve mago-la ver coisas ruins na imprensa sobre ele.
   -  claro que eu o amava. Ele era um homem bom.
   - Tenho certeza disso. Mas acredito que seu julgamento est falhando no que se refere a esse outro assunto.
   - Eu tenho razo quanto a esse outro assunto.
   - Se essa mulher  reprter,  uma reprter britnica.
   - E da? Reprteres vm de todas as nacionalidades.
   - Ora. Voc no acha que  estranho que ela pea que voc ligue de volta para Londres, pelo amor de Deus? No faria mais sentido para ela pelo menos estar aqui
no pas se quisesse tirar um grande furo de reportagem de voc?
   - Com uma reprter, tudo  possvel.
   - Est certo. Talvez voc tenha razo. A mulher pode fazer parte da escria. Mas e se voc estiver errada?
   Ela deu um passo para trs, lembrando, sem inteno, da urgncia na voz da mulher.
   "Por favor. Se voc, ou algum que voc conhea, for parente de sangue desse homem,  imprescindvel que voc retorne minha ligao."
   E ento pensou em seu av, morto h muito tempo, e incapaz de lutar contra as difamaes que algum reprter sem corao tivesse escrito sobre ele. Se ligasse
de volta para a mulher, e deixasse escapar algum fato minsculo sobre seu av que ela lesse depois em algum jornal sensacionalista barato, ela iria se odiar por
isso.
   A vida inteira, Natalie tinha sido uma isca fcil. No primeiro grau, as outras garotas ficavam amigas dela s para dar uma olhada em sua me maravilhosa, famosa,
ou por uma chance de encontrar Kate Fortune cara a cara. E na escola secundria particular que ela freqentara, os garotos queriam sair com ela porque ela era uma
Fortune, e depois, invariavelmente, gaguejavam ou ficavam olhando no momento em que punham os olhos em sua me ou em Allie. Quando foi para a universidade, acabou
indo para a Universidade de Minnesota em vez de escolher uma escola mantida por particulares. Ali, as coisas pioraram; muitos de seus "amigos" acabavam precisando
de dinheiro desesperadamente, ou queriam uma influncia para entrar nas empresas Fortune.
   No, sua forma antiga, confiante, de fazer as coisas simplesmente no funcionavam. Era hora de parar de olhar para o mundo pelos olhos de uma romntica desesperada.
   - No estou errada - disse, com firmeza. - Eu sei que no estou.
   - Mas, Natalie...
   - No quero mais falar sobre isso. Agora, se voc me der licena, eu vou subir.
   As palavras finais de Rick fizeram com que ela parasse no caminho.
   - Voc corta as pessoas sem lhes dar uma chance.
   Natalie olhou para ele mais uma vez, e no gostou do que viu nos olhos dele. Ela sabia que ele estava falando mais do que uma mensagem de telefone que ela se
recusara a retornar.
   - Eu tenho que crescer algum dia - respondeu ela, sem alterar a voz. - A vida no  um filme de Walt Disney.
   Depois da discusso por causa do telefonema, Natalie achou que seria bem mais fcil manter distncia de Rick, porque agora ele estava colaborando com ela; estava
fazendo tudo ao seu alcance para se afastar dela.
   Ela entendeu que tinha decepcionado o rapaz de maneira profunda e importante. E incomodava a ela perceber que ele no gostava mais dela tanto como antes.
   No entanto, provavelmente vinha para o bem. Eles tinham um contrato para ser locatrio e locadora. E nada mais. Desta forma, com Rick to frio e arredio em relao
a ela, era razoavelmente fcil manter aquele acordo quando ela lidasse com ele.
    medida que passavam os dias, parecia a Natalie que eles entravam num certo ritmo de evitar-se. A saleta de Natalie no andar de cima tinha seu prprio aparelho
de som, TV e vdeo, ento ela nunca precisava usar a sala ou o salo.
   Claro, havia somente uma cozinha. Mas eles lidavam com isso. Rick e Toby tomavam caf da manh por volta das sete. Natalie fazia exerccios e tomava banho e descia
para comer depois das nove. Nos dias em que pai e filho no saam para o lago com o Lady Kate, eles almoavam antes das onze e meia. Natalie almoava por volta de
uma hora. E ela tomava cuidado para nunca tentar preparar o prprio jantar at as sete, j que, por volta dessa hora, Rick j tinha terminado de comer com Toby h
bastante tempo. A coisa mais difcil para Natalie era ver como Rick estava caloroso e aberto com Toby. E com a prpria me dela, que passava por ali dia sim dia
no. Ou com tia Lindsay, que passava ali algumas vezes no caminho do hospital para casa. Ou mesmo com Sterling Foster, que passou l para levar Natalie para almoar
uma tarde. Todo mundo que conhecia Rick comentava o quanto ele era um grande rapaz.
   Com todo mundo, menos com ela. Com Natalie, ele era educado e distante, at mais ou menos uma semana depois que ele e Toby se mudaram. Da ele comeou a ficar
hostil.
   Era tudo to sutil no comeo. Ele mencionou, rspido, uma tarde, que a xcara de caf de Natalie parecia estar sempre dentro da pia; ela prometeu lav-la e guard-la
dali em diante. Ela deixou um livro de receitas no balco; ele a recordou, friamente, que ela realmente deveria tentar cuidar das suas coisas. Ela disse que iria
fazer isso.
   - Vou acreditar quando eu vir - disse ele.
   Ento ele ficou chateado com ela por pegar a Newsweek dele. Ela no tinha uma assinatura da Newsweek h anos? Como poderia saber que ele tambm era assinante?
A grande polmica da Newsweek aconteceu numa segunda-feira, uma semana e dois dias depois que Rick e Toby se mudaram para l. Rick estava sentado na sacada quando
Natalie voltou de sua caminhada at a caixa de correio. Ela entregou a ele sua correspondncia. Ele perguntou pela Newsweek dele. Naturalmente, ela lhe disse que
a revista era dela.
   - Leia a etiqueta de entrega - disse ele. Natalie explicou que recebia a Newsweek h anos.
   - L vem voc tomando concluses precipitadas novamente.
   Ento ela leu a etiqueta. A revista era dele.
   - Desculpe. Eu pensei...
   - Eu sei o que voc pensou. Mas voc estava errada, no estava?
   Depois, na manh seguinte, quando ela estava no meio de sua rotina de aerbica com step, ele atacou novamente.
   Natalie tinha acabado de entrar na parte realmente traioeira da rotina, uma srie de saltos de um lado para o outro do step, quando comearam a esmurrar a porta
de sua saleta. Num sobressalto, ela tropeou e torceu o tornozelo no step.
   Esmurraram mais uma vez. Uma vez que ela percebeu que ainda podia caminhar, marchou, mancando um pouco, at a porta.
   Rick estava parado no corredor, com um olhar fulminante no rosto e uma toalha enrolada debaixo do brao. Natalie reconheceu a toalha. Na noite anterior, ela tinha
lavado suas calcinhas de renda, aquelas reveladoras que tinha comprado. Ento deixara secar naquela toalha, na lavanderia.
   Ele jogou a toalha em cima dela.
   - Voc deixou isso na lavanderia.
   - Ah. Desculpe.
   Ele ainda mantinha o olhar totalmente furioso.
   - No faa isso novamente. Temos que pensar em Toby, caso voc tenha esquecido. Um menino de cinco anos de idade no precisa saber sobre roupas ntimas como estas
por alguns anos ainda.
   Ela perguntou, muito tranqila:
   - Toby viu minhas roupas ntimas?
   - Toby viu minhas roupas ntimas? - perguntou novamente, quando ele no fez nada alm de continuar olhando firme para ela.
   - Bem. No. No que eu saiba.
   - timo. Ento no h problema. E, de qualquer forma, mesmo que ele por acaso visse algumas coisas com rendinhas esticadas na mesa de dobrar, no teria nenhuma
idia do que estava olhando.
   - Alguns garotos de cinco anos tm mais idias do que voc pensa.
   - No Toby. Ele  um amor.
   - Se ele  um amor ou no, isso no tem nada a ver.
   E ambos estavam respirando com muita dificuldade.
   Era hora de terminar essa conversa perigosa, mesmo  custa de engolir alguns sapos.
   - Como eu disse, peo desculpas. Eu no pensei. No vou mais deixar minha lingerie ali.
   - timo - rosnou ele.
   Meia-hora depois, quando Natalie desceu para o caf da manh, Toby veio e deu a mo a ela.
   - O que  isso?
   Toby deu uma puxada nela. Natalie foi at onde ele a levou, at a mesinha de centro no salo grande, onde uma garagem de blocos de construir tinha sido cuidadosamente
montada.
   - Voc fez isso sozinho? - Toby fez que sim com a cabea, orgulhoso.
   Natalie se ajoelhou e olhou dentro, onde trs carros miniatura estavam arrumados numa fila bem alinhada.
   - Ora, voc j tem os carros l dentro. - Ela se sentou nos calcanhares. -  realmente uma bela garagem. timo trabalho.
   Toby estava esfuziante.
   Natalie no percebia que Rick estava atrs dela at levantar-se e virar-se. E ali estava ele, braos cruzados sobre o peito largo, olhando mal-humorado para ela.
   Ela piscou.
   - Rick? O que foi?
   - Nada.
   - Tem certeza?
   Como ele simplesmente continuou a olh-la com firmeza, ela deu de ombros e comeou a se virar. Ele estendeu o brao e pegou o brao dela.
   - Que foi? - Ele olhou para a prpria mo no brao dela. Ele largou.
   - Veja. Toby e eu vamos sair para o lago hoje. Voc se importa se levarmos o cachorro?
   -  claro que no. - Ela se perguntou por que ele estava perguntando. Bernie e Toby eram quase inseparveis. O co estava dormindo toda noite no quarto do garoto,
e o seguia onde quer que ele fosse. Eles tinham sado no barco cinco ou seis vezes desde o dia em que chegaram, e Bernie tinha estado com eles todas as vezes. Rick
tinha parado de perguntar se podiam levar o cachorro dias atrs.
   - Eu s queria ter certeza de que voc concordava. - ele no levantou nem um pouco o tom de voz.
   - Claro.
   - Que bom ento. - E ele se virou e saiu.
   Eles tinham sado fazia uma hora. Natalie deveria ter ficado aliviada por ver Rick partir, mas no estava, no mesmo. Estava um dia encoberto, muito cinza para
seu estado de esprito. A casa parecia quieta demais, at depois das dez e meia, quando rica chegou.
   L em cima nos seus aposentos, Natalie ouviu o carro frear e parar. Ela desceu as escadas correndo e abriu a porta no exato momento em que sua me ergueu a mo
para bater.
   O rosto de rica estava mais plido que o habitual.
   - Natalie. Estou to feliz por voc estar aqui.
   Natalie levou a me at a cozinha, serviu um pouco de limonada para ela e escutou as ltimas notcias sobre seu pai.
   - Nathaniel me telefonou.
   - Para qu?
   - Ele quer que eu fale com Jake, e  isso que pretendo fazer.
   - Por qu?
   - Pelo bem da famlia.
   Como sempre, Natalie lutou para fornecer a voz da razo.
   - Eu no entendo. Achei que voc tinha dito que as coisas estavam realmente ruins entre voc e Papai.
   - E esto. Mas Jake  meu marido.
   - Mas se vocs no podem conversar sem brigar, de que maneira voc vai conversar com ele "pelo bem da famlia"?
   - Eu tenho que ver de perto que ele est bem... ou que no est.
   - O que voc vai fazer se ele no estiver?
   - No sei. Vou lidar com esse problema se, e quando surgir.
   - Veja bem, leve a fonte em considerao, est bem? Voc sabe como Tio Nate . Ele nunca tem apenas um motivo para nada que faz. Ele poderia estar mandando voc
at aqui porque sabe o que vai acontecer.
   - E o que ?
   - Voc e Papai vo brigar.
   rica acenou com a mo.
   - No, mesmo. Nate parecia sinceramente chateado por causa de Jake.
   - Ele sempre ficou chateado por causa de Papai.
   - No, isso  alm da rivalidade entre eles, mais do que Nathaniel morrer de inveja porque o irmo mais velho ficou com o emprego mximo nos negcios da famlia.
Isso foi medo.
   - De qu?
   - De que seu pai esteja realmente enlouquecendo.
   - Me, voc tem certeza?
   - Nathaniel disse que Jake tem aparecido no escritrio talvez duas vezes na semana. Ele est indisponvel o resto do tempo. Nate telefonou para ele esta manh,
na verdade. Para insistir que Jake fosse trabalhar. Jake disse que estaria l at meio-dia, mas Nate no sabe se acredita nele ou no. Nate tambm disse que a ltima
vez que Jake apareceu no escritrio, na sexta... - rica fechou os olhos e respirou bem fundo.
   Natalie pegou a mo de sua me.
   - Me?
   rica se forou a terminar:
   - A ltima vez que Jake apareceu no escritrio, ele estava bbado.
   Natalie levou um tempo at digerir aquela informao. Parecia totalmente fora do carter de seu pai. Jacob Fortune era um homem poderoso, senhor de si. Ele nunca
se permitiria aparecer no escritrio sob influncia de nada que no sua determinada vontade.
   rica endireitou os ombros.
   - Nat, estou indo para l. - Ento ela virou os olhos suplicantes para a filha.
   Natalie suspirou; ela sabia o que estava por vir.
   - E se eu for sozinha, voc j previu o que vai acontecer: uma briga. Provavelmente uma briga muito feia.
   - Voc quer que eu v com voc. - No era uma pergunta.
   - Ai, Nat. Se voc pudesse... Por favor.
   - Me...
   - Por favor.
   Natalie lembrou a si mesma, como estava fazendo sempre, que ela no iria ficar includa no drama da famlia. Nunca mais. De jeito nenhum.
   Ainda assim, se at mesmo Tio Nate estava preocupado com o pai dela, as coisas deviam estar feias.
   - Nat, voc vem?
   Natalie arquejou.
   - Agora?
   rica curvou-se para frente e esfregou um mao de cabelo para trs da bochecha de Natalie, da maneira que ela costumava fazer o tempo todo, anos atrs, quando
Natalie era pequena.
   - Sim, vamos agora. Eu estou... me sentindo to agitada. Acho que no conseguirei me controlar de jeito nenhum at que eu o veja. At falar com ele e descobrir
exatamente o quanto ele realmente est mal.
   Natalie estava enfraquecendo. Como poderia se conter? A necessidade nos olhos da me era to forte.
   - No devemos telefonar primeiro? E se ele no estiver l?
   - Se ns ligarmos, ele pode dizer que no vai nos receber. E se ele no estiver l... bem,  apenas uma viagem perdida ao outro lado do lago. Vamos l agora.
Por favor.
   - Me...
   - Por favor.
   Natalie sabia que estava vencida.
   - Tudo bem. Vamos l.

   Captulo 9

   Embora elas pudessem ter usado o barco de esqui que estava esperando no abrigo, rica queria dirigir. Tomaram, ento, o longo caminho em volta do lago, pela floresta
de elmos e bordos e carvalhos que estava to verde e opulenta naquela poca do ano.
   No momento em que chegaram  entrada frontal da manso, uma chuva firme e suave comeava a cair. Eles tocaram a campainha. Uma voz feminina que Natalie no reconhecia
respondeu.
   - Sim, quem , por favor?
   - rica e Natalie para ver Jake - a me dela disse.
   - Por favor aguardem.
   Alguns minutos depois, a voz disse a elas para entrar com o carro. As grandes grades de ferro se abriram totalmente e fecharam automaticamente depois que elas
passaram.
   No demorou para que estivessem na ampla via que levava s colunas da frente da casa principal. Tudo parecia exatamente como Natalie lembrava. Sob o vu nublado
da chuva, os gramados eram as mesmas fileiras profundas de esmeraldas e os arbustos ornamentais estavam aparados e jeitosos. Independentemente do que estivesse acontecendo
com o pai de Natalie, pelo menos os serviais ainda estavam fazendo o trabalho deles.
   O chefe dos motoristas de Jake apareceu no exato momento em que rica parou a Mercedes. Ele abriu a porta para ela, segurando um guarda-chuva preto grande para
que ela no se molhasse.
   - Como vai, Edgar? - rica saiu de dentro do carro e foi abrigar-se sob o guarda-chuva de Edgar.
   - Estou timo, senhora.
   rica entregou as chaves a ele.
   - No deixe longe. - Ela e Edgar comearam a caminhar em direo aos largos degraus da frente, e o motorista teve um cuidado escrupuloso de no deixar que rica
se molhasse.
   - Eu no fao idia de quanto tempo ficaremos, mas provavelmente no muito.
   - Sim, senhora.
   Natalie j estava fora do carro e atravessando depressa a laje polida em direo aos degraus de mrmore quando Edgar virou-se para ajud-la, como tinha feito
com a me. Ele olhou para ela com reprovao quando ela passou correndo entre as colunas altas, para abrigar-se sob o prtico.
   Ela sorriu para ele.
   - Que bom v-lo, Edgar.
   - Sim, senhorita. - Ele agora segurava o guarda-chuva sobre a prpria cabea. Seu tom de voz, como sempre, era terrivelmente adequado e reservado. -  bom v-la
tambm.
   Natalie apressou-se para chegar junto  me, que j tinha dado a volta e se aproximado da grande porta da frente. Antes de rica terminar de tocar a campainha,
a porta foi puxada por uma moa de cabelos grisalhos com uma saia e blusa azul sem estampa.
   - Ol, senhora Fortune. - Era a mesma voz que eles tinham ouvido pelo interfone.
   - Ol. Acredito que no conheo voc.
   - Eu sou Laughlin, a nova empregada.
   - Entendo. Gostaria de falar com meu marido, por favor.
   - Certamente. O senhor Fortune me pediu que a levasse at a biblioteca. - A mulher fechou a grande porta. - Por aqui. E deu as costas.
   - Eu sei o caminho at a biblioteca - disse rica. A empregada parou onde estava.
   - A senhora quer dizer que... no deseja ser anunciada?
   - No. Posso anunciar a mim mesma. Com muita eficincia.
   Natalie deu uma rpida olhada para a me. Os ombros elegantes, o queixo erguido, desafiador e as inconfundveis bochechas rosadas. A mulher nervosa e carente
que chegara  casa de Natalie meia hora antes poderia nunca ter existido. rica estava antevendo a batalha com o principal adversrio, e grande paixo de sua vida:
seu marido.
   - Voc pode voltar s suas obrigaes - disse rica  senhora Laughlin.
   A empregada claramente tinha recebido ordens firmes para acompanh-los at a biblioteca.
   - Mas... - O protesto dela desapareceu quando ela encarou o olhar determinado de rica. - Como desejar. - Com um ligeiro gesto de aceitao com a cabea, ela
se retirou, os sapatos de sola de crepe sussurrando no cho polido.
   Quando ela j tinha sado, rica virou-se para Natalie.
   - H quanto tempo ela est aqui?
   Natalie deu de ombros.
   - Eu nunca tinha visto essa senhora antes.
   rica ergueu a mo at o pescoo. A esmeralda que Jake tinha lhe dado anos atrs jorrava brilhos de fogo verde no hall de entrada fosco.
   - Se os empregados esto indo embora...
   - Me. No vamos tomar decises precipitadas, est bem? O fato de Papai ter contratado uma nova empregada no quer dizer necessariamente nada.
   - Voc tem razo, claro. Desculpe.
   - Vamos simplesmente at l ver Papai, est bem?
   - Sim. Vamos l.
   Lado a lado, me e filha atravessaram o enorme hall central at as grandes portas duplas da biblioteca. Quando chegaram ali, rica respirou fundo e abriu bem
as portas. Dentro da biblioteca, Jacob Fortune estava sentado na cadeira de rodinhas de espaldar alto atrs da mesa coberta de couro, cheia de coisas espalhadas.
Ele estava com um de seus belos ternos Armani. Os ombros imponentes estavam recuados e as mos sobre a mesa. Ele levantou os olhos bruscamente quando as portas se
abriram, e os olhos escuros se apertaram ao ver a esposa.
   - Ol... querido. - rica fez uma pausa logo aps a palavra afetuosa, que soou quase como um xingamento.
   - rica. - Havia milhares de matizes de significados numa nica palavra. Nela, Natalie podia ouvir amor e dio, desespero... e ternura.
   Por um longo instante, marido e mulher ficaram se olhando. Ao observ-los, Natalie sentiu-se totalmente irrelevante. Por que deixara sua me convenc-la daquilo?
Ela no deveria estar ali. rica Fortune era perfeitamente capaz de travar suas prprias lutas com Jake. Afinal de contas, ela vinha fazendo isso h anos.
   E, estranhamente, ao mesmo tempo em que desejava estar em outro lugar, Natalie no conseguia parar de pensar em Rick. Porque a maneira que seu pai olhava para
a me parecia, naquele momento, ser exatamente a forma com que Rick olhava para ela ultimamente. O que era ridculo. No existia uma grande paixo arruinada entre
ela e Rick Dalton. Ela era Natalie, um tipo comum, no o que inspira emoes avassaladoras. Os homens gostavam dela. Eles se sentiam confortveis com ela. Dependiam
dela. E, com muita freqncia, se aproveitavam dela. Mas certamente no olhavam para ela como se, sozinha, ela despedaasse todos os sonhos deles.
   - No faa cerimnia. Pode entrar. - Jake carregou na ironia quando, finalmente, falou novamente.
   - Obrigada. Vou sentar. - rica entrou no aposento, seguida por Natalie.
   - Ol, Nat. - A voz do pai estava calorosa. Apesar de ter havido conflitos entre seu pai e mais de um dos outros irmos, Jake e Natalie sempre tinham se dado
bem. Natalie no era brilhante e nem bonita. Nem era um filho homem. Ela no servia para nenhum propsito nos sonhos de Jake para o imprio. Assim, ele podia am-la
incondicionalmente e deixar que ela fizesse suas prprias escolhas na vida.
   Ela lhe sorriu sem graa.
   - Papai.
   Jake fez um olhar de reprovao mais uma vez ao dirigir-se  esposa.
   - Seja l o que voc quiser, no deveria ter envolvido Nat nesse assunto.
   O queixo perfeito de rica permanecia erguido para o alto.
   - Eu precisava de apoio.
   Jake fez um rudo baixo de escrnio, depois se levantou e foi at o outro lado da mesa. Fez um gesto indicando um sof de brocado ali perto.
   - Sente-se. - Natalie dirigiu-se ao sof, mas a voz de sua me a interrompeu.
   - No, obrigada. No podemos ficar muito tempo. - rica franziu as sobrancelhas ao olhar para Jake de cima a baixo. - Voc parece... bastante bem.
   E era verdade, Natalie pensou. No bem, exatamente: ele tinha olheiras escuras sob os olhos e os sulcos em torno da boca estavam muito mais fundos do que Natalie
se lembrava. No, ele no parecia bem. Mas, realmente, parecia bem o suficiente.
   Jake ergueu uma sobrancelha grisalha.
   - Ento. Voc veio aqui me examinar.
   rica no hesitou.
   -  exatamente por isso que estou aqui.
   - E o que a levou a crer que eu precisava que me examinassem?
   - Nathaniel.
   Jake respirou fundo.
   - Querido irmo Nate. Conspirando, como de costume. - Ele abriu os braos e olhou para seu corpo, com o palet impecvel, as calas perfeitamente vincadas e os
sapatos polidos, macios como uma luva.
   - Bem, como voc pode ver, estou indo muito bem. rica balanou a cabea.
   - Jake. Eu leio os jornais.
   Ele abaixou as mos e deu  sua esposa um olhar que teria feito com que uma mulher inferior tremesse em seus sapatos Norma Kamali.
   - No tenha pretenso de entender as escolhas que eu fao para as Indstrias Fortune.
   rica ento sorriu, um sorriso to frio que provocou arrepio em Natalie.
   - No, Jake. No se preocupe. No tenho pretenso de entender qualquer coisa sobre voc. Nunca mais. - Ela virou-se para Natalie. - Acho que est na hora de irmos.
Est evidente que vir aqui foi um total desperdcio de tempo.
   - Ah, e seu tempo  to precioso, no , rica? - Embora Jake falasse as palavras para si mesmo, elas foram perfeitamente claras.
   rica arquejou.
   Alm de sua carreira de modelo, que j tinha terminado h tempos, Jake sempre tinha insistido que rica dedicasse sua vida a ele e a cuidar da famlia. Censur-la
agora porque ela no tinha um trabalho importante a fazer era golpe baixo.
   E rica claramente no ia levar o golpe sem retaliar. Ela avanou no marido, com os olhos brilhantes de fria insultada.
   - Ora, voc...
   Mas antes que pudesse dizer mais uma palavra de insulto, Natalie deu um passo  frente e tomou-lhe o brao.
   - Me. No. - rica congelou e lanou a Natalie um olhar rpido e repressor.
   Jake falou novamente.
   - Sim. Ela tem razo. Eu no deveria ter dito isso.
   rica continuava sem dizer nada, apenas olhava furiosa para o marido.
   - Eu... peo desculpas - disse Jake.
   Foi uma enorme concesso, vinda de um homem como Jake. Ao lado dela, Natalie sentiu a me relaxar apenas um pouco.
   rica balanou a cabea.
   - Muito bem. - O fogo nos olhos dela se tornou gelo. - Estamos indo, ento, como eu disse.
   Por um instante, Jake apenas olhou firme para a esposa. Depois, seu olhar se desviou.
   Ento Natalie deu um pequeno puxo.
   - Me, vamos.
   Era suficiente. rica foi com ela, pelas portas que permaneciam abertas e davam para o corredor.
   Assim que elas saram, Jake esperou, absolutamente imvel, at ter certeza de que elas no retornariam. Em seguida, andou at as portas duplas e trancou-as.
   Depois disso, assegurando-se da privacidade, dirigiu-se at o armrio de bebidas, e o decantador de cristal que ele procurava. Serviu-se de trs dedos generosos
de scotch e ps para dentro em dois goles de queimar a garganta.
   O segundo trago ele tomou mais devagar. No momento em que desceu, o n em seu estmago j tinha afrouxado um pouco.
   No havia nada a se preocupar. Ele tinha se portado suficientemente bem. rica e Natalie tinham partido, achando que ele estava bem. Nate devia ter mandado as
duas at l na esperana de fazer mais presso em cima dele, mas ele enganara o irmo Nate. Jake deu uma olhada breve em si mesmo por um dos vidros chanfrados das
portas do armrio de bebidas, e rapidamente desviou-se. Ele no gostava do que via quando olhava nos prprios olhos ultimamente. No gostava nem um pouquinho. s
vezes ele se perguntava quem diabos ele era, afinal. Porque, como aquela vadia chantagista Mnica Malone tinha apontado para ele com tanta alegria, ele no era quem
todo mundo pensava que fosse.
   Com um rosnado baixo que soava como o de um animal preso numa armadilha, Jake retornou  mesa, onde se afundou na cadeira grande e olhou, mal-humorado, para as
portas duplas entalhadas que davam para o corredor vazio.
   Mnica.
   Ele no conseguia tir-la da cabea.
   s vezes ele se perguntava se tudo, tudo que estava desintegrando sua famlia e seu mundo, comeava e terminava com ela. Os incndios nos laboratrios. A morte
de Kate. O perseguidor de Alie. Tudo isso. Toda dificuldade insupervel, causada por Mnica Malone.
   Ultimamente, as pginas de escndalos estavam cheias de histrias de como ela amava Ben Fortune. O que era isso? Um amor frustrado, transformado em amargo e assassino
ao longo dos anos?
   Se ela tinha amado Ben, isso explicaria muita coisa. Amantes sussurravam coisas um para o outro, afinal. Eles revelavam segredos que seria mais sbio se guardassem
para si mesmos.
   E Mnica Malone sabia muitos segredos. A vadia tinha acesso livre a coisas demais. Ela sabia de coisas que no tinha o menor direito de saber. Como o fato de
que Jake no era realmente filho de Ben Fortune...
   Droga. Que prazer doentio ela tivera em lhe contar tudo sobre isso. Em apontar que ele tinha nascido apenas seis meses depois do casamento de Ben e Kate, e que
era um beb grande. Ela tinha descrito como seu pai verdadeiro, um soldado z-ningum chamado Joe Stover, morto no campo de batalha na Frana antes que Jake tivesse
nascido. Como Ben era to apaixonado por Kate que prometera criar o bastardo como seu prprio filho.
   Ai, e Ben tinha mantido a promessa. Nunca tinham contado a Jake sobre o homem que era seu verdadeiro pai. Ele tinha sido tratado como filho mais velho de Ben
em todas as maneiras que importavam, mesmo se no fundo de seu corao ele sentisse que no fazia parte completamente daquilo. Enfim, a mentira tinha sido passada
para a gerao seguinte. Os filhos de Jake tinham crescido adorando o maravilhoso Vov Ben.
   Ben e Kate tinham carregado aquele segredo para o tmulo. No era para ter sido revelado nunca.
   Mas, de alguma forma, Mnica Malone ficou sabendo. E, seis meses atrs, ela fez questo que Jake soubesse, tambm. E agora ela estava tirando o sangue dele e
da empresa por no revelar a verdade ao mundo.
   Afrouxando a gravata, Jake se recostou com um suspiro. O copo de cristal detalhado que ele ainda tinha nas mos estava vazio.
   Ele queria mais um.
   Mas no tomaria mais um. Chegaria  droga de escritrio ao meio-dia e mostraria a seu meio-irmo que o apunhalava pelas costas que ele ainda podia segurar as
pontas. Qualquer truque novo que Mnica Malone tivesse em sua manga de seda, ele lidaria com ele. Ele administrava as Indstrias Fortune, e isso no ia mudar.
   Tinha desistido de seus prprios sonhos anos atrs para seguir os passos de Ben Fortune. Ele no iria passar o cargo agora; afinal era tudo que lhe tinha sobrado.
   Fechou os olhos. Por um instante, no escuro por dentro das plpebras, ele viu rica. rica sorrindo, estendendo seus braos macios para ele, como costumava fazer,
antes que todo o lixo entre eles atrapalhasse tudo.
   Ento aquela imagem prateada dela desapareceu, e deu lugar  de Mnica Malone, sorrindo aquele sorriso largo, maldoso, aliciador. Aquela mulher era capaz de qualquer
coisa. Qualquer coisa. Antes de comear a chantage-lo, ela tentara, na verdade, seduzi-lo. Cus. Ela devia estar com uns sessenta anos. Uma dcada mais velha do
que ele, no mnimo. Mas ainda bonita. No se faziam mulheres to cruis, e espertalhonas, como Mnica Malone.
   Em tom baixo e rspido, Jake xingou. Alguma coisa teria que ser feita quanto a ela. Muito em breve.
   Os dedos dele apertavam o copo vazio.
   Mais um. Somente mais um. Ento ele chamaria o carro e seguiria seu rumo.

   rica no ficou por muito tempo depois que ela e Natalie chegaram de volta  casa da fazenda. Beijou a filha e agradeceu por ter ido com ela ver se Jake estava
bem.
   - Eu no teria conseguido sem voc.
   - Sim, Mame. Conseguiria sim.
   - No sem dizer coisas das quais eu teria me arrependido.
   Natalie no argumentou em relao a isso.
   - Bem, agora est feito.
   - Sim. E eu me sinto um pouco melhor, sabendo que Jake no est to mal. Eu juro que, da forma que Nathaniel contou, eu realmente pensei que ele estava virando
um alcolatra, ou pior. - Ela riu. - Ridculo, no ?
   Natalie concordou que sim. J que a chuva tinha passado, ela parou na calada principal, observando a me sair com o carro, muito mais calma do que tinha chegado,
sem dar derrapadas ou soltar cascalho.
   Em seguida, ela virou-se e entrou na casa, que estava vazia; Toby, Bernie e Rick no retornariam por horas ainda.
   Natalie tentou se sentar com um livro sobre tcnicas inovadoras de ensino que tinha inteno de ler, mas no conseguia se concentrar. Ela se sentia apreensiva.
   Talvez fosse o desconforto por causa do pai.
   Embora no quisesse deixar a me preocupada, Natalie no estava nada certa de que Jake estava bem. Os olhos dele pareciam to assustados. E, pensando bem, parecia
que a auto-segurana dele e o controle frio eram mais uma representao do que a realidade. Como se ele estivesse, de alguma forma, desempenhando o papel dele mesmo.
Forando-se a ser o Jake Fortune que sua esposa e filha sempre conheceram.
   - Ridculo. - Embora no houvesse ningum ali para ouvir, Natalie usou a mesma palavra que sua me usara.
   Ela tinha sido sensata em parar de pensar em seu pai, a menos que pretendesse tentar descobrir o que o incomodava, o que a colocaria, mais uma vez, bem no centro
de toda a turbulncia de famlia de que ela insistia em dizer a si mesmo que queria escapar. E que Jake no gostaria nem um pouco. Um de seus problemas e de rica
tinha sido que ele no dividia os sentimentos com sua esposa. E se ele no os dividia com rica, certamente no os revelaria a Natalie.
   No, Natalie dizia a si mesma. No havia nada que ela pudesse fazer sobre o que estivesse incomodando seu pai, fosse o que fosse. Ela simplesmente tinha que parar
de se preocupar.
   No grande salo, ela parou junto s janelas e ficou olhando para o lago, perguntando-se, melanclica, quanto tempo mais tardaria para o Lady Kate estar de volta,
e depois xingando a si prpria quando percebeu o que estava fazendo. Ela se lembrou dos ltimos dois encontros com Rick. De manh cedo quando ele veio esmurrando
a porta dela, gritando com ela por causa das roupas ntimas. E, depois disso, quando ele conseguiu fazer com que a pergunta se poderia levar Bernie no passeio de
barco se transformasse num encontro hostil. Ela realmente era um capacho extraordinrio, de ficar esperando o retorno de um homem que lanava a ela olhares grosseiros
quando passava por ele no corredor e apenas falava com ela para dizer-lhe o que ela estava fazendo de errado.
   Talvez ela realmente devesse se mudar. No para o outro lado do lago. No, depois de hoje, pde ver que seria um grande erro. Ela podia ficar na casa de sua me;
mas somente pensar nisso j fazia com que tremesse a cabea. Lindsay e Frank a acolheriam. Mas eles tinham uma vida to ocupada; ela sentiria que estava incomodando.
   Um hotel provavelmente seria a melhor opo. E ela no teria que morar ali por muito tempo. Faltava menos de uma semana para sua partida, o que realmente no
era praticamente tempo algum. Natalie saiu da janela e viu a garagem de Toby feita de blocos, na mesinha de centro. Sorriu com melancolia. Ela iria sentir falta
de Toby. Muita.
   E, para ser justa, na maior parte do tempo ela e Rick se arrumaram muito bem. A casa era grande. Se ela apenas fizesse um esforo de evit-lo por mais alguns
dias, tudo iria funcionar muito bem.
   Ela estaria fora para ver o mundo. E quando voltasse, Rick e seu querido filho estariam de volta a Minepolis, onde era o lugar deles.
   Resoluta, foi at o telefone e ligou para um amigo que vivia em Travistown. Eles marcaram um encontro para aquela noite. Um jantar cedo numa pousada local. Natalie
estaria fora de casa antes que Rick, o garoto e o cachorro voltassem do lago.

   Mais ou menos na mesma hora que Natalie fazia seus planos, Sterling visitava Kate em seu apartamento em Minepolis.
   - Descobrimos quem vazou informaes para a reportagem do jornal sensacionalista sobre Ben e Mnica Malone - disse Sterling.
   - Quem foi?
   - A prpria Malone. Gabe conseguiu ter uma pequena conversa com uma certa empregada diurna que Malone acabara de demitir.
   - E...?
   - A empregada deu o nome da reprter e a data em que ela visitou a manso de Mnica, o que aconteceu dois dias antes de a histria aparecer. Evidentemente, tudo
que Mnica pediu foi que no fosse mencionada como a fonte.
   Kate ficou perfeitamente imvel quando se deu conta do que ouvia. Ento ela disse, muito suavemente:
   - Se alguma vez houve dvida, agora no h mais nenhuma. Ela est a para nos destruir.
   Sterling no disse nada.
   Kate pensou em Jake. Ben tinha prometido criar o filho mais velho dela como seu prprio filho. E ele o fizera. Ele tinha feito um bom trabalho com Jake. Ningum
jamais soubera que Jake no era filho dele.
   Mas se Ben tinha trado seus votos do casamento, do que mais ele teria sido capaz? Cortava o corao de Kate pensar naquilo, mas poderia Ben, durante algum momento
de intimidade proibida, ter sussurrado a verdade sobre a paternidade de Jake a Mnica Malone?
   E Mnica estava usando agora o que sabia para fazer com que Jake danasse conforme sua msica?
   - Alguma coisa deve ser feita quanto a ela - disse Kate.
   - Sim - concordou Sterling. - A pergunta , o qu?

   As portas estavam trancadas quando Rick, Toby e o co voltaram do lago.
   Toby olhou para Rick, e Rick leu a pergunta nos olhos dele.
   - Parece que ela no est em casa. - Ele catou a chave no bolso e abriu a porta. Toby, que estava fedendo ao peixe que ele gostava de agarrar e depois soltar
novamente no lago, entrou deslizando na frente dele. - Primeiro banho, depois jantar - instruiu Rick, antes que o garoto escapasse para seu quarto.
   Toby parou, virou-se e olhou para o pai. O olhar dele dizia tanto "Ok" como "Eu sei o que fazer, Papai". Ento ele e o cachorro dirigiram-se corredor adentro.
   Rick carregou o isopor at a cozinha e o descarregou. Ento encontrou o controle remoto e ligou a televiso no salo grande, planejando manter um olho no noticirio
enquanto preparava o jantar.
   Ele estava mudando os canais, procurando notcias nacionais, quando chegou a uma estao que estava passando "Hot Copy", um programa de pseudo-notcias transmitido
em cadeia. O anncio da vez dizia respeito aos Fortune. Rick parou um instante com o dedo no boto que mudaria de canal e escutou mais uma recapitulao de todas
as coisas que j tinha ouvido, da contnua especulao sobre o relacionamento entre Ben Fortune e a eterna Mnica Malone a todas as perguntas envolvendo a nova herdeira
dos Fortune, Tracey Ducet.
   Havia uma breve entrevista com a tal Ducet, que realmente se parecia muito com a tia de Natalie, Lindsay.
   - Tenho esperana de que, com o passar do tempo, a famlia aprenda a me aceitar - Tracey falava arrastado. E Rick quase sentiu compaixo por ela. Se ela era uma
farsa, era muito convincente. Tinha um sorriso simptico, tmido, e de certa forma o sotaque do interior e as roupas feias despertavam mais empatia: uma garotinha
pobre e perdida tentando brincar com coisas alm de seu alcance.
   Em seguida, havia uma breve meno do rumorejado desentendimento entre a gerao mais antiga dos filhos Fortune, Jacob e Nathaniel, e depois uma descrio das
reviravoltas atuais dentro das empresas Fortune. Uma montagem fotogrfica da histria da famlia Fortune terminava a histria, comeando com fotos de Kate e Ben
recm-casados durante a guerra, e concluindo com tomadas areas do avio destrudo em que Kate Fortune perdera a vida. Havia at mesmo uma tomada de Natalie, garotinha,
de vestido vermelho de veludo com gola de renda, posando com todos os outros Fortune em volta de uma rvore de Natal gigante. O nome dela no era mencionado, mas
Rick conheceria aqueles olhos castanhos grandes, suaves em qualquer lugar.
   Um comercial entrou no ar. Rick mudou de canal. Mas em seguida, em vez de levantar-se ele ficou agachado em frente  grande televiso, com o olhar vago e firme
na tela, pensando em Natalie.
   Ele se sentia culpado por seu comportamento naquela manh. A forma como esmurrou a porta dela e leu para ela o ato de guerra tinha sido mais do que desproporcional.
   O problema era que ela o deixava maluco. Ele vinha pensando nela e dizendo a si mesmo que no o fizesse quando entrou na lavanderia, dirigiu-se ao armrio da
despensa para pegar outra caixa dos cereais de trigo que Toby gostava. Ele viu aquelas pequenas peas de seda e renda estendidas ali naquela porcaria de toalha.
   A primeira coisa que lhe viera  cabea era a viso dela vestindo aquelas coisas. Sua boca tinha ficado seca e suas calas, apertadas demais. E ento comeara
a se perguntar que maldito sortudo tinha visto Kate daquela forma. E, quela altura, alguma coisa dentro dele tinha perdido o controle. Ele tinha enrolado as coisas
na toalha e subido correndo pelas escadas para dizer a ela o que ele achava de ela deixar suas roupas ntimas por a para qualquer um ver.
   Quando ela abriu a porta e ficou parada ali, toda brilhante e suada com sua malha colante e short azul com listras dos lados, ele queria agarr-la, pux-la com
fora contra a parte dele que parecia doer toda a hora ultimamente e levar sua boca com fora  dela.  claro que ele no poderia fazer aquilo. Ela tinha posto um
limite para coisas daquele tipo.
   Ento, em vez disso, ele lhe deu uma reprimenda.
   E, mais tarde, quando ela desceu para pegar o caf da manh e Toby a chamou para admirar sua garagem de blocos de construir, ele no tinha conseguido deixar de
observ-la. Observar a maneira como ela era com Toby, to doce e carinhosa e boa. Como ele tinha reparado no primeiro momento em que ps os olhos nela com as lantejoulas
estpidas e os sapatos plataforma ridculos, ela parecia atraente de costas.
   Ela tinha virado antes que ele pudesse desviar o olhar, e percebido que ele estava olhando para ela, vidrado, como algum tipo de adolescente doente de amor. Pelo
menos ela no tinha olhado para baixo. Se tivesse, teria visto o efeito que causara nele. Da maneira que foi, ele no achava que ela tivesse percebido. Ainda assim,
ele se sentira um idiota. Ento ele tinha feito um estardalhao para perguntar-lhe se poderia levar o co para o lago, embora eles j tivessem concordado implicitamente
antes que o co seria mais ou menos de Toby durante o vero.
   Ele deveria agir melhor com ela. Ele sabia disso. Ela era uma mulher legal. E, aparentemente, o antigo namorado tinha deixado feridas muito graves nela. Ele no
tinha o direito de culp-la por no querer se envolver com outro homem agora.
   No tinha o direito, mas fez isso. Porque queria aquela mulher. E era um desejo que parecia ficar mais forte a cada dia que passava.
   Ele no estava lidando bem com isso.
   Da mesma forma que no tinha lidado bem com seu casamento com Vanessa.
   Ele tinha estragado tudo com Vanessa, sabia disso. Ela era bonita e mimada. E acostumada a ter o que queria. Ela tinha deixado claro desde aquela primeira noite
em que ele a conheceu que ela o queria. Ele tinha acabado de comear na Langley, Bates e Shears. Uma criana vinda da classe trabalhadora, pronto para desenhar shopping
centers e escritrios de ao e vidro para o mundo dos engravatados.
   Vanessa vinha de uma boa famlia. Tinha sido criada em um bairro elegante de Louisville por uma me que se envolvia em assuntos da comunidade. O pai dela, morto
quando Rick a conheceu, tinha sido dono de uma pequena cadeia de drogarias. Rick se casara com ela porque pensava que ela seria o tipo de esposa de que ele precisava.
   Ah, sim, ele tinha chamado aquilo de amor, e estava totalmente enfeitiado no comeo. Mas aquilo tinha sido realmente amor? Ele no podia mais ter tanta certeza.
   Tinha se despedaado muito depressa. Vanessa queria mais ateno do que ele podia se dispor a dar. Ela tinha engravidado mais cedo que ambos planejassem, e depois
odiado Rick por t-la deixado daquele jeito. Na poca em que Toby nascera, eles quase no se falavam. Depois, quando Toby mal tinha um ano de idade, ela o levara
para longe, voltando para a nica pessoa que a amava e dedicava a ela a ateno que ela tanto precisava: sua me.
   Rick tinha mergulhado no trabalho. Ele pagava a penso e os cheques de sustento antes do prazo.
   E nos ltimos quatro anos, ele no tinha permitido que uma mulher chegasse perto dele de nenhuma forma significativa. Se uma mulher se aproximasse dele, ele deixava
claro que era solteiro e planejava continuar daquele jeito. Elas o aceitavam naqueles termos, pelo tempo que durasse, ou pulavam fora logo no comeo.
   Mas ento aconteceu o acidente. E Toby voltou para ele. E sua vida inteira tinha sido virada de cabea para baixo e do avesso. E ele tinha visto o quanto estava
vazia. E ento, menos de um ms atrs, ele tinha entrado naquela casa e visto Natalie. E, quase imediatamente, ele comeara a quer-la. A viso daquela xcara de
caf na pia o destrua. Ele no podia esquecer a forma como ela sorria para Toby, a maneira como ela acariciava as orelhas de Bernie. O aroma dela parecia permanecer
no ar, se ela estivesse na casa ou no. E uma simples olhada nela, no gramado da frente, usando calas velhas, com o cabelo puxado para trs num rabo-de-cavalo descuidado,
poderia excit-lo mais completamente que qualquer amante experiente que ele j havia conhecido.
   Mas eles no estavam na mesma sintonia. No momento em que ele bateu os olhos nela, ele comeava a ver que estava pronto, finalmente, a se dar uma chance novamente,
enquanto ela no estava.
   E, fazendo uma retrospectiva, ele tinha que admitir para si prprio que deveria ter sido mais compreensivo quanto quele telefonema da inglesa. Ele ainda no
acreditava que a mulher fosse uma fraude. Mas ele no tinha vivido a vida de Natalie. Ele no era de uma famlia proeminente. No tinha a menor idia de como seria
ter pessoas fingindo ser o que no eram por causa de uma reportagem de jornal.
   Ele tinha que ser mais legal com ela. Ele iria ser mais legal com ela. No usaria contra ela o fato de que Natalie se recusava a dar-lhe o que ele realmente queria
dela. Era a escolha dela. E, droga, mostraria a Natalie que era capaz de respeitar a escolha de uma mulher.


   Captulo 10

   Natalie chegou a casa um pouco antes das nove. As luzes do salo da frente estavam acesas. Rick provavelmente estava l. Como ela queria ficar longe dele, estacionou
o carro na garagem, entrou pela porta dos fundos e dirigiu-se imediatamente ao corredor central e s escadas.
   Ela estava com a mo na pilastra e o p no primeiro espelho do degrau quando a voz de Rick a deteve.
   - Natalie... - Ele estava  porta do salo, vestindo um suter cinza, cala jeans velha e um par de mocassins. A camisa era macia e aderia  forma forte e larga
de seus ombros.
   Seria demais tentar escapar. Ela parou e olhou para ele.
   - Oi - disse ele. Ele estava sorrindo.
   Ela se perguntava se estava vendo coisas. Ele no sorria para ela h dias. O corao dela bateu mais rpido, o que ela detestou.
   - Oi - ela disse, e esperou.
   Mas ele no parecia ter nada mais a dizer. Ento ela disse:
   - Boa noite - e voltou a subir as escadas.
   Ele tossiu.
   - Natalie,eu...
   Ela parou no segundo degrau e ficou mais um instante. Mas ele no continuou. Ento ela perguntou, num tom cauteloso:
   - Sim?
   Ele dobrou os braos sobre o ombro, movendo-se de um mocassim para o outro.
   - Queria saber se podemos conversar. Apenas um ou dois minutos.
   Pela maneira como ele vinha se comportando ultimamente, era provvel que ela no gostasse do que ele tinha a dizer. Mas recusar somente poderia deix-lo irritado,
e ela estava tentando manter as coisas num nvel de equilbrio com ele. Ento ela murmurou, relutante:
   - Tudo bem.
   O sorriso dele ficou pesaroso. Ele se virou um pouco e apontou para o sof no aposento atrs dele.
   - Entre aqui, venha? Sente-se.
   Ela franziu a testa. Eles deveriam estar se evitando. E ele realmente tinha sido muito perverso ultimamente. Ela no sabia exatamente como lidar com ele agora.
   Ele continuou sorrindo daquela forma totalmente charmosa e pesarosa.
   - Por favor. Eu no mordo. Prometo.
   Aquilo fez com que ela sorrisse um pouco, mas era um som nervoso. Ele apontou para o sof novamente. Ento ela cruzou a soleira e foi atrs dele, sentando-se
onde ele estava indicando.
   Ele seguiu um instante depois, caindo numa bergre oposta a ela. Estando ali, ele parecia no saber como comear. Repousou os cotovelos nos braos da cadeira,
dobrou as mos sobre o estmago e olhou para as prprias mos, como se as examinasse.
   Natalie se viu olhando para as mos dele, tambm. Tinham uma forma bem-feita, com dedos longos e unhas cuidadosamente aparadas. Mos muito bonitas, realmente.
   - Veja. Estive pensando em algumas coisas.
   - Sim? - ela soava ridiculamente esperanosa. E estava sentando para frente, inclinando-se em direo a ele. Ela se forou a sentar para trs, e contou at cinco
antes de falar novamente. - Que coisas?
   - Eu sei que tenho sido... duro com voc nos ltimos dias.
   De repente, ela sentiu uma presso na nuca e ficou difcil olhar para ele.
   - Natalie?
   Ela se forou a erguer o queixo e encar-lo.
   - Sim. Certamente tem sido. Duro comigo, quero dizer.
   Ele se mexeu na cadeira.
   - Eu fiz um julgamento precipitado quando voc no ligou de volta para a tal de Holmes.
   -  verdade, fez sim.
   - E perdi o controle com algumas outras coisas recentemente. Eu reagi desproporcionalmente quanto  Newsweek. E a mesma coisa quanto a sua... - Ele tentou buscar
uma palavra adequada para as roupas ntimas dela.
   Ela forneceu a palavra.
   - Lingerie
   Ele tossiu.
   - Certo. Acho que o que realmente importa aqui  que eu quero uma chance com voc e voc no est me dando. E eu estou...
   - Amuado?
   Ele rosnou.
   - Homens no ficam amuados.
   Sabiamente, ela se absteve de argumentar quanto a isso.
   - Eu... peo desculpas.
   Cus. Ele soava exatamente da mesma forma que seu pai quando se desculpou com rica naquela manh. Como Jake, Rick estava transformando o fato de pedir desculpas
numa enorme concesso. Natalie experimentou um surto sbito de irritao por todos os homens. Rick deve ter lido a exasperao nos olhos dela.
   - Que foi? Voc no aceita minhas desculpas? - Agora ele soava nobre. E ligeiramente ofendido.
   Ela tinha vontade de dizer alguma coisa impertinente e ofensiva, de dar um certo troco pela forma como ele a vinha tratando. Mas que bem isso faria, de verdade?
Ela ergueu o queixo e espichou os ombros.
   - No. Aceito sim. Aceito suas desculpas.
   Ele fez um som como quem no acredita, o que a fez lembrar-se do pai, tambm. E, subitamente, ela se sentiu muito cansada. Desviou o olhar, em direo s janelas
escuras.
   A sala estava quieta. Ento Rick disse:
   - O que foi?
   Ela virou-se para ele.
   - Como assim, o que foi?
   - Alguma coisa est incomodando voc. - Ele deu aquele sorriso pesaroso novamente. - Alm de mim, quero dizer.
   Por alguma razo totalmente incompreensvel, ela achou que queria contar a ele. Tudo. Sobre seu pai e sua me e o modo estranho, assustador como o pai vinha se
comportando. Ela queria se abrir para ele, acima de tudo. Abrir-se para um homem.
   Ela se lembrava do dia em que ele e Toby tinham chegado para ficar. Ela havia confiado em Rick naquele dia, no passeio no lago, contou a ele bastante sobre sua
infncia e as irms, sobre Joel e o rompimento deles. Aquilo no era tpico dela. Natalie Fortune no se abria com homens. Os homens se abriam com ela.
   - Natalie. Conte-me.
   - Ai, Rick...
   - Vamos l. - O olhar azul firme dele era to carinhoso, to cheio de preocupao sincera. Ele realmente parecia querer saber.
   Mas as dificuldades interminveis da famlia dela no tinham nada a ver com ele. Ela balanou a cabea.
   Rick olhou para ela, interessado, por mais um instante.
   - Tudo bem. - Ele deu uma olhada em suas mos novamente, depois olhou para ela de volta. - Veja. Apenas mais alguns dias e voc vai embora.
   - Cinco dias.
   - Sim. E durante esse tempo, eu quero que fiquemos... - ele procurou a palavra certa.
   Ela tentou ajud-lo.
   - Amigos?
   Ele se encolheu.
   - Cus. Que coisa clich.
   - Que tal "em termos amigveis"?
   Ele considerou, em seguida balanou a cabea.
   - Assim  melhor. - Seus olhos se apertaram. - Voc parece estar em dvida.
   - Acho que estou, um pouco.
   - Por qu?
   - Bem, mesmo que tenha sido eu quem sugeriu, no posso deixar de me perguntar o que "em termos amigveis" ir implicar.
   - Nada demais. Eu prometo. - Ela olhou para ele de soslaio.
   Ele deu uma risadinha.
   - Agora voc est se perguntando o que exatamente eu quero dizer com "nada demais".
   - Sim. Suponho que eu esteja.
   - Quero dizer, ns somente... vamos fazer um esforo para nos entender,  isso. No quero dizer que a gente tenha que dividir refeies ou passear no Lady Kate
juntos.
   Ela se sentiu decepcionada, e se detestou por isso. Ele continuou:
   - Mas se pudermos... trocar algumas palavras agradveis de vez em quando, quando nos encontrarmos no corredor. Ou mesmo compartilhar uma pequena conversa quando
por acaso estivermos juntos no mesmo aposento. - Ele a observava bem de perto. - Ento. O que voc acha?
   Parecia adorvel. Ela no queria viver nesse silncio hostil que eles estavam dividindo agora. No entanto, parecia perigoso baixar a guarda com ele. Ela realmente
tinha atrao por ele. E ele foi to franco sobre estar atrado por ela.
   Aquilo podia ser algum tipo de truque da parte dele?
   Mas aquilo era ridculo. Ela estava sendo paranica.
   Logo, ela estaria achando que ele estava atrs dela porque ela era uma Fortune e ele queria pr as mos no dinheiro dela, ou fazer uso dos contatos dela.
   - Droga, Natalie. Eu gosto de voc.
   Ela acreditava nele. Mas sabia que no deveria. Ela no tinha provado, conclusiva, que sua capacidade de julgamento era realmente terrvel em relao aos homens?
   Rick esfregou uma de suas belas mos pelo rosto igualmente belo dele.
   E aquilo era outra coisa: Rick era muito mais bonito que qualquer homem com quem j tinha sado. No era simplesmente pelo fsico, ainda que seu corpo fosse grande
e bem proporcionado e suas feies chamassem muita ateno. Era algo nos seus olhos. E na forma como ele se portava. Algo forte e determinado.
   Algo totalmente masculino.
   Os poucos homens com quem ela tinha sado eram muito parecidos com Joel. No eram homens dignos.
   No era o caso de Rick Dalton.
   Ele estava franzindo a testa novamente, ao tentar fazer o melhor que podia para ser paciente. Mas ela tinha levado tempo demais para responder, e ele estava claramente
preocupado sobre o que poderia estar passando pela mente dela.
   Ela se levantou.
   - Eu tambm gosto de voc, Rick.
   Ele olhou para ela, e sua boca fina se torcia nas pontas.
   - Graas a Deus.
   - E eu gostaria de ser... amigvel. At ir embora.

   Na manh seguinte, quando Natalie desceu as escadas, Rick sorriu para ela e disse que o caf estava quente. Ela se serviu de uma xcara e sentou-se na cadeira
de balano acolchoada no grande salo com Toby, que estava assistindo ao desenho animado e construindo algum tipo de porto espacial com um kit para construo de
plstico. Com Bernie esparramado por perto, ela balanava e observava Toby e dava um gole no caf, enquanto Rick se sentava  mesa do caf da manh lendo o Star
Tribune. Finalmente, ela levantou-se e fez um ovo poch e sentou-se ao lado oposto a Rick para comer. Uma ou duas vezes, quando estava virando as pginas do jornal,
Rick falou com ela: coisas casuais. Ele disse a ela, provocativo, que a Dayton estava tendo uma grande liquidao que comeava na sexta-feira.
   - Essa voc no vai querer perder.
   Ela fingiu que bocejava.
   - Vou marcar na minha agenda.
   Ele deu uma risadinha.
   - Voc pode conseguir uma pechincha em sapatos plataforma.
   Ela sabia que ele estava se referindo ao primeiro dia, quando Rick a flagrou cantando junto com Bernie e Janis, toda vestida com lantejoulas e contas. Ela deu
continuidade  provocao dele.
   - E capas de abajur?
   -  mesmo. Aposto que voc deve estar cansada de usar sempre a mesma.
   Ela concordou que sim.
   Ele disse a ela que as luminrias e as capas de abajur estariam com cinqenta por cento de desconto.
   -  isso a. Eu vou l - prometeu ela.
   Eles conversaram sobre o Twins, que no estava tendo o melhor dos anos. Rick disse que preferia o Saints, de qualquer forma. E eles jogavam no Estdio Municipal
St. Paul, que era descoberto, diferente do Twins, que jogava as partidas domsticas no Metrodome.
   - Beisebol deve ser jogado ao ar livre - ele disse.
   Ela concordava com ele.
   - E os jogos da liga menor so mais divertidos. A gente sempre sente que  mais como se estivesse jogando por amor.
   - Um cara na liga menor tem que ter amor - disse Rick. - Se no tivesse, encontraria algo que pagasse melhor.
   Natalie por acaso deu uma olhada, e viu que Toby os observava. Talvez ela estivesse levando o lance de "ser amigvel" longe demais.
   Ela se levantou e carregou os pratos sujos para a pia. Enquanto ela os lavava e punha na lava-loua, se flagrou cantarolando uma msica da Pocahontas. Interrompeu
aquela bobeira imediatamente. E quando olhou para Rick, ele estava escondido atrs do jornal. Obviamente, ele no tinha ouvido. E mesmo que tivesse ouvido, no importava.
Era apenas uma cano boba.
   Aquela noite, Natalie brincou de jogo da memria com Toby. Juntos, eles espalharam o baralho com a face para baixo no tapete do salo grande. Ento eles se revezaram
tentando escolher os pares. Toby era surpreendentemente bom nisso. Ele casou vrios pares depois de ver uma das peas somente uma vez.
   Depois que Toby foi para a cama, parecia natural que Natalie e Rick fossem sentar-se no grande salo e conversar por um momento. Eles no conversaram sobre nada
em particular. Havia algumas tbuas soltas no abrigo de barcos, disse Rick. Ela agradeceu a ele por lhe contar e disse que iria chamar algum da manso para fazer
o reparo. Ele estava levando Toby para Cities amanh. Tinha algo que ele pudesse buscar para ela? Ela disse que ela mesma estava indo l. Bernie tinha hora marcada
no tratador de animais para um banho e tosa antes que ela sasse em viagem. Ela quase sugeriu que todos fossem juntos.
   Mas se deteve. Afinal, eles tinham concordado que no iam levar esse lance to longe.
   Na noite seguinte, rica telefonou na hora em que Rick estava cobrindo Toby. A me de Natalie expressava novamente sua preocupao com Jake, tendo pensamentos
muito semelhantes ao de Natalie sobre a visita deles  manso.
   - Quanto mais eu penso nisso, mais estranho me parece todo o encontro. Voc sabe o que eu quero dizer, Nat?
   Natalie no queria mentir, mas tampouco queria acrescentar nada s preocupaes de sua me. Ento ela fez um rudo de descomprometida.
   rica continuou:
   - O cabelo dele estava molhado, voc reparou? Como se ele tivesse acabado de sair do chuveiro. Mas j passava das onze. Isso  o mais assustador, quando realmente
me ponho a pensar sobre isso. Que ele estava ali, na manso, e no no escritrio. Depois das onze num dia de semana. Aquele no  o Jake que eu conheo, no mesmo.
E os olhos. Tinha algo de errado com os olhos dele, Nat. Terrivelmente aflitos. Voc percebeu?
   Natalie fez o que pde para acalmar a me, lembrando que, mesmo que houvesse algo realmente incomodando Jake, ningum podia ajud-lo se ele no quisesse ser ajudado.
   - E esse no tem sido sempre o problema com Jacob? - rica disse, triste. - Ele guarda tudo para si.  quase impossvel saber o que est realmente acontecendo
dentro dele.
   - Tenho certeza que ele ficar bem. - Natalie tentou o quanto pde acreditar em suas prprias palavras.
   Alguns minutos depois, a me dela se despediu. Natalie desligou no momento em que Rick retornava do quarto de Toby.
   Uma olhada no rosto dela e ele estava indagando:
   - Quem era ao telefone?
   - Era minha me.
   - O que ela disse que a deixou chateada?
   Na outra noite, ela o afastou. Mas naquele momento, a oferta de um ouvido amigo era bastante tentadora.
   Cinco minutos depois, eles estavam sentados em cada ponta do sof no grande salo e Natalie dividia sua preocupao com o pai.
   Rick ouvia e concordava que aquilo no parecia estar bem.
   - Mas eu no sei o que voc pode fazer quanto a isso.
   - No acho realmente que haja alguma coisa a fazer. A no ser estar disponvel se ele precisar de mim. E tentar parar de me preocupar com ele. - Ela juntou as
pernas para o lado e chegou mais perto de Rick. - Obrigada por me escutar. Eu me sinto melhor, apenas por ter algum a quem contar.
   - Quando quiser.
   Eles dividiram um longo olhar. Natalie estava sentindo tanto calor por ele. Ela realmente amava a forma como eles estavam se entendendo.
   De uma vez s, Rick desviou o olhar. Ele levantou-se.
   - Eu acho que vou sair at a sacada dos fundos. Ouvir as cigarras.
   Ela ficou um pouco surpresa pelo tom abrupto, mas escondeu com uma provocao.
   - E ser comido vivo pelos mosquitos?
   A risada tranqila dele soava ligeiramente forada.
   - Por que no?
   Ele no a convidara para acompanh-lo, ento ela concluiu que ele estava querendo ficar sozinho. Ento ela ficou onde estava enquanto ele saa pela porta dos
fundos.
   Ela tinha alugado um filme, uma comdia romntica, de uma locadora em Travistown. Estava esperando em cima do videocassete na saleta dela, no andar de cima.
   Talvez Rick quisesse assisti-lo com ela.
   Ela subiu e pegou o filme. Quando ela desceu de volta, ele ainda estava ali fora, na sacada. Ela se dirigiu  porta dos fundos.
   E ento um nervosismo tomou conta dela. Talvez ele realmente no quisesse ser incomodado agora. Talvez...
   Ela estava sendo idiota. Sabia disso. Fazer um estardalhao por causa de uma simples coisinha como perguntar a ele se queria ver um filme com ela.
   Ela decidiu fazer pipoca primeiro. Aquilo daria a ele mais alguns minutos l fora, sem ningum para perturbar, e daria a ela uma coisa para fazer enquanto tomava
coragem. Ela foi at o outro lado e ps a fita em cima da televiso, depois seguiu at a cozinha, de onde tirou um pacote de pipoca de microondas.
   Em minutos, estava pronta. Ela colocou numa tigela os gros gordurosos, com sabor de manteiga e carregou a tigela para a sala grande, colocando-a sobre a mesinha
de centro, prximo ao projeto mais recente de Toby: um kit de carros de miniatura chamado Cidade de Emergncia.
   Rick voltou para dentro no momento em que ela dizia a si prpria que no podia adiar mais um instante para estender o convite.
   - O que  isso? Pipoca?
   A lngua dela subitamente no cabia mais na boca.
   - Sim, eu... aluguei um filme. Uma comdia. Pensei que talvez...
   - tima idia. Quer um refrigerante?
   - Um refrigerante. Sim. timo.
   Ento Rick pegou duas cocas e Natalie enfiou a fita no videocassete no armrio sob a televiso. Eles sentaram-se no cho, perto da mesinha de centro e comeram
ruidosamente a pipoca, beberam o refrigerante e assistiram ao filme. Natalie tentou no reparar em como eles riam na mesmas partes. E teve cuidado de no olhar para
Rick quando o rapaz do filme finalmente beijou a menina. E quando ela e Rick enfiaram a mo na tigela ao mesmo tempo, e a mo dele esfregou-se na dela, ela ignorou,
escrupulosa, o delicioso arrepio que subiu pelo seu brao.
   Assim que o filme terminou, Natalie ps a tigela de pipoca na lava-loua, jogou a lata vazia de refrigerante na lixeira e disse boa-noite a Rick.
   Na manh seguinte, ela acordou sorrindo, pensando em Rick. Ela disse a si mesma que aquilo tinha que parar. Teria mais cuidado hoje, manteria um pouco mais de
distncia entre eles.
   Mas quando ela desceu e o viu  mesa, lendo o jornal, parecia a coisa mais natural do mundo servir-se de caf e sentar-se do lado oposto a ele, ouvir sobre o
que ela estava lendo no jornal e responder s perguntas dele sobre o itinerrio do cruzeiro dela pelo Mediterrneo.
   E, na verdade, o tempo estava ficando muito curto para os dois. Os dias juntos na casa estavam quase no fim. Era sexta-feira. Na segunda-feira, cedo, ela voaria
para Nova York. De New York embarcaria de avio para Tenerife, o ponto de partida de seu navio.
   Realmente, mudar o seu rumo para evitar Rick era desnecessrio. Eles tinham um acordo de ser no mais que "amigveis". E ambos estavam seguindo o acordo. No
havia motivo para ela no aproveitar a companhia dele e de Toby at que chegasse a hora de ela seguir seu caminho.
   Rick e Toby perambularam pela casa aquele dia. E Natalie tambm o fez, embora tivesse planejado originalmente dirigir at Travistown e visitar sua sala de aula,
limpar alguns armrios e comear a se preparar para o outono. Mas ela j tinha feito parte daquilo, e podia manejar o resto depois que voltasse.
   E certamente no precisaria comprar nada mais para vestir. Seu armrio estava recheado de roupas fabulosas. Ela estava mais pronta do que nunca para ficar glamourosa
de Barcelona ao Cairo e depois voltar.
   Ento ela foi pescar na doca com Toby e Bernie, pegando duas trutas minsculas, que Toby calmamente removeu do gancho e jogou de volta na gua. Ento veio o almoo,
um caso de gourmet de sanduches de manteiga de amendoim e gelia, caixas de suco, fatias de ma e confeitos de fruta em forma de bichinhos. Eles fizeram um piquenique
com isso, estendendo uma velha colcha trmica no gramado da frente e dividindo os confeitos com Bernie, que gostava especialmente dos roxos em forma de aranha. Depois
da refeio, eles tiraram o kit para jogo de croquet da garagem e o armaram no gramado. Ento comearam a rebater as bolas pelos aros com os velhos tacos de madeira.
   Mais tarde, o tio de Natalie, Frank, telefonou. A empregada tinha sado cedo, e Lindsay estava no hospital. Ele precisava fazer uma rpida viagem at Minepolis.
Era possvel que ele deixasse Chelsea e Carter com ela por algumas horas?
   - Claro, pode traz-los.
   Vinte minutos depois, Frank deixou o filho e a filha. Naquele momento, eram quase cinco horas. Rick e Natalie resolveram que seria divertido jantar do lado de
fora. O cardpio seria cachorro-quente, batata frita e refresco de uva. Rick iria preparar as salsichas na velha churrasqueira de pedra que o prprio Vov Ben tinha
construdo anos atrs.
   - Eu adoro cachorro-quente - disse Chelsea.
   - Eu tambm - concordou Carter. At mesmo Toby estava sorrindo.
   Eles todos fizeram fila do lado de fora, cada um carregando alguma coisa para contribuir para a refeio. Uma vez que tudo tinha sido levado para fora, Rick comeou
a empilhar carvo na churrasqueira e Natalie se ps a trabalhar a poucos metros dele, forrando com uma toalha de papel a mesa de piquenique de sequia.
   As crianas ficaram em volta, ainda sem muita certeza do que fazer entre si. Carter era quase to reservado quanto Toby. Mas Chelsea compensava o silncio dos
garotos.
   - Voc no fala? - Ela perguntou a Toby depois de alguns minutos falando sem parar.
   Toby apenas olhou firme para ela, com o olhar embevecido que um viajante num pas estrangeiro geralmente olha para os locais, como se tivesse examinado um pouco
a linguagem, mas estivesse totalmente despreparado para falar to depressa.
   - Ento, no fala?
   Rick endireitou-se do trabalho na churrasqueira e comeou a falar. Mas Natalie se moveu bruscamente, chegando ao lado dele com alguns passos e impedindo-o com
a mo no brao dele.
   - Voc me ouviu? - Chelsea perguntou a Toby, falando muito devagar e deliberadamente.
   Solene, Toby balanou a cabea.
   - Bem, ento? Voc fala... ou no?
   E Toby balanou a cabea.
   - Ah - disse Chelsea, dando de ombros. - Est bem. - Ela pegou Toby pela mo. - Est vendo aquela rvore ali? - Ela apontou para uma nogueira perto da garagem.
   Toby fez que sim com a cabea.
   - Vamos subir nela. - Ela virou-se para o irmo. - Vamos l, Carter.
   E os trs atravessaram o gramado correndo, seguidos por Bernie.
   Natalie olhava para eles, sorrindo. Ento virou-se para olhar para ele.
   - Eu pensei que seria melhor se ele respondesse por si prprio.
   Havia um meio-sorriso nos lbios dele.
   - E, como de costume, voc tinha razo.
   Ela sabia que devia se esquivar. Mas era to gostoso toc-lo. E o que ela tinha que fazer parecia muito sem importncia naquele momento. Ela podia ouvir as crianas
rindo. E o suspiro provocante de uma brisa agitando as rvores. E o grito de um pssaro em algum lugar.
   Mas os sons estavam abafados, distantes. Apenas Rick parecia perto. Cada linha de seu rosto estava to vivida, to clara. Ele respirou fundo, com cautela. Ela
viu o peito dele expandir-se sob a camisa plo que ele estava usando, e em seguida contrair-se lentamente quando ele exalava o ar.
   - Natalie.
   - Sim?
   - Tenho que cuidar do carvo.
   - Sim. Sim, eu sei. - Ela largou dele e se afastou.
   No minuto que o contato foi quebrado, ela se sentiu idiota. No deveria ter feito aquilo; ela ficou segurando por tempo demais.
   Mas ele parecia totalmente despreocupado. Como se nada de qualquer natureza tivesse acontecido. Ele se ps diretamente a empilhar o carvo. E ela disse a si mesma
que, se ele no achou que ela tinha sido inadequada, ento talvez ela no tivesse sido. No era grande coisa. Ela tinha tocado nele para chamar sua ateno, de forma
que ele no roubasse o direito de Toby de responder, ele mesmo, s perguntas de Chelsea. E tinha sido bom toc-lo. Por isso ela continuara tocando, por mais tempo
que deveria.
   Mas no tinha importncia. Ela no faria isso novamente. Quando Rick serviu os cachorros-quentes quarenta e cinco minutos mais tarde, as crianas comeram como
se estivessem morrendo de fome. Eles tomaram sorvete de chocolate de sobremesa. Ento, carregaram tudo de volta para a casa, e os adultos terminaram de arrumar enquanto
as crianas se juntaram em torno da mesa de centro no grande salo, montando quebra-cabeas e brincando com a Cidade de Emergncia de Toby.
   Frank retornou s sete para buscar Chelsea e Carter.
   - Toby quer vir a nossa casa algum dia em breve - Chelsea disse a Rick. - Voc pode traz-lo?
   Rick olhou para Toby, que fez que sim com a cabea, entusiasmado.
   - Eu vou lhe telefonar semana que vem - sugeriu Frank - e combinaremos alguma coisa.
   - Eu acho timo - disse Rick.
   Natalie notou que ela no participaria daquilo; na semana que vem, ela ter partido.
   O que era timo, realmente, no era? As crianas todas se deram bem, e Frank e Rick pareciam confortveis um com o outro desde o comeo. Era perfeito. Para todo
mundo. E ela estaria percorrendo o Mediterrneo, ento estaria aproveitando muito, tambm.
   Ento por que aquilo a deixava triste?
   No deixava. No deixava mesmo. Ela no se sentia nem um pouco triste. Assim que Chelsea e Carter foram embora, Natalie e Nick ajudaram Toby a terminar o quebra-cabea
que ele e as outras crianas estavam montando. E ento era hora de Toby se arrumar para dormir.
   Ele tomou banho e depois Rick foi cobri-lo. Natalie sentou-se no sof no salo e pegou o controle remoto, pensando em ficar ali embaixo um instante, se Rick no
se importasse. Ela estava alternando entre uma reprise de "Home Improvement" e um filme de suspense quando Rick veio por trs dela e falou:
   - Natalie.
   Ela virou-se, sorrindo, mas o sorriso rapidamente sumiu quando viu o rosto dele. Ele olhava firme para ela, com um olhar vago e a boca aberta, como se tivesse
acabado de levar um choque terrvel.
   Ela j estava de p.
   - Meu Deus, o que aconteceu?
   - Ele perguntou por voc.
   - Quem, Toby? - Rick balanou afirmativamente a cabea.
   Ela franziu a testa, tentando entender.
   - Bem, que bom, terei prazer em dar boa-noite a ele.
   - Natalie. - A voz dele era baixa e seca. - Eu disse que Toby perguntou por voc.
   Ela levou um instante para absorver aquilo.
   - Com palavras?
   Rick afirmou com a cabea, novamente.
   - Do nada, com um suspiro, ele disse: "Natalie pode vir me dar um beijo?"
   Atrs dela, na televiso, estavam entrando os comerciais. Natalie agarrou o controle da mesinha de centro e desligou o aparelho.
   Ento ela se virou novamente para Rick.
   O olhar de choque foi substitudo por um largo sorriso.
   - Voc pode? Ir l dar um beijo nele?
   Ela atirou o controle remoto numa mesa lateral.
   -  claro que sim.
   No quarto de Toby, Bernie j estava estirado no cho. Toby estava deitado na cama, debaixo da colcha de avies. Natalie entrou e sentou-se na ponta.
   - Seu pai disse que voc perguntou por mim.
   Toby fez que sim com a cabea.
   - Ele disse que voc queria um beijo. - Ele balanou a cabea mais uma vez.
   Natalie se abaixou e deu-lhe um beijo na testa. Antes que pudesse sair, dois braos pequenos envolveram seu pescoo. Toby deu um abrao forte nela e pressionou
sua bochecha macia na dela.
   - Meu dia hoje foi timo - sussurrou ela. Em resposta, ele deu mais um abrao forte nela.
   Ento ela recuou e o envolveu com o cobertor.
   - E voc durma bem, agora. - Ela apagou a luminria de avio.
   Toby virou-se de lado e fechou os olhos.
   Rick estava esperando na soleira. Quando ela passou por ele, ele tranqilamente esticou o brao e puxou a porta para fech-la.
   Ento ele encostou-se na porta e sorriu para ela.
   - Isso merece uma comemorao. Voc quer comemorar comigo? - Os olhos dele brilhavam, e o rosto dele estava enrubescido.
   Ela simplesmente no podia recusar; no que o quisesse.
   - Claro.
   Eles dirigiram-se ao grande salo.
   - A Dra. Dawkins, a psiquiatra de Toby, disse que isso iria acontecer. - Rick contou a ela, num tom apressado, excitado, antes que eles chegassem ao meio do corredor.
- Na ltima visita de Toby, ela disse que ele iria comear a falar. E ela me disse que, quando isso acontecesse, eu deveria ter cuidado de deixar que ele seguisse
seu prprio ritmo, sem que eu forasse nada, sabe?
   - Sim, faz sentido.
   Eles estavam perto do sof. Ela estava sorrindo para ele. Ento ele sorriu.
   - Champanhe. Temos que tomar champanhe.
   Ela sorriu e balanou a cabea.
   Ele virou-se rapidamente e dirigiu-se  cozinha, mas parou no caminho e jogou as mos para o alto.
   - Eu no tenho champanhe. Voc acredita nisso? As pessoas sempre tm champanhe em ocasies como essa.
   O entusiasmo dele era contagiante.
   - Que tal brandy? - Ela sugeriu. - Temos uma garrafa de Courvoisier na despensa.
   Ele franziu a testa.
   - No sei...
   Natalie viu que a idia de tomar brandy no foi muito empolgante para ele. Ela ficou feliz. Joel era um bebedor de brandy, embora ele sempre insistisse que ela
chamasse de conhaque. Como presente de Natal dois anos antes, tinha trazido a ela um jogo de copos de conhaque para que ela o servisse adequadamente.
   Ela tirou Joel da cabea.
   - Que tal vinho branco? Tem um alemo no fundo da geladeira.
   Ele riu.
   - Um alemo.
   - Sim. Tia Lindsay trouxe para c um tempo atrs.  um Riesling de algum tipo.
   Ele deu de ombros.
   - Certo, ento vamos tomar o Riesling.
   Ele encontrou o vinho e o abriu, enquanto ela trazia as taas. Eles puseram queijo cheddar e torradinhas numa tbua de cortar, mudaram o quebra-cabea e a Cidade
de Emergncia de Toby para um par de suportes de TV e puseram as guloseimas na mesa de centro.
   Quando j estavam instalados no sof, Rick encheu as taas e ergueu a sua.
   -  minha senhoria favorita - disse, e bebeu. Em seguida, olhou dentro do copo. - Ei. Isso no est nada mau.
   Ela deu um gole de sua taa. Estava bom.
   - Tia Lindsay tem um gosto excelente.
   Rick ergueu a taa novamente.
   - A Tia Lindsay, ento.
   - Um brinde a isso. - E ela brindou.
   - O que mais?
   - Hein?
   - A quem devemos fazer o prximo brinde? Quero fazer um brinde a todos. Eu me sinto bem com isso.
   - Ns s temos uma garrafa de vinho.
   - Ento vai ser rpido. Deixe comigo. Sua me. Temos que brindar  sua me. Eu realmente gosto dela.
   Aquilo era surpresa para Natalie. As pessoas diziam que a me dela era bonita, ou difcil, ou intimidante. Mas era raro que simplesmente gostassem dela.
   - Gosta?
   Ele balanou a cabea, afirmativamente.
   - Ela  gentil. Voc viu como ela agiu com Toby.
   - Ela gosta muito de crianas.
   - Mas ela  frgil, tambm. - Ele repousou um brao nas costas do sof. - Eu acho que isso preocupa voc.
   Natalie tomou outro gole grande.
   - Na maioria das vezes, as pessoas no reparam que minha me  frgil. Ele  to bonita, isso  tudo que eles vem.
   - Voc est fugindo.
   - Estou? Como?
   - Eu disse que acho que voc se preocupa com sua me.  verdade?
   - Est bem - reconheceu ela. - Sim, eu me preocupo com ela. s vezes acho que ela no est preparada para lidar com a vida de forma independente. Ela era muito
jovem quando se apaixonou perdidamente pelo meu pai. E ele dominou cada aspecto da vida dela desde ento. At recentemente, quero dizer.
   - Mas ela est levando.
   - Sim. Ela est levando. Isso  algum tipo de aula que voc est me dando? Que voc pensa que eu devia parar de me preocupar com minha me, algo assim?
   Ele ergueu a mo, com a palma para cima, e fez um esforo para parecer solene.
   - No  uma aula. Eu prometo. Uma observao, s isso.
   - Bem. - Ela sorriu para ele. O ar parecia estar assobiando com a empolgao mtua deles em relao ao progresso de Toby. Era um momento maravilhoso, brilhante.
- Uma observao  perfeitamente aceitvel.
   - timo. - Ele ergueu a taa novamente. - A rica Fortune, ento.
   - A minha me. - E ambos beberam. Eles encheram novamente as taas.
   - Agora  sua vez.
   - Minha vez.
   - Faa um brinde.
   - Ai, Rick.
   - Vamos l.
   Ela ergueu o copo.
   - A Toby, ento.
   - Com certeza brindarei a ele. - E brindou. Depois que ele engoliu, instruiu: - Agora, vamos fazer mais um.
   E por alguma razo, ela pensou em sua av Kate. E em como sentia falta dela. E como doa saber que tanta fora e sabedoria no estavam mais no mundo. Ela sentiu
o talism de boto de rosa pendurado no pescoo, escondido pela gola da camisa.
   Rick esticou o brao na distncia entre eles e levantou o queixo dela.
   - Ei. Isso deve ser uma comemorao.
   Ela tentou desviar o rosto, mas no tentou muito.
   -  o vinho.
   Ele sorriu, ainda segurando o queixo dela.
   -  muito cedo para estar sentindo os efeitos do vinho. O toque dele era caloroso, e seus olhos to gentis. Ela no podia resistir a ele, no queria resistir
a ele.
   - Sinto falta da minha av. - Aquela era mesmo a voz dela? Parecia to pequena.
   A mo de Rick deslizou para cima. Ele afagou a bochecha dela. Ela no sabia que uma lgrima tinha escapado de seus olhos at sentir que ele limpava a umidade
com a mo.
   - Estou sendo idiota - disse ela, mas foi chegando mais perto dele.
   O toque de afago transformou-se em carcia.
   - No, eu acho que voc simplesmente... sente falta de sua av.
   - Ai, Rick.
   A mo dele deslizou, dando a volta no pescoo dela. Ela no sabia dizer se ele a puxou em direo a si, ou se ela se mexeu por vontade prpria. Provavelmente
era uma combinao dos dois.
   Mas, subitamente, os lbios deles estavam muito prximos. A respirao dele estava quente e doce no rosto dela. Ento, antes que ela pudesse parar para pensar
nisso, ela mesma eliminou aquela frao extra de centmetro.
   Sua boca tocou a dele.
   - Rick. - Ela disse o nome dele encostada nos lbios dele. - Eu no...
   - Shh... eu acho que sim.
   Ento a boca dele estava junto  dela, fazendo movimentos gentis, carinhosos. A mo dele massageava a nuca dela. Era uma sensao muito boa, to absolutamente
certa.
   Natalie ouviu um pequeno gemido, e ento percebeu que tinha vindo de sua prpria garganta. Sua boca abriu-se um pouco. E a lngua dele deslizou para dentro, at
a superfcie interna dos lbios dela. Ele a saboreou ali, com uma carcia secreta, deliberada, molhada.
   Um calor afogueava-se na barriga dela. Era maravilhoso. Ela queria que aquilo nunca parasse.
   Mas ento, com um suspiro baixo, arrependido, ele recuou. A mo dele se abaixou, e ele olhou para ela. Era um olhar longo, lento, avaliador.
   - Faa seu brinde.
   Natalie sabia que eles tinham ido longe demais. Para salvar a situao, ela teria que largar o vinho, levantar-se do sof e dizer boa-noite.
   Mas, ai, meu Deus, como ele beijava bem. Ela no se lembrava de j ter sido beijada assim.
   Com um desejo to franco, e no entanto com tanto comedimento.
   Era terrivelmente sedutor. E ela queria mais. Ela queria se deixar levar, mergulhar de cabea aonde quer que fosse.
   No entanto, ela no podia. Tinha que considerar o que aconteceria depois. Eles tinham mais dois dias juntos naquela casa. Em seguida ela partiria. Como seriam
aqueles dias se eles fizessem algo... irrevogvel  noite?
   Eles vinham lidando to bem com aquilo, com seu pequeno acordo de ser amigveis...
   - Faa seu brinde, Natalie. - Os olhos dele tinham mudado novamente. Eles no pareciam mais gentis. Um fogo estava ardendo neles, e ela sabia que era um fogo
que podia consumi-la. Deliciosamente. - Faa seu brinde, ou levante-se e v.
   Ela olhou para ele com firmeza, de olhos arregalados, assustada que ele estava pondo em palavras exatamente a escolha que ela estava secretamente ponderando.
   - Tudo vem funcionando bem, no  mesmo? - Ele expressou mais um dos pensamentos dela, com uma voz baixa, intensa. - Tudo vem sendo exatamente da maneira que
voc queria. Desde que conversamos naquela noite, vimos nos entendendo bem. Eu respeitei seus desejos. Eu me mantive no lado seguro daquela linha invisvel que voc
desenhou. Mas realmente no quero ficar no lado seguro. Eu nunca fiz disso um segredo.
   Ela engasgou.
   - E eu?
   Ela balanou a cabea.
   - Voc provocou aquele beijo agora h pouco.
   - Bem, eu...
   - Pode admitir. Voc queria me beijar. E beijou. - Lentamente, ela afirmou com a cabea.
   - Voc mesma cruzou a linha. E fui eu quem interrompeu. Agora estou de volta aonde voc me ps, no outro lado da linha que nos divide. Mas se voc me der um pouco
mais de estmulo, eu no vou ficar onde voc me ps. Vou fazer amor com voc. - A voz dele tinha se tornado sedosa. E se esfregava pelos nervos dela, lanando fascas.
- Est entendendo?
   Ela estava. Perfeitamente.
   - Sim.
   - Mas a escolha  sua. Ento faa-a.
   - Eu...
   - Faa sua escolha.
   Tudo era to confuso. Por um lado, ela se sentia to  vontade com Rick, muito mais do que jamais se sentira com Joel, ou com qualquer outro homem. Ela e Rick
pareciam abordar a vida da mesma maneira. Eles concordavam em tantas coisas. E pelos ltimos dias, enquanto eles vinham tentando se entender, quando alguma coisa
precisava ser feita, ambos se entregavam  tarefa at que ela se completasse. A vida passava suavemente quando ela estava perto dele.
   No entanto, por outro lado, Rick a excitava. De formas assustadoras e avassaladoras. Ali morava o perigo. Seria muito fcil para ele significar muito para ela.
   Joel Baines tinha lhe deixado feridas profundas. Mas ela temia que Rick Dalton pudesse partir seu corao.
   Ele j tinha esperado demais que ela tomasse uma deciso. Ela podia ver isso nos olhos dele.
   - timo. - Ele deixou a taa na mesa de centro e ameaou levantar. - Eu vou, ento.
   Ela ps a mo no brao dele, sentiu o calor e a tenso.
   - No. Fique. - Ele ficou absolutamente imvel. Ela sussurrou: - Por favor.
   Ele voltou para o sof.
   - Se eu ficar...
   - Eu sei. - Ela engoliu, e quase no podia acreditar em sua prpria ousadia quando disse: - Vamos fazer amor.
   -  isso que voc quer?
   - Sim. - A palavra saiu no mais que um sussurro. Mas ele a ouviu. Ela sabia que ele queria. Ela ergueu o copo.
   - A Vov Kate.
   Ele pegou o prprio copo e olhou nos olhos dela enquanto o levantava.
   - A Kate.
   E ambos beberam.


   Captulo 11

   Quando ela baixou a taa, Rick tomou-a de sua mo. Ps a mesma sobre a mesinha de centro e a sua prpria taa ao lado dela.
   Ele sabia da incerteza dela em relao a isso. Podia ver isso nos olhos dela. Ele provavelmente deveria recuar, afastar-se, poupar ambos das possveis conseqncias
que fazer amor poderia trazer.
   Mas Rick queria Natalie, ele a desejara desde o incio, com um poder e certeza que eram muito chocantes para ele. Em alguns dias, ela estaria partindo. Essa noite
poderia representar sua nica chance com ela.
   E ele seria louco se no aproveitasse essa chance. Havia mais um empecilho a superar: o problema que qualquer homem responsvel tinha que enfrentar, ainda que
o preo fosse tudo que ele acabara de brigar para ganhar.
   - No estou preparado. Eu no tenho nenhuma...
   O rosto dela enrubesceu, brilhante, e ela interrompeu antes que ele pudesse terminar.
   - Est tudo bem. Eu tenho. L em cima. Joel e eu usvamos. s vezes. E ainda tenho algumas. - Ela fechou os olhos. - Ai, meu Deus.
   Ele estendeu o brao e pegou na mo dela.
   - No. Est tudo bem.
   - Eu me sinto to...
   - Est tudo bem mesmo, Natalie.
   Ela abriu os olhos, olhou para suas mos juntas e depois olhou para ele.
   - Est?
   Ele balanou a cabea, afirmativamente. Em seguida, muito devagar, para no assust-la, ele tocou no rosto dela com a mo que estava livre, delineou o nariz e
os maxilares dela, as sobrancelhas e os lbios. A respirao dela, contra os dedos dele, estava quente e um pouco ofegante. Os lbios dela se mexiam sob o toque
dele. Ele se aproximou, inalando o cheiro dela.
   Ento ele ps a boca onde estavam seus dedos, sobre a boca de Natalie.
   O segundo beijo deles foi longo. Ele explorava sua boca, cada centmetro dela, dentro e fora. Ela parecia fundir-se dentro dele quando ele a beijava. E ele pegou-a
bem prximo de seu corpo, sentindo a suavidade dos seios dela contra seu peito, sentindo o sabor dela mais profundamente.
   Finalmente, para parar de mover-se to depressa, ele interrompeu o beijo. Pegou os ombros dela, segurou-lhe o corpo e fez com que ela olhasse para ele.
   O rosto doce dela estava enrubescido, e os olhos dela estavam suaves com um desejo doce, estupefato. A viso aumentava a excitao dele, fazendo com que ele gemesse
e a puxasse novamente, reivindicando, com fome, sua boca, amando senti-la, to quente e firme e reagindo ao toque dele.
   A camisa branca dela se abotoava pela frente. Ele foi lidar com aqueles botes, lembrando-se de todas as noites desde que chegara  casa dela quando ele ficava
sozinho na cama, enlouquecido ao imaginar-se fazendo o que estava fazendo naquele momento. Logo, ele estava afrouxando a camisa at abri-la, revelando o colar com
o amuleto de boto de rosa, bem como o suti rosa de renda. Ele no podia resistir. Baixou a cabea e beijou-a, encontrando o mamilo dela pelo suti. Ela gemia e
se arqueava em direo a ele. Ele a trazia para mais perto, ento afrouxava a pegada um pouco, e mentalmente contava at dez.
   - Rick... - Ela estava olhando para ele, o rosto enrubescido, os olhos brilhantes de necessidade.
   A renda rosa o atraa como um m. Ele tocou o pequeno fecho entre os seios dela. Ela arquejou. Com uma pequena manobra, ele abriu o fecho. Os lbios suaves dela
estavam abertos, e a respirao dela ficou doce e rpida enquanto ele empurrava a pea de renda para tir-la do caminho. Ele pegava o seio nu dela com as mos, que
se inchava, convidativo, com uma aparncia impossivelmente suave e redonda na mo dele. Ento ele baixou a cabea e tomou-o em sua boca.
   Ela gritou alto e avolumou-se em direo a ele. Ele a deitou no sof, seguindo-a, sugando-a enquanto ela gemia e se esfregava contra o corpo dele, e ele percebeu
que podia ficar maluco se no a tivesse nua sob seu corpo logo.
   A mo dele deslizava entre eles, buscando o lugar suave, secreto entre as coxas dela. Mesmo pelos shorts de algodo dela, ele sentia o calor e a umidade. Ele
a esfregava, provocativo, e ela se ergueu at a mo dele. Ele procurou o zper com as mos.
   E ela agarrou o pulso dele.
   Ele recuou, respirando ofegante, uma pontada quente de frustrao furando a nvoa de desejo. Se ela tinha mudado de idia naquele momento...
   Ela estava mordendo o lbio.
   - E se Toby...?
   E ele sabia que ela tinha razo. Eles seriam loucos de ir adiante no salo, com a fileira de janelas escuras dando vista para a noite e o filho dele do outro
lado do corredor. Eles deveriam encontrar um lugar com mais privacidade.
   - Seu quarto?
   Ela concordou com a cabea.
   - Mas deveramos olhar o Toby primeiro. - Ele concordou com aquilo. E forou-se a sentar. Em seguida, observou, ansioso, querendo pedir que ela no se cobrisse,
enquanto ela ajeitava as roupas que tinha tirado. Eles foram, na ponta dos ps, at o quarto de Toby e deram uma olhada furtiva. Ele estava dormindo profundamente,
com o rosto em direo  porta. O som da respirao dele chegava at eles, uniforme e lento.
   Do cho, Bernie olhava para cima, com as orelhas levantadas, os olhos grandes e sbios indo de Rick a Natalie. Ento, sem dvida tendo resolvido que eles no
precisavam de nada dele, ele voltou a deitar a cabea nas patas e fechou os olhos.
   Com cautela, Rick fechou a porta. Natalie estava bem ali ao seu lado. O aroma dela o provocava: flores e almscar.
   Ele a trouxe at o corpo. Ela veio sem resistncia, dando-lhe a extenso suave de si mesma, soltando um suspiro doce de ansiedade. Ele ps a mo na parte baixa
de suas costas e a pressionou firme para junto de si, esfregando-se contra ela, imprensando seu corpo no dela.
   Ela soltou um pequeno gemido. Ele saboreou o som dos lbios dela, levando os dedos para dentro da seda escura e fragrante de seus cabelos e pegando seu rosto
com a mo, para que pudesse beij-la mais profundamente.
   Por um instante demorado, ela se pressionou para ficar mais perto, depois estava agarrando-se aos pulsos dele novamente, puxando para trs. Ele fez um rudo que
s podia ser chamado de rosnado, e tentou pux-la para perto mais uma vez.
   Ela resistiu.
   - L em cima. Por favor, Rick...
   E ele deixou que ela o levasse pela mo at as escadas e at o quarto em cima. Ela empurrou a porta at abrir e puxou-o para dentro.
   Era um quarto grande, com uma janela de sacada em nicho que dava para o gramado lateral e outra que dava vista para a extenso escura do lago. Atravs da nvoa
de sua avidez por ela, ele tomava conscincia da moblia escura, pesada, de antiguidade, dos tapetes de seda bons e uma cama de baldaquino com beiral de renda coberta
com um lenol amarelo de seda; Ela acendeu uma luminria pequena no topo de uma das cmodas de cerejeira.
   Ento ela enfiou a mo, desajeitada, numa gaveta daquela cmoda. Ele sabia o que ela estava procurando. Quando encontrou as pequenas embalagens, ela fechou a
gaveta da cmoda e virou-se para ele, com os olhos cheios de perguntas, encantadoramente insegura.
   Ele se aproximou dela e tomou-lhe as embalagens. Em seguida, envolveu-a com os braos e puxou-a para perto.
   Ela veio firme contra ele a princpio, depois comeou a se derreter, quando ele cobriu os lbios dela com os dele. Beijando-a por todo o caminho, ele a levou
at a cama. Ele deixou os preservativos na mesinha de cabeceira. Ento, com mos ansiosas, ele desabotoou os botes, soltou os fechos, lisonjeiro e persuasivo, at
tirar toda a roupa dela.
   Nua, ela tentava cobrir-se. Ele pegou as mos dela, virou-as e beijou as suaves protuberncias internas na base de seus polegares.
   - Ai, Rick...
   - No esconda. No h razo para esconder. No de mim. Nunca.
   - Nenhum homem me fez sentir da maneira que voc me faz.
   - timo. - Ele agarrou as duas mos dela e deu um passo atrs. Por um instante, ele se permitiu olhar o quanto pde para os seios suaves, altos, uma longa extenso
de cintura, e os caracis escuros e brilhantes entre as pernas esbeltas. Logo, rapidamente, ele comeou a tirar sua prpria roupa.
   Ela o observava enquanto ele o fazia, com os olhos arregalados e cheios de perguntas. Assim que terminou, ele se estendeu at ela novamente. E quando toda a nudez
longilnea dela o tocou, ele sabia que a primeira vez deles no teria a fineza e ternura que ele esperava dar a ela.
   Ele resmungou o nome dela, o controle se esvaindo, ento ele a beijou. Ela retornou o beijo, ansiosa, a lngua doce emparelhando com a dele.
   Eles caram na cama. Ele tocou nela. Ela deu um grito choramingado e indispensvel e seu corpo se arqueou em direo  mo dele.
   Ela estava to molhada, to sedosa e quente. E ele no podia esperar. Esticou o brao, tateando at encontrar um dos preservativos. Por algum milagre, ele conseguiu
enrol-lo sobre sua rigidez quase no limite.
   Logo ele estava se instalando entre as coxas macias dela. Ele olhou para baixo, encontrando olhos bonitos, arregalados, maravilhados. E ele forou para dentro.
   Ela gemeu. E envolveu aquelas pernas longas de menina da vizinhana, erguendo-se para ele como a intumescncia da onda mais doce, mais envolvente. E o resto era
apenas o cheiro dela, o toque dela, o centro que, como ele sabia ao entrar e sair dela, ele tinha que alcanar de alguma forma.
   Depois de uma eternidade que passou num instante, o corpo dela comeou a chegar ao clmax. Ele sentiu os msculos internos dela sedosos, fechando-se e abrindo-se
em volta dele, tirando todo o leite dele. Ele ouviu o grito de xtase e sobressalto. E ele saiu, perdido, terminado, caindo dentro do cavado da onda, depois chegando
at a crista com um grito final, triunfante.
   Ele se esvaziou dentro dela, esvaziou tudo, pressionando fundo, pulsando firme, at que no havia mais nada alm da suavidade dela toda em torno dele, segurando-o
com as mos, abraando para si.
   Por um tempo imensurvel, ela ficou sem energia e sem ossos em seu corpo suave, generoso. Ento ele perguntou, com um suspiro, se ele era pesado demais.
   Ela se encolheu e balanou a cabea.
   Ele deu um impulso para cima e acariciou o cabelo mido, tirando-o da testa. Em seguida, no podia deixar de beij-la, um beijo que tinha uma doura sem medida,
porque sua boca se dava a ele, abrindo, deixando que ele entrasse.
   Ele deslizou para o lado, afastando-se dela, curtindo a maneira como ela se grudava nele, como se no quisesse deix-lo sair. Ento ele pegou na mo dela, em
parte como conforto, e tambm porque queria fazer com que ela se levantasse para ele novamente.
   E ela se levantou, bruscamente, levantando a cintura, gritando daquela maneira sobressaltada que ele j tinha comeado a amar. Como se ela no entendesse o que
estava acontecendo com ela, como se, apesar dos medos que faziam com que ela quisesse se afastar dele, ela no conseguisse se afastar: ela era totalmente, e completamente
dele.
   Quando ela atingiu a crista pela segunda vez, ele abaixou a cabea e ps a boca onde estava sua mo, no corao secreto, pulsante dela. Ela levou os dedos dentro
dos cabelos dele, segurando-o ali e empurrando a si mesmo para ele, frentica, desesperada, sacudindo sem fim. Ele queria beij-la daquela forma para sempre, to
profunda e intimamente, ficar perdida pela eternidade naquele centro lquido doce dela.
   Ela largou a cabea dele com um suspiro final, trmulo. Ele ficou um tempo ali, ainda beijando-a, at que ela o empurrou um pouco, saciada, mais que sensibilizada.
   Com uma carcia final de esfregar seus lbios na pele plida da barriga dela, ele a largou apenas pelo tempo suficiente de jogar fora o preservativo usado. Em
seguida ele estendeu o brao ao lado dela, trazendo-a para si, virando-a de forma que ela se encaixasse de costas nele, como uma concha.
   O cabelo dela fazia ccegas no nariz dele. Ele ajeitou-o, e puxou-a para perto. Ento fechou os olhos. Ele sentiu o suspiro longo deixar o corpo dela e sabia
que ela tinha fechado os olhos, tambm. Eles se deixaram levar por um tempo, em algum lugar entre sonhando e acordado.
   Mas, finalmente, ele comeou a acarici-la novamente, ento se esticou para pegar mais um preservativo. Ele deslizou para dentro dela suavemente, como se estivesse
chegando em casa. Eles se sacudiam juntos, longa, lenta e profundamente. E desta vez, quando chegou o fim, ele no tinha idia se comeava com ele ou dentro dela.
   Depois de um tempo, quando a respirao deles ficou lenta, ele a deixou mais uma vez, retornando alguns minutos depois, encontrando-a sob as cobertas desta vez.
Ele deslizou para baixo da coberta, ao lado dela, e a abraou.
   Nos braos de Rick, Natalie estava alvoroada. Rick aproximou-a ainda mais.
   - Hum? - perguntou com uma voz pesada, dormente. - Tudo bem?
   - Sim. Eu s... tenho que ir ao banheiro.
   Os braos dele soltaram-se dela. Ela deslizou da cama, sentindo que ele a observava enquanto ela se afastava, mas sem se atrever a olhar para trs e ver se estava
certa.
   No banheiro de azulejos azuis, ela acendeu a luz e se aliviou. Junto  pia, ao lavar as mos, Natalie no podia deixar de olhar para si mesma no espelho. O cabelo
dela estava todo emaranhado pelo rosto, que parecia enrubescido e abatido. O rimel tinha borrado sob seus olhos.
   Ela pensou nas coisas que tinha acabado de fazer com Rick, no outro quarto. E todo o corpo dela chiava com a lembrana do prazer. Ela mal podia acreditar como
tinha sido. Nunca em sua vida ela tinha gemido e gritado alto como aquela vez, ou deixado continuar e continuar, no deixar acabar quando achava que tinha acabado.
Nunca um homem a beijara com tanta avidez em lugares to privados, e depois quisera continuar beijando, mesmo depois que estava claro que ela tinha atingido a satisfao.
   Realmente, agora que ela estava ali sob a luz brilhante de seu prprio banheiro e reproduzia aquilo na mente, tudo era... um pouco bom demais para ser verdade.
   Com um pequeno gemido que era em parte confuso e em parte constrangimento, Natalie pressionou ambas as mos sobre as bochechas, lembrando-se do primeiro dia,
quando Rick e Toby tinham chegado para ficar na casa dela, aquele primeiro dia no passeio de barco, quando Rick quase a beijara, e ela se afastara no momento exato.
Ele sabia naquele momento que um beijo era o que bastava?
   Certamente parecia ser daquela forma, porque, depois daquele primeiro beijo no sof no salo, seus processos mentais lgicos tinham fugido, deixando-a completamente
sem crebro. Tudo que tinha sobrado na cabea dela era um pensamento: Ela queria Rick, queria saber como seria deitar-se nos braos dele.
   Agora ela sabia. Era maravilhoso. Incrvel. Melhor do que qualquer coisa que ela j tinha conhecido, em sua experincia limitada de intimidade com homens.
   Mas, realmente, o quanto ela conhecia Rick? Certamente no to bem para ir para a cama com ele.
   Ela se lembrava do que Joel dissera a ela, quando dizia que estava tudo terminado entre eles. Voc  uma mulher bacana, Natalie, e no existe nenhuma mais segura
de si. Mas eu tenho que ser franco. Voc no  muito excitante. E eu acho que mereo um pouco de excitao em minha vida...
   Alguns momentos atrs, Rick parecia muito excitado "por ela". Mas ela podia acreditar nele?
   Ela e Joel s chegaram a fazer amor depois de ter namorado por vrios meses. Rick tinha ficado na casa dela por semanas, e a maior parte do tempo passara tratando-a
como se a odiasse. Pelos ltimos trs dias - contados: trs - ele tinha sido legal com ela. E agora ele estava deitado na cama dela, no quarto.
   As bochechas de Natalie pareciam que estavam pegando fogo. Ela ligou a torneira fria completamente e jogou gua fria no rosto, esfregando os dedos sob os olhos
para se livrar dos borres deixados pelo rmel. Em seguida, depois de esfregar o rosto com a toalha para sec-lo, ela agarrou uma escova da bancada e arrastou-a
pelo cabelo emaranhado.
   Ela estava agindo como uma idiota, e sabia disso. O que estava feito, estava feito.
   E tinha sido lindo. Tinha. Por nenhum motivo ela teria que estragar aquilo para si mesma com todos aqueles pensamentos negativos. O que ela tinha que fazer imediatamente
era se recompor e voltar ao quarto.
   Mas ela no conseguia fazer isso. Saiu andando de um lado ao outro pelos azulejos azuis, aproximando-se da porta do quarto e em seguida desviando-se dela, incapaz
de estender o brao e girar a maaneta.
   Finalmente, com um longo suspiro, ela mergulhou at a ponta da banheira e segurou a cabea com as mos.
   A batida na porta veio alguns segundos depois.
   - Natalie?
   Ela desejava gritar: "V embora!", mas sabia o quanto pareceria totalmente idiota.
   Lentamente, a porta deslizou para dentro. Rick estava do outro lado dela, nu como ela, franzindo a testa de preocupao, o que formava uma ruga entre as sobrancelhas
escuras. O corpo dele era to fino, com ombros largos, peito profundo, com pernas longas e fortes e...
   Um constrangimento jorrou por dentro dela. Ela se forou a desviar o olhar, perguntando-se que diacho estava fazendo ali, em seu prprio banheiro, com esse homem
incrivelmente bonito, nu. Aquilo no era tpico dela.
    medida que cada instante passava, o que tinha acontecido no quarto parecia mais e mais como um sonho. Algo que no era mesmo real. Alguma coisa da qual ela
agora estava acordando, para enfrentar as conseqncias de um ato que ela nunca deveria ter deixado acontecer.
   - Rick, eu...
   Um desconforto apertava como um punho no corao de Rick. Ele no gostou do olhar no rosto dela.
   - Que foi?
   Ele ficou observando enquanto ela olhava para si mesma, envolvendo os seios com os braos, encolhendo os ombros, tentando cobrir a si mesma. No tinha muito tempo
que ele tinha pedido a ela que no fizesse aquilo. E ela tinha dito que no iria.
   - Voc pode... me dar meu robe? Est atrs da porta.
   Ele puxou a porta, para poder verificar atrs dela. Com certeza, o robe estava pendurado ali. Ele o tirou do gancho e jogou-o para ela.
   Ela ficou ali e o agarrou enquanto voava pelo ar.
   - Obrigada. - Rapidamente, ela enfiou as mos nas mangas. A julgar pelo olhar dela, alguma coisa muito sria estava para acontecer. Rick resolveu que no queria
enfrentar aquilo nu. Ento ele se desviou dela e voltou para o quarto, onde pegou a cala jeans do cho e vestiu-a. Ele estava abotoando a cala quando ela apareceu
no corredor do banheiro.
   - Rick, eu... - Mais uma vez, como antes, ela no conseguia pensar no que dizer em seguida.
   No muito antes, ele tivera certeza de que tudo iria correr bem. Aquela certeza estava se esvaindo rapidamente.
   - O que ? Pode dizer.
   - Rick, eu... ns... - Ela olhou para si mesma, desesperada, em seguida inspirou profundamente e soltou palavras que ele secretamente temia que ela pudesse dizer.
- Foi um erro, o que acabamos de fazer.
   Ele apertou as mos dos lados, determinado a manter-se razovel.
   - Pensei que fosse uma escolha. Uma escolha que voc fez voluntariamente.
   - E era. Sim. Mas, voc v, tanto quanto eu s vezes digo a mim mesma que vou ser ousada e tentar um caso de uma noite s algum dia, eu realmente nunca esperei
que fosse um dia faz-lo. Isso simplesmente... no sou eu.
   Ele respirou fundo e soltou o ar muito lentamente.
   -  isso que foi para voc? Uma noite apenas?
   Ela enfiou as mos nos bolsos do robe, em seguida olhou para ele com a cabea inclinada para o lado.
   - Foi um caso de uma noite apenas para voc?
   Ele queria gritar com ela que ela podia muito bem responder  pergunta antes que ela o surpreendesse com uma pergunta dela. Mas no gritou. Ele no se atreveu
a falar. Ento o que fez foi balanar firmemente a cabea.
   - Ah. Entendo. - Ela no parecia aliviada.
   Ele apertou mais ainda os punhos, sabendo que a revelao tinha que estar vindo a seguir. Ela o surpreendeu com essa:
   - Mas voc tinha que saber que s podia ser uma noite apenas.
   - Por qu? - Saiu como um sapo rouco. Ela mordeu seu belo lbio inferior.
   - Bem, como eu j expliquei a voc, eu no estou preparada no momento para me envolver com ningum. Especialmente algum como voc.
   A ltima coisa que ele realmente queria saber era que diabos ela queria dizer com isso, mas ainda assim ele se pegou perguntando, tranqilamente:
   - Algum como eu?
   - Sim. - A garganta dela se mexia convulsivamente enquanto ela engolia. - Algum to... bonito e sexy. Algum que vai me usar.
   Ele sentiu como se ela tivesse dado com o joelho em sua virilha.
   - Usar voc.
   Ela balanou a cabea, afirmativamente.
   - Vamos ser sinceros, certo? Eu sei que deve haver alguma coisa, uma razo mais profunda por que voc fez amor comigo. Quero dizer, convenhamos. - Ela estendeu
os braos para os lados. Agora que ela estava vestida com o robe, parecia sentir-se segura de fazer isso. - Olhe para mim.
   Ele olhou de forma longa e penetrante, sem mostrar nenhum sentimento.
   Ela no podia suportar aquele olhar examinador. Os olhos dela desviaram-se para concentrar-se cegamente em uma das cmodas de cerejeira.
   - Voc sabe e eu sei que no sou o tipo de mulher por quem os homens perdem a cabea.
   Agora o que ele podia dizer em relao quilo? Se ele argumentasse que tinha perdido a cabea por ela, seria chamado de mentiroso.
   - Natalie...
   Ainda olhando para a cmoda, ela fez um gesto com a mo.
   - No. Pare. Vamos cair na real. Voc pode ter muitas mulheres. - Ela mordeu o lbio, e se forou a encar-lo. -  por causa de Toby?  porque voc precisa de
um certo tipo de mulher, algum que seja uma boa me para ele?
   Aquilo era demais. Ela parecia determinada a se depreciar e transform-lo no rapaz malvado. A irritao de Rick estava crescendo. Ele tentou afast-la, permanecer
razovel e lgico. Cuidadosamente, ele sentou-se na ponta da cama revolvida.
   - Isso  realmente o que voc pensa, que estou procurando uma mulher para tomar conta de Toby?
   - No sei. Estou tentando entender.
   Ele no podia deixar de duvidar daquilo.
   - Est mesmo?
   - Sim.  claro. - Ela franziu a testa, pensando. -  porque eu sou quem eu sou? Porque sou uma Fortune? Ou  dinheiro? Voc precisa de dinheiro? Apenas... apenas
me diga. Eu quero a verdade.
   Agora ela estava chamando Rick de mentiroso. A irritao que ele tentava no sentir comeou a arder mais quente. Muito casualmente, ele se recostou sobre o cotovelo
entre os lenis emaranhados.
   - Tudo bem. Vamos ver. - Ele jogou um sarcasmo. - Eu no preciso de dinheiro. E estou me lixando qual  o seu sobrenome. No entanto, adoro o seu jeito com Toby.
Ento talvez seja isso. - Ele se endireitou e sentou-se. - Estou apenas procurando uma bab que durma no servio. E voc seria perfeita. Por isso eu fiz sexo com
voc, para seduzi-la at fazer minha vontade.
   O rosto dela empalideceu. Ela estava a apenas poucos metros dele, parada diante da penteadeira. Lentamente, ela mergulhou numa cadeira ali.
   - Voc pode tentar fazer piada disso. Mas eu tenho que saber.  isso mesmo?
   Ele olhou dentro dos olhos dela, lembrando a si mesmo, desmotivado, de que ela estava insegura, que tinha se machucado seriamente num passado no muito distante,
que ele devia pegar leve, ser gentil, fazer o que pudesse para dar consolo a ela.
   Mas, droga, o que tinha acontecido nesse quarto tinha feito uma diferena enorme para ele. Diferena demais, realmente. Ele se sentiu exposto. Vulnervel. E no
estava em condies de desabar em si mesmo tentando convenc-la de que ele no era um perdedor cavando ouro que ela parecia pensar que qualquer homem que fosse atrs
dela teria que ser.
   - Rick. Responda-me.
   Se aquilo fosse mais longe, ele teria que dizer alguma coisa da qual se arrependeria.
   Ele tentava se lembrar como tinha sido mais cedo, to bonito e certo.
   Ele levantou-se.
   - Veja, Natalie. Talvez voc tenha razo. Talvez tenhamos cometido um erro.
   Ela apertou ainda mais o robe, encolheu os ombros e abaixou a cabea, de forma que parecia pequena e perdida nas dobras brancas e fofas.
   - Sim. Sim, acho que cometemos.
   A nsia de agarr-la e sacudi-la tinha disparado dentro dele. Ele cruzou os braos sobre o peito e rangeu os dentes, mordendo as palavras rspidas que ele queria
tanto que fossem ditas.
   Ela olhou novamente para ele, com os olhos arregalados e ofendidos.
   - Acho que eu devo ir embora. Vou ficar na casa do meu pai nos prximos dias. Seria muito difcil, eu acho, se eu ficasse aqui.
   Ele pensou em Vanessa naquele momento. No desespero que tinha sido brigar com ela. Vanessa tinha uma idia na cabea, e no adiantava argumentar com ela. Depois
daqueles primeiros meses de fascinao, a vida deles juntos tinha sido puro inferno, tanto que ele pensava que tinha aprendido a lio.
   Mas a conheceu Natalie. Ele tinha certeza que ela era to diferente de Vanessa quanto o dia era da escurido.
   Dalton, ele pensou, desmotivado, bem-vindo ao meio da noite.
   - Rick? Voc me ouviu? - Ele balanou a cabea, afirmativamente. - Eu vou ficar na casa do meu pai.
   - Fique  vontade - disse ele, bruscamente. Ento juntou o resto de suas roupas e caiu fora dali.


   Captulo 12

   No minuto em que a porta fechou, depois que Rick saiu, Natalie ficou ali. Mas sentia as pernas fracas. Ento ela se sentou novamente na cadeira da penteadeira.
   Tinha dito a Rick que iria embora. E iria mesmo. Em apenas um minuto, to logo conseguisse se recompor.
   Seu corpo chiava com uma energia nervosa. Ela fechou os olhos, respirou profunda e lentamente, tentando se acalmar. Mas em seguida, no escuro dentro das plpebras,
ela viu Rick, enquanto eles estavam fazendo amor, olhando para ela como se fosse a mais bela, mais desejvel mulher do mundo...
   Com um pequeno gemido aflito, ela deu um salto e se levantou. Andou, determinada, at o armrio e trouxe para baixo uma pequena mala de couro, que carregou de
volta para a cama. Rapidamente, saiu cavando nas gavetas da cmoda, encontrando roupas ntimas e meias e roupas casuais suficientes para alguns dias.
   Claro, ela tinha que retornar para arrumar as malas com suas roupas elegantes de frias antes de partir para o aeroporto. Mas podia esperar at domingo, no final
do dia, para cuidar disso. Ento poderia subir at aqui, nos seus aposentos, onde ficaria at terminar de arrumar sua bagagem. No havia motivo para ter que lidar
com Rick, absolutamente.
   Ela pensou em Toby, no fato de ele ter falado  noite. Ele tinha perguntado por ela. Seus bracinhos envolvendo o pescoo dela... Ai, ela iria sentir falta dele.
Iria sentir uma falta terrvel dele.
   Com um choro minsculo, mergulhou at a ponta da cama e ps o rosto nas mos. Depois de um momento de concentrao, ela se sentiu mais calma novamente.
   Ergueu a cabea, endireitou os ombros. Estaria com as emoes completamente sob controle at domingo. E, ento, se despediria de Toby.
   Nada se alterou pelo que acontecera entre ela e Rick aquela noite; pelo menos, nada que fosse importante. Ela partiria em seu cruzeiro e Rick e Toby tomariam
conta da casa e do cachorro, exatamente como tinha sido planejado desde o incio. A nica coisa diferente seriam os dois dias que ela passaria na manso.
   Natalie levantou-se mais uma vez e olhou para a mala. Marcou mentalmente tudo o que via e decidiu que tinha tudo de que precisava para o momento. Fechou o zper.
Depois foi para o banheiro, onde se despiu do robe e entrou no chuveiro.
   Enquanto a gua corria sobre seu corpo, ela dizia a si mesma que iria esquecer tudo sobre aquela noite o quanto antes. Ela tinha estado to confusa ultimamente;
nada mais parecia ser do jeito que deveria. Provavelmente estava destinado a acontecer de ela fazer algo idiota e arriscado, tal como apaixonar-se pelo inquilino
bonito, e depois ter que sofrer as conseqncias.
   No que fosse haver qualquer conseqncia. Nenhuma sria, pelo menos. Ambos eram livres. E eles tinham tido o cuidado de praticar sexo seguro.
   Assim que tomou banho e vestiu uma cala jeans e uma camisa limpa, Natalie estava pronta para ir. Decidiu pegar o carro. Tecnicamente, Rick tinha direito a usar
o barco de esqui. E ela poderia precisar do carro nos prximos dias, de qualquer modo.
   Junto ao porto da manso, ela teve que esperar o que parecia uma eternidade para que a nova empregada atendesse  campainha. Quando alcanou a ampla via da frente,
todas as luzes de segurana estavam acesas, banhando a fachada imponente com um brilho artificial. Depois de parar o carro, ela esperou um instante, pensando que
daquela vez no decepcionaria Edgar; ele podia abrir a porta para ela.
   Mas Edgar no veio. Que tolice a dela. Ele provavelmente estava em pleno sono. Ela reparou no carro esportivo preto brilhante esperando prximo  entrada frontal.
Parecia um dos carros que o pai dela gostava de usar quando decidia que ele mesmo iria dirigir. A nova empregada respondeu  batida. Seu cabelo grisalho estava amarrado
na altura das costas, e ela segurava as partes da frente de um robe de cor escura.
   - Sinto muito por acord-la.
   - No h problema, senhorita.
   - Meu pai est?
   - Realmente no sei dizer. Ele saiu mais cedo, mas j deve ter regressado. Estou no meu quarto h uma hora, mais ou menos. Antes da senhorita, ningum tocou l
dentro.
   Natalie passou a bolsa da mo esquerda para a direita, tentando decidir o que fazer em seguida. Ela se sentia meio anestesiada, na verdade. Estava apenas tentando
continuar se mexendo, para que no tivesse que pensar muito.
   - Posso levar sua mala?
   Ela agarrou a bolsa com um pouco mais de firmeza.
   - Hum, no. Acho que vou subir at um dos quartos de hspedes. Posso carregar minhas prprias coisas.
   - O quarto azul est com ar fresco.
   - Sim. timo. Ficarei no quarto azul.
   - Posso ajud-la a se acomodar?
   - No, realmente. No  necessrio. J incomodei o suficiente.
   - Incmodo algum.
   - Obrigada. No precisa.
   - Como desejar. Boa noite, ento. - Ela j estava saindo.
   - Boa noite - Natalie murmurou para a mulher, que se retirava. A empregada rapidamente desapareceu por um corredor lateral, dirigindo-se pela cozinha at a ala
de serviais.
   Assim que a mulher se foi, Natalie dirigiu-se  escadaria central. Mas, ali, ela hesitou. Estava totalmente agitada, e provavelmente no conseguiria dormir. Ela
sabia que ficaria ali deitada na cama estranha, olhando para o teto e tentando no se lembrar do toque das mos de Rick na pele dela, tentando no pensar em todas
as formas como ele tinha tocado nela, em como ele realmente parecia gostar de toc-la, quase tanto quanto ela gostava de ser tocada por ele. Tentando no se questionar
se ela no estava se esquivando da melhor coisa que j tinha acontecido a ela...
   No, o sono no viria facilmente. Ela ps a mala e a sacola de ombro sobre o cho brilhante e dirigiu-se  biblioteca, procurando um livro para ajud-la a enfrentar
a longa noite que tinha pela frente.
   Ela achou estranho quando alcanou as portas duplas entalhadas e viu o brilho da luz saindo debaixo delas. Os serviais eram geralmente cuidadosos quanto a deixar
luzes acesas quando ningum estivesse usando. Mas ela deu de ombros. A mulher que acabava de deix-la entrar era uma prova de que pelo menos alguns dos serviais
eram novos. E o pai dela, com todas as suas preocupaes atuais, provavelmente no era nem de longe to meticuloso quanto era Vov Kate.
   Natalie puxou uma das duas portas e atravessou a soleira.
   O pai dela estava ali, esparramado em sua cadeira junto  grande mesa do outro lado. Com o som da porta se abrindo, ele ergueu a cabea.
   Natalie olhou firme. Era difcil absorver o que estava vendo. Ele parecia estar muito mal. Sua pele estava cinzenta, e seus olhos tinham beiras avermelhadas e
bolsas escuras embaixo. O cabelo dele estava arrepiado, como se ele tivesse arrastado os dedos por dentro. Havia uma marca de contuso brilhante em seu queixo. Arranhes
vermelhos e longos marcavam seu pescoo. Ele tinha jogado o casaco do palet sobre o espaldar da cadeira, e sua camisa de seda branca estava amarrotada e rasgada
no ombro, e manchada com algo que parecia muito com sangue seco. Em frente a ele na mesa, uma garrafa semi-vazia de Chivas esperava, ao lado de um copo pequeno e
grosso de cristal.
   Ele olhou para ela com os olhos espremidos e se inclinou, ficando mais prximo  mesa.
   - Nat?
   Ela levou um tempo para conseguir falar. Ao lado de seu av Ben, o pai dela sempre foi o homem mais forte e equilibrado que ela j tinha conhecido. V-lo reduzido
a isso causava um sentimento horrvel, oco, no mais fundo dela.
   Ele resmungou o nome dela pela segunda vez.
   - Sim, Papai. - Ela falou de forma cautelosa e gentil. - Sou eu.
   - Bem. Bem-vinda. - Ele pegou a garrafa de scotch e jogou um pouco dentro do copo. - Venha, entre. - Ele agarrou o copo e ps metade da bebida para dentro, engasgando
depois de engolir.
   Natalie olhava para ele cautelosa, tentando decidir o que exatamente deveria fazer.
   Ele rosnou.
   - No me olhe desse jeito. Est sob controle (o pai mal conseguia articular as palavras). Voc conhece seu pai. - Ele examinou o copo, como se houvesse algo terrivelmente
interessante em relao a ele. Em seguida espremeu os olhos para olhar novamente para Natalie. - Bem. Qual  o problema? No est tarde? Por que voc est aqui?
   - Eu apenas... vou passar a noite aqui. Bem, na verdade vou ficar at segunda de manh. Est bem assim?
   Ele piscou para ela, com um olhar srio, e acariciou com a mo os cabelos grisalhos e arrepiados.
   - Claro que est bem. Voc sempre tem um lugar aqui. - Ele franziu a testa. - Mas voc ainda no disse o que est fazendo aqui.
   Algo pressionava o peito dela. Sentia dor por ele. O que podia ter acontecido para ele estar sentado ali, com uma blusa rasgada, manchada de sangue, bebendo at
perder os sentidos no meio da noite? Ela no deveria querer saber. Tinha dito a si mesma que ficaria longe dos interminveis problemas na famlia.
   Mas aquilo parecia algo muito pior que apenas um problema. Parecia assustador. Parecia muito, muito mal.
   - Voc vai ficar a na entrada olhando para mim com esses olhos tristes a noite toda?
   - No, Papai.  claro que no. - Ela virou-se e fechou a porta depois de entrar.
   Ele apontou para uma cadeira.
   - Sente-se. E tome uma bebida. - Eleja estava servindo mais uma para si mesmo. - Voc quer um scotch?
   - No.
   - Bem. - Ele apontou novamente. - O armrio est ali. Sirva-se. O que voc quiser.
   - No, obrigada.
   Ele levantou o ombro que no estava manchado de sangue.
   - Fique  vontade.
   Cauteloso, ele se aproximou da mesa.
   - Papai, eu acho que voc j bebeu o suficiente.
   Ele deu uma fungada ao beber de novo.
   Ela se mexeu em volta da mesa, at ficar ao lado da grande cadeira de rodinhas dele. Ele estava colocando o copo na mesa quando ela pegou o brao da cadeira e
girou-a, de forma que ele ficou de frente para ela. Os olhos dele se enrolaram um pouco, como se o movimento sbito o deixasse tonto, ento ele lanou uma imitao
penosa de seu velho olhar firme e rgido sobre ela.
   - Nat. Tome cuidado.
   Ela viu que ele tinha um corte, sob a camisa rasgada.
   - Papai. Voc est machucado... - Instintivamente querendo confort-lo, ela estendeu o brao.
   Ele se esquivou, virando sua cabea grisalha para a camisa rasgada e o ombro ferido. Ento ele deu um rosnado e acenou com a mo.
   - No  nada. Um arranho. - Ele tentou pegar a bebida.
   Ela se segurou nos braos da cadeira, e ajoelhou-se diante dele.
   - Papai. O que est acontecendo aqui? O que aconteceu? - Ele deu uma olhada nela, irritado. Ento seu rosto afrouxou. Ele engoliu uma respirao profunda.
   - No  problema seu. Voc no quer saber. - Ele deu um solavanco na cadeira, como se tentasse se livrar da pegada dela. Mas no usou muita energia para isso.
   E ela segurava firme.
   - Sim, Papai. Quero sim. Eu quero saber.
   Ele estendeu o brao, fraco, e a mo dele esfregou a bochecha dela.
   - Nat inocente. Com seu grande corao, olhando para o mundo pelos seus culos cor-de-rosa.
   - Converse comigo. Por favor.
   - Voc ainda adora aqueles filmes da Disney?
   - Papai...
   - Eu soube que voc se livrou daquele canalha com quem estava saindo. Joel.
   - Sim, eu me livrei de Joel.
   - timo. Voc pode fazer melhor.
   - Papai. Diga-me o que aconteceu com voc. - Ele desviou o olhar. - Papai. Por favor.
   Ele estava balanando a cabea.
   - Voc no vai querer se... envolver.
   - Sim, eu quero. - Ela mesma se assustou com a absoluta convico de sua voz. - Eu quero me envolver, sim. - E, apesar do que vinha dizendo a si mesma h meses,
ela percebia que era verdade. - Eu preciso me envolver. - E aquilo era verdade, tambm.
   Jake esfregou o rosto com a mo.
   - No. Nada bom. No deveria. Cus. No deveria... Mas ela sabia que ele queria lhe contar, seja l o que fosse. Que ele queria pr para fora.
   - Conte-me, Papai. Est tudo bem. Voc tem que contar a algum. E eu sou da famlia. Eu amo voc, e voc pode confiar em mim. Conte-me.
   - Cus. Nat...
   - Vamos l. Estou ouvindo.
   Ele resmungou um nome.
   - O qu, Papai? Quem?
   - Mnica - disse ele em voz baixa. - Aquela vadia, Mnica Malone. - Natalie engoliu e se perguntou se deveria parar de pression-lo para se abrir com ela. Ela
se sentia como uma garotinha novamente. Queria que o pai fosse forte e a famlia fosse completa e perfeita. Ela queria sua inocncia de volta. Queria tudo da maneira
que era antes.
   Mas no era mais da maneira que costumava ser. E provavelmente j era hora de ela se conformar com aquilo.
   - O que tem ela, Papai? O que tem Mnica Malone?
   - Vadia chantagista - resmungou ele, e cobriu o rosto com as mos.
   Natalie estendeu a mo, tirou os pulsos dele de cima de seu rosto cansado e cinzento. Todo mundo na famlia presumia que a mulher tinha alguma coisa com seu pai,
mas Jake nunca admitiu isso. At agora.
   - Mnica Malone andou chantageando voc?
   Jake deu um gemido.
   - Todas aquelas malditas aes. Ela exigiu as aes.
   - Suas aes pessoais que voc transferiu para ela?  isso que voc quer dizer?
   Ele afirmou com a cabea, pressionando o punho contra a boca.
   - Voc diz que foi chantagem? Chantagem por qu?
   Ele piscou, olhou firme para ela e desviou o olhar.
   - Preciso de mais uma bebida.
   - No, Papai. Voc j bebeu muito. Conte-me...
   Mas ele j estava falando, contando a ela o que tinha acontecido, de uma maneira desconexa.
   - Eu venho pensando, ultimamente, que eu tinha que resolver minha questo com ela.
   - Com Mnica?
   - Sim. A vadia. Tinha que impor limites a ela, dizer-lhe que eu no ia mais me desdobrar por causa dela. E ento aquele lance da procurao que ela est movendo,
aquilo foi a gota d'gua.
   - Procurao.
   - Ela vem tentando assumir a droga do conselho.
   - O conselho das Indstrias Fortune?
   - Certo. Isso  demais. Tenho que par-la. Tenho que impor limites. Ento eu fui  casa dela.
   - Hoje  noite? Voc foi  casa de Mnica Malone hoje  noite?
   - Sim. Eu estive l. Na manso dela. Voc j viu aquele lugar?
   - No, Papai.
   Ele balanou a cabea.
   - Um exerccio monstruoso de mau gosto, aquela casa de Mnica. Falsa como uma daquelas peas de costumes em que ela costumava atuar.  a cara dela. - Jake se
arrepiou.
   - O que aconteceu l?
   - Na casa de Mnica?
   Ela concordou com a cabea. Ele desviou o olhar.
   - O que aconteceu na casa de Mnica. - Ele ponderou fortemente por um instante, olhando em direo s portas para o corredor. Ento olhou para Natalie novamente.
   - Eu... resolvi minha questo com ela. Disse que no ia mais suportar aquilo. Suportar aquela mulher e seus truques. Suportar suas exigncias. Que ela podia dizer
o que quisesse e eu nem daria bola. Eu disse que iria brigar com ela de todas as formas daqui por diante.
   - Papai, o que ela pode ter dito? Voc ainda no disse. - Ele fez um gesto com as mos como se mandasse as palavras dela para longe.
   - No importa. A questo , ela ficou possessa. - Ele piscou e esfregou os olhos.
   - O que voc quer dizer com isso, ela ficou possessa?
   Ele balanou a cabea.
   - Bebida. Mais uma bebida.
   Natalie continuou segurando nos braos da cadeira.
   - Papai. Estou tentando entender. O que aconteceu?
   Ele deu um gemido.
   - Ela caiu.
   - Caiu? Papai. Papai, olhe para mim. Oua-me bem.
   - Estou ouvindo, Nat.
   - Ela est bem?
   Ele franziu a testa.
   - Bem?
   - Voc disse que Mnica caiu...
   Ele ainda estava franzindo a testa.
   - O qu? No. No, no se incomode com isso. Ns discutimos, s isso.
   - Vocs discutiram.
   Seu pai balanou a cabea e deu um forte suspiro.
   - E depois?
   Ele esfregou os olhos e arrastou as mos pelo rosto.
   -  s isso. Eu vi que no ia levar a lugar nenhum. Disse o que tinha que dizer. Ento fui embora. Ela estava me fazendo ameaas e eu fui para a porta. - Ele
suspirou, um suspiro que virou um soluo. - Ento, que tal mais uma bebida?
   - E o seu ombro, Papai?
   - Hein?
   - O que aconteceu com seu ombro?
   Ele deu uma olhadela no ombro.
   - Ah. Isso. - Ele olhou para Natalie e piscou. - No sei, Nat. Simplesmente no sei... mas posso dizer com certeza, preciso mesmo de uma bebida...
   Natalie estendeu o brao e fechou a tampa da garrafa.
   - No, Papai. - Ela realmente no sabia o que estava acontecendo. Mas sabia tudo que conseguiria obter dele na atual condio. Ele tivera uma briga com Mnica
Malone e estava chateado com aquilo. E, naquele momento, precisava de descanso. -  hora de ir para a cama. - Ela se levantou e tomou-o pelas mos.
   - Nat. Deixe disso...
   Ela quase sorriu. Ele parecia to indefeso. Era comovente; no entanto, irreal. A bem da verdade, tudo sobre aquela noite comeava a parecer irreal.
   - Vamos l para cima. Voc toma um banho. Vou dar uma olhada no seu ombro e...
   - Eu disse a voc. O ombro no  nada.
   - Voc vai tomar banho e eu vou dar uma olhada no seu ombro. - Ela disse com o tom firme que usava com alunos teimosos. - Ento voc pode ir dormir.
   Ele descolou o lbio inferior.
   - Eu quero uma bebida.
   - No, Papai. Voc j bebeu muito. - Ela puxou o pai pelas mos. Para surpresa dela, ele no protestou mais. Ele estava praticamente caindo em cima dela quando
se levantou.
   - Opa, Nat. O mundo est girando um pouco mais depressa do que deveria...
   - Vamos. Est tudo bem. - Ela apoiou o brao dele, do lado que no estava machucado, sobre seu ombro.
   - Onde est meu palet? - Ele perguntou, nauseado. Ela esticou o brao por trs dele e tirou o palet do espaldar da cadeira.
   - Aqui. Est comigo.
   Ele se apoiou nela.
   - Voc  uma boa menina, Natty. Boa para o seu velho pai. Queria que sua me tivesse um dcimo da sua compreenso...
   - Por aqui. - Ela guiou o pai at a porta.
   No momento que ela subiu com ele at seus aposentos, ele estava mal-humorado. Mas at que ela conseguiu convenc-lo a tirar a roupa e entrar no chuveiro. Enquanto
ele tomava banho, ela pegou o pijama para ele. Mas ele no iria vesti-lo. Disse a ela, pela porta do banheiro, que no estava pronto para dormir ainda. Ento ela
passou para ele uma cueca limpa, meias e uma cala. Quando ele vestiu a roupa, ela o ps sentado e deu uma olhada para o corte no ombro dele. Era superficial, como
ele tinha insistido. Ela aplicou um curativo e ajudou o pai a vestir uma camisa plo.
   - Agora chega, droga - insistia ele. - Pare de fazer tanto estardalhao por minha causa. - Ele saiu cambaleando, pegou o terno amarrotado e a camisa rasgada e
colocou tudo no cesto de roupas.
   - Pronto. Tudo limpo.
   Ela conseguiu convencer o pai a engolir uma aspirina. E ainda conseguiu retirar dele uma promessa relutante de que deixaria o scotch em paz pelo resto da noite.
Sentindo que tinha feito o melhor que podia naquelas circunstncias, ela o deixou na saleta do quarto principal, assistindo  televiso.
   Antes de ir para o prprio quarto, Natalie retornou ao vestbulo para pegar a bagagem, depois parou na biblioteca mais uma vez e escolheu um romance para levar
para a cama.
   J passava muito de meia-noite quando ela finalmente se instalou sob os lenis no quarto azul e abriu o livro na primeira pgina.

   Na sute principal, Jake assistia ao noticirio da noite no canal a cabo quando ouviu as notcias atualizadas.
   - Conforme relatamos quando a notcia foi divulgada primeiramente, Mnica Malone, a eternamente jovem estrela de cinema e garota-propaganda, foi encontrada morta
em sua manso em Minepolis...
   Jake piscou; sua mente confusa se recusava a acreditar naquilo. Ele chegou mais perto para ouvir cada palavra.
   - Embora poucos detalhes tenham sido divulgados, a polcia j est admitindo que, aparentemente, a atriz foi vtima de assassinato...
   Um suspiro longo e firme saiu de dentro de Jake. O ombro dele latejava. E ele se lembrava de todas as partes de seu encontro com Mnica que conseguira no deixar
escapar para Natalie.
   - Meu filho vai substituir voc, Jake Fortune! - ela gritara com ele. - Brandon vai dirigir as Indstrias Fortune. Vou fazer isso acontecer, nem que seja a ltima
coisa que eu faa.
   Jake recuou a cabea e sorriu s de pensar na idia. Ele tinha encontrado Brandon Malone, o filho adotivo de Mnica, mais de uma vez. O homem era o menino de
recados da me, no tinha potencial para CEO nem com muita imaginao.
   - No ria do meu filho, seu filho da me sem pai! - E ela tinha chegado at ele, com os olhos furiosos, segurando um abridor de cartas. Ele tentou impedir com
as mos, mas ela conseguira fazer um corte em seu palet e na camisa e deixar um buraco no ombro dele.
   Ele ficou furioso. Agarrou a moa. E, de uma vez s, eles estavam ofendendo um ao outro, Mnica gritando palavras ofensivas no ouvido dele. Ele deu nela um empurro
firme. E ela caiu. De encontro quela lareira de mrmore ridcula com todos aqueles Cupidos nus danando gravados.
   Ela bateu com a cabea. Foi nocauteada, ficando inconsciente.
   E ele ficou parado ali. Olhando para ela. Havia sangue no cabelo dela. E ela parecia velha. A bruxa estava com quase setenta, talvez j com setenta anos. Mas
at ento, toda vez que Jake tinha sido forado a lidar com ela, ela sempre parecera muito bem.
   Mas no naquele momento, no deitada ali com aqueles lendrios olhos violeta fechados e a boca aberta, suspensa, e sangue no maravilhoso cabelo loiro.
   Jake pensava, "Bem, ento Mnica". Parece que voc no  exatamente eterna, afinal.
   Um minuto depois, ela comeava a gemer, recuperando a conscincia. Jake a ajudara a sentar-se num sof, embora o que ele realmente queria fazer era deix-la ali
no cho.
   A linguagem ofensiva comeava a sair daqueles lbios vermelhos novamente. E ele no via sentido em ficar por ali. Ento foi embora.
   Deixou Mnica muito viva e jurando que o arruinaria. E era s isso. A forma como tinha acontecido. Ele tinha certeza que era. No era?
   Seu estmago revolvia. A cabea latejava.
   Sim, tudo bem, ele vinha bebendo demais ultimamente. Mas no estava to mal. No estava a ponto de ter amnsia ou coisa assim.
   Ou estava?
   No. Certamente no. Principalmente, no aquela noite. Ele tinha se policiado, tomado o mnimo de bebida antes de ir visitar Mnica. Ele queria estar com a mente
clara.
   - Mais uma vez - disse o apresentador - Mnica Malone, lendria estrela do cinema e o Rosto Fortune original, no est mais entre ns...
   Jake fez um impulso para se levantar. Uma vez de p, ele cambaleou. Seu estmago arfava e apertava, mandando um esguicho de cido em sua garganta. A cabea dava
murros como tambores na selva. Ele se agarrou nas costas do sof e conseguiu se equilibrar.
   Eles iriam atrs dele. As pessoas devem t-lo visto. A equipe de empregados de Mnica. Pessoas na rua, quando ele entrara com o carro pelas grades. E ele tinha
espirrado sangue naquele abridor de cartas, droga. Tinha deixado impresses digitais por toda a parte. E Mnica tinha brigado com ele. Deixado arranhes nele. Haveria
pequenos rastros de pele dele sob aquelas longas unhas vermelhas dela.
   Aquilo ficaria mal. Pior do que mal. Com todas as coisas que levariam a ele, eles no perderiam um milsimo de segundo seguindo outras pistas.
   Droga. Ele precisava estar com a mente clara. Agora, mais que nunca. Ele precisava pensar em tudo aquilo.
   Ele fechou os olhos, tentou respirar de forma lenta e uniforme. Mas seu corao dava marteladas, e sua mente encoberta parecia estar tocando, sem parar, uma msica-tema:
V. Escape. Fuja depressa.
   Um de seus Porsches estava bem na frente, onde ele tinha deixado quando voltara da casa de Mnica. Ele nem teria que chamar Edgar. No teria que perturbar ningum,
absolutamente...

   Natalie acordou de sonhos atormentados no momento em que a aurora iluminava o cu. Por alguns instantes, ela imaginou que poderia tentar voltar a dormir.
   Mas ela estava bastante acordada, atormentada demais pelos acontecimentos da noite anterior para voltar a relaxar. Ento vestiu uma cala de lycra e uma tnica
e desceu, de ps descalos, at a enorme cozinha da casa. Ela girou o boto da cafeteira para passar o caf e em seguida foi at uma janela que dava vista para um
quintal lateral. A jarra estava comeando a encher quando a campainha do portal principal tocou.
   Uma vez que um dos painis de controle era na parede prxima, ela foi at ali e apertou o boto de atender.
   - Sim? Quem , por favor?
   - Detetives Harbing e Rosczak, polcia de Minepolis. Gostaramos de falar com Jacob Fortune.
   O corao de Natalie parecia parar, e depois disparar em alta velocidade. Os problemas de seu pai pareciam no ter fim ultimamente. E agora a polcia queria falar
com ele...
   - Senhora? - solicitava a voz. - A senhora est a? Pode abrir os portes, por favor?
   Ela deu ordem  mente que pensasse com lgica, e decidiu que no iria ganhar nada recusando a entrada deles.
   - Sim.  claro. Entrem. - Ela apertou o boto que os deixaria entrar.
   O homem do outro lado estava agradecendo, educadamente, enquanto ela rodopiava e se dirigia s escadas.
   Seu estmago revirava de susto quando esmurrou a porta de seu pai. Esperou. Ele no veio. Ela ps o ouvido na porta. Achou que ouvia um zumbido baixo de vozes
do outro lado.
   Quanto tempo ele levaria para chegar  porta? Estava to bbado. Talvez estivesse inconsciente, morto para o mundo. Mas ento quem estaria falando l dentro?
   Ela tentou abrir a maaneta. Ela girou.
   - Papai?
   Ele no estava na saleta, mas ela descobriu a fonte das vozes que estava ouvindo; ele tinha deixado a televiso ligada.
   - Papai? - Ela foi at a porta do quarto dele.
   Ele tambm no estava l. A colcha na cama estava estendida e sem rugas.
   Ela esfregou os olhos cansados. Pense. Pense...
   A biblioteca. Talvez ele tivesse voltado para a biblioteca para tomar mais um pouco do scotch que tinha prometido to solenemente deixar em paz. Talvez ele estivesse
ali, desmaiado. Ela se virou e correu para as escadas.
   Mas, quando chegou  biblioteca, no havia sinal dele. O lugar parecia no ter sido usado desde a ltima vez que ela o vira, na noite anterior. Ela estava olhando
para a garrafa meio-vazia de scotch e o copo de cristal pequeno e grosso ao lado quando a campainha da frente tocou.
   No havia nada a fazer, seno ir atender  porta.
   Quando chegou ao vestbulo, a senhora Laughlin j estava l. A empregada virou-se quando ouviu o passo dos ps descalos de Natalie no cho.
   - Devo atender, senhorita?
   Natalie endireitou os ombros.
   - Sim, suponho que sim.


   Captulo 13

   Um pouco antes das oito, do outro lado do lago, Rick e Toby estavam acabando de tomar o caf da manh quando o telefone da casa tocou. Normalmente Natalie estaria
de p quela hora, vestida com roupa de ginstica, pulando com aquelas fitas de exerccios dela. Teria ouvido o toque e atendido na linha de cima. Mas hoje o telefone
ficou tocando, o que fez com que Toby olhasse para Rick, com uma interrogao nos olhos.
   Rick deu de ombros para o filho, como quem diz que no era assunto deles. Ele tinha ouvido Natalie sair ontem  noite, por isso sabia que ela no estaria ali
para atender ao telefone. A secretria eletrnica no balco, no longe dali, se encarregaria disso.
   Depois do quarto toque, eles foram brindados pela voz de Natalie, pedindo a quem ligava que por favor deixasse recado. Ento ouviram rica.
   - Natalie? Natalie, por favor. Atenda. - Uma pausa. - Natalie? Estou falando srio.  urgente...
   As sobrancelhas de Toby se juntaram.
   - Papai? - O som estava fraco e no tinha muito volume, mas aquela nica palavra parecia ter milhares de significados: Alguma coisa est errada. Voc tem que
atender, Papai. Faa alguma coisa...
   - Natalie. Nat. Por favor...
   Rick no podia suportar a agitao na voz de rica Fortune; sem contar o filho olhando para ele com os olhos confiantes e preocupados. Ele levantou-se.
   Do outro lado da linha, rica suspirava.
   - Tudo bem. Estou vendo que voc no est...
   Rick pegou o telefone antes que ela pudesse terminar.
   - Ol, senhora Fortune. Aqui ...
   - Rick?  voc, Rick?
   - Sim, sou eu.
   - Ai, graas a Deus. Voc tem que falar com Natalie. Ela est?
   - Receio que no.
   - Voc sabe onde ela est?
   Ele hesitou, pensando na noite anterior, relutando em revelar qualquer coisa que Natalie no quisesse que a me soubesse.
   - Rick?
   - Ela foi para a manso ontem  noite.
   - Ela ficou na manso... a noite toda?
   Ele no pde pensar em nada a dizer, alm da verdade.
   - Ela foi para l depois das dez.
   - Depois das dez. Por acaso ela esteve com o pai dela?
   - No saberia dizer. Eu no falei com ela desde que saiu. - Toby ainda estava olhando para ele. Ele virou as costas para o garoto e baixou a voz. - Senhora Fortune,
o que est acontecendo?
   Houve um silncio na linha. Ento rica disse:
   - Eu no deveria incomod-lo com isso. No tem nada a ver com voc.
   - Eu gostaria de ajudar, se puder.
   rica hesitou por mais um longo instante antes de admitir:
   -  Jake.
   - Seu marido?
   - Sim. A polcia telefonou aqui para casa, procurando por ele. Disseram que j estiveram na manso. E que ele no estava l. Claro, imediatamente entrei em contato
com Sterling Foster, que trata dos assuntos legais da famlia h vrios anos.
   - Sim, eu conheci Sterling.
   - Ele disse que tomaria conta disso. Mas eu no consigo me controlar. Realmente eu venho tentando no incomodar Nat. Entendo que ela tem sua prpria vida. Mas
eu pensei, se pudesse pelo menos falar com ela, eu me sentiria um pouco melhor. Ela sempre me acalma.
   - Eu entendo.
   - E o que voc acaba de me dizer piora tudo. Ela devia estar l, hoje de manh, quando a polcia...
   - Fique calma, senhora Fortune. Explique por que a polcia quer falar com seu marido.
   - Ai, meu Deus...
   - V devagar. Est tudo bem.
   - Eu sei, eu sei. Eles... eles querem falar sobre o paradeiro dele ontem  noite.
   - Por qu?
   - Porque algum matou Mnica Malone ontem  noite. E as autoridades acreditam... - Ela no conseguia terminar.
   - Eu entendo. - Ele preferia no entender. Mas tinha ouvido o suficiente sobre a situao para saber que Jake Fortune poderia ser um dos suspeitos, se algum
tinha eliminado Mnica Malone.
   - Meu marido no  um assassino. Mas onde ele est? Onde pode estar?
   - Senhora Fortune...
   - Ai, eu no devia ter perturbado voc com tudo isso.
   - Est tudo bem.
   - Perdoe-me.
   -  claro.
   - Vou telefonar para Natalie agora, l na manso. Vou me sentir melhor depois que falar com ela.
   Ele pensou em Natalie, sozinha do outro lado do lago, lidando com a polcia, provavelmente enlouquecida de preocupao com o pai. Mesmo depois da forma ruim que
tinha terminado entre eles na noite anterior, ele no podia deixar de se perguntar quem faria com que ela se sentisse melhor.
   rica ainda estava falando.
   - Nesse meio-tempo, se ela aparecer por a, voc pede para ela me ligar imediatamente?
   - Claro.
   - At logo, ento. - E desligou.
   Rick virou-se para pousar o telefone no descanso percebeu que o filho ainda estava olhando para ele. Toby disse mais uma palavra.
   - Natalie?
   Rick rapidamente consolou o filho.
   - Ela est bem. Est legal. Era sobre... outra coisa. Toby no precisava dizer, "que outra coisa?" Estava escrito no seu rosto pequeno e preocupado.
   De que forma um homem conseguia aliviar a cabea de uma criana sem contar nada a ele? Rick fez o que pde.
   - So apenas alguns... problemas de famlia, s isso. No  nada para nos preocuparmos.
   O olhar de reprovao de Toby no s ficou mais profundo, como mais firme.
   - De verdade, Toby. No h nada que a gente possa fazer.
   Toby no parecia convencido. Ficou ali sentado, imvel, olhando para o pai, ainda franzindo a testa. E ento o maldito cachorro, que estava tirando uma soneca
no tapete a alguns metros dali, de repente ergueu a cabea gigante e soltou um ganido. Um ganido que soava preocupado. O cachorro olhou para Rick. Era um olhar de
reprovao.
   - Pare com isso - disse Rick. Mas os olhos castanhos suaves do co no se desviavam.
   Rick desviou o olhar, e ali estava Toby, franzindo a testa. Rick olhou de volta para o co, que parecia estar franzindo a testa, tambm. Ele tentou lembrar-se
que ele era o chefe ali. E que a capacidade de julgamento dele era muito mais desenvolvida que a de um garoto de cinco anos ou de um So Bernardo; alis, como se
um cachorro pudesse ter a mais vaga idia do que estava acontecendo ali.
   - Ela no vai querer que a gente interfira.
   O garoto e o cachorro continuavam olhando para ele.
   - Ela no est correndo perigo nenhum, juro a vocs. - Eles ainda no se convenciam.
   Rick ergueu as mos.
   - Tudo bem, droga. Vamos sair.
   Eles pegaram o barco de esqui; era rpido, e atravessar o lago era muito mais ligeiro do que teria sido dirigir pela estrada que margeava a costa. Rick tinha
planejado deixar o cachorro para trs, mas o animal pulou dentro do barco antes. Ento, quando j estava l dentro, parecia que no seria fcil de retirar.
   - Imagino que voc ande nessa coisa o tempo todo. - O cachorro s olhava firme para ele. -  melhor voc ficar sentado quieto.
   O co resfolegou. Para Rick, ele parecia satisfeito.
   - Tudo bem. Voc pode ir.
   Rick ajudou Toby a vestir o colete salva-vidas, e mandou que ele ficasse sentado quieto, como tinha feito com o cachorro. Em seguida, depois de algumas tentativas
frustradas, ele conseguiu ligar o motor e tirar o barco do abrigo. Partiram em direo ao outro lago do lado.
   A manso dos Fortune no era to difcil de encontrar. Natalie tinha mostrado a Rick, apontando, no dia em que eles chegaram  casa de campo. E Rick e Toby tinham
batido o olho nela mais de uma vez durante os muitos dias que passaram no lago. Tambm era quase um tiro direto do outro lado de quem vem da casa de campo. Logo,
eles estavam chegando ao ancoradouro dos Fortune dez minutos depois de deixarem o abrigo de barcos. Rick amarrou a corda numa estaca e ajudou Toby a desembarcar.
Bernie j tinha pulado para fora e estava esperando por eles no cho. Um vasto gramado conduzia at os fundos da casa, onde se juntava a um amplo terrao de pedra
margeado por um muro baixo. Portas de sacada se abriam para o terrao. Rick olhou para o vidro das portas, que eram quase uma jia, e perguntou-se qual a probabilidade
de algum estar do outro lado para atender se ele batesse  porta. No, seria mais sensato virar at a frente e tocar a campainha.
   - Por aqui - disse ao filho e ao cachorro, que o seguiam passo a passo.
   Era uma casa grande. Logo eles estavam na sacada chanfrada sob o prtico frontal, como se fosse uma caverna. Rick tocou a campainha.
   Eles no tiveram que esperar muito tempo at que uma mulher de cabelos grisalhos, com aparncia sria, atendesse. Ela estava franzindo a testa.
   - Sim?
   - Eu sou Rick Dalton, inquilino de Natalie Fortune na chcara do outro lado do lago. Acredito que ela tenha vindo para c ontem  noite, e gostaria de falar com
ela, por favor.
   A mulher olhou desde o co at o menino e depois de volta a Rick.
   - Desculpe, mas como vocs passaram pelo porto?
   - Ns atravessamos o lago.
   - Ah. - O ar de reprovao da mulher desapareceu, mas ela no chegou a abrir um sorriso. - Espere aqui. Vou verificar com a senhorita Fortune.
   - Obrigado.
   Ela teve o cuidado de fechar a porta antes de dar as costas.
   O filho e o cachorro estavam olhando para ele. Ele lhes deu um sorriso que esperava que fosse do tipo confortante, tudo sob controle.
   A porta se abriu novamente.
   - Ela disse para vocs entrarem. A empregada deu um suspiro. - Inclusive o cachorro. Por aqui. - A empregada levou os trs pela enorme entrada. As patas de Bernie
deixavam pegadas nos chos reluzentes enquanto eles atravessavam um corredor que finalmente levou-os  sala de estar de p-direito alto com uma fileira de portas
de sacada ao longo de uma parede. Rick reconheceu aquelas portas. Elas levavam at aquele terrao de laje que eles tinham visto instantes atrs pelo lado de fora.
   A sala ricamente mobiliada era espaosa o suficiente para abrigar vrios grupos com uma moblia forrada de seda. Natalie estava sentada sozinha no sof de um
desses grupos, com uma aparncia perdida e entorpecida. Toby e Bernie foram direto para o lado dela.
   A empregada perguntou:
   - Deseja algo mais, senhorita?
   - No. Obrigada.  s isso.
   A empregada saiu, e Natalie levou sua ateno total a Toby e ao cachorro.
   - Ah. - Ela parecia triste e agradecida e muito prxima de chorar. - Oi...
   Rick observava, com o corao batendo mais forte, quando ela abriu os braos e Toby se enfiou entre eles. No minuto que abraou Toby, ela fez um gesto para chamar
o cachorro e deu nele o mesmo abrao entusiasmado que o menino acabava de receber.
   Quando ela soltou o cachorro, sentou-se novamente olhou para Rick.
   - Vocs no deveriam ter vindo. - O tom dela era cauteloso, reprimido.
   - Estvamos preocupados.
   Os ombros esbeltos dela se ergueram num movimento de pura exausto.
   - Minha me telefonou alguns instantes atrs. Ela disse que tinha dito a voc... o problema.
   - Sim.
   Ela olhou para ele de modo um tanto vago por um instante. Ento ela se sacudiu.
   - Ai, Rick... no tenho certeza do que fazer...
   O menino e o cachorro, sentindo a aflio dela, mas sem entender, procuraram dar conforto. Toby acariciou o brao dela. O co deu uma lambida na mo dela com
sua grande lngua molhada. Rick lutou o quanto pde para dizer, tendo ouvidos impressionveis  escuta.
   - Sua me disse que seu pai desapareceu.
   - Sim. Ele sumiu. Foi para algum lugar... no sei aonde, mesmo. Estou tentando falar com Sterling. Voc se lembra de Sterling?
   - Sim, eu me lembro.
   - Eu liguei para a casa dele, ele no estava. Ento, deixei um recado.
   - Sua me disse que j falou com ele.
   - Sim. Mas tenho que conversar com ele algumas... algumas coisas. Algumas coisas das quais minha me no est ciente.
   - Que coisas?
   Ela deu uma olhada para Toby. Rick entendeu. Eles teriam que encontrar outra oportunidade de continuar essa conversa.
   - Veja bem - disse Rick. - Acho que voc deveria vir conosco. De volta para casa.
   Ela piscou.
   - Para casa. - Tudo que tinha acontecido entre eles ontem  noite podia-se ler nos olhos dela. - Mas eu...
   Ele no esperou as justificativas dela.
   - Voc trouxe mala?
   - Sim, uma mala pequena. Est l em cima no meu quarto. Mas, Rick...
   - Pegue a mala. - Ele deu uma olhadela para os ps descalos dela. - E calce alguma coisa. Estamos de sada.
   - Mas eu tenho que falar com Sterling...
   - Voc pode ligar para ele da chcara.
   - Voc realmente acha que voltar para casa  sensato?
   Ele olhou para ela, firme.
   - Voc ficar mais feliz em casa. Voc sabe disso. Este lugar  grande e vazio demais para voc ficar aqui sozinha neste momento.
   - Mas ns... - Ela lanou um olhar a Toby, e visivelmente no sabia como terminar.
   Rick terminou para ela, de forma vaga o suficiente que o filho, assim ele esperava, no soubesse do que ele estava falando.
   - Natalie, ontem  noite ns chegamos a um acordo sobre o que representamos um para o outro. At onde eu posso ver, nada mudou quanto a isso. Mas, no momento,
voc est com um problema, e poderia aceitar uma mo para ajudar. Estou oferecendo a minha. Talvez voc devesse aceitar e parar de ler milhares de significados diferentes
em cada coisa que eu fao.
   Ela examinou o rosto dele. E ento balanou a cabea.
   - Vou pegar minhas coisas.
   Natalie voltou de carro para o outro lado do lago. Rick, Toby e Bernie voltaram da maneira que foram, no barco de esqui. Natalie sabia que Rick estava certo quando
ela entrou no caminho de cascalho e olhou para a casa confortvel de madeira. Ali era o seu lugar, e no a manso vazia do outro lado do lago.
   L dentro, Rick, Toby e Bernie j estavam esperando por ela. Natalie ligou novamente para a casa de Sterling, mas l disseram que ele no estava. Ela deixou uma
segunda mensagem, pedindo que ele telefonasse imediatamente para ela na chcara.
   Quando ela desligou, tudo que queria era andar de um lado para o outro pelo cho. Mas Rick veio com umas torradas na frente dela.
   - Coma. - Ele serviu um pouco de caf a ela.
   - No estou com fome.
   - Coma.
   Ento ela pegou, determinada, um pedao de torrada e ps no canto na boca.
   Finalmente, por volta das nove e quinze, Sterling ligou de volta. Ele prometeu que iria v-la imediatamente. Trinta e um minutos depois, o advogado estava batendo
 porta da frente.
   Rick tinha uma fita de vdeo do Rei Leo. Acomodou Toby no grande salo com Bernie para assistir ao filme. Os adultos se recolheram para o salo da frente.
   Natalie sentou-se no sof, e Sterling pegou uma das bergres. Rick ficou de p, perto de Natalie. Ele no deixou de perceber os olhares minuciosos que Sterling
lanava em sua direo, e ele tinha plena expectativa de que o velho cavalheiro encontraria uma forma diplomtica de pedir que ele se retirasse.
   Mas tudo que Sterling disse foi:
   - Parece que Natalie confia em voc. - Ento o advogado de cabelos brancos olhou para Natalie, que balanou rapidamente a cabea. - Tudo bem, ento. Vamos prosseguir.
   Com um tom de voz baixo e firme, Natalie falou sobre a condio em que tinha encontrado o pai na noite anterior.
   - Voc disse que a camisa dele estava rasgada, e manchada de sangue no ombro?
   Ele concordou com a cabea.
   - Ele deve ter se cortado.
   - Foi isso que ele disse a voc?
   - No. - Ela desviou o olhar e em seguida voltou a encar-lo. - Ele no me disse nada, na verdade. Ele foi... incoerente. Eu disse que ele j tinha bebido demais
e o convenci a subir para o quarto.
   - E foi s isso?
   - Eu dei uma olhada no ombro dele. A ferida era superficial. Eu limpei e apliquei um curativo.
   - E depois?
   - Eu o deixei sozinho. - Natalie suspirou e esfregou as tmporas. Rick, ainda por perto, no conseguia deixar de desejar que pudesse facilitar as coisas para
ela. Involuntariamente, fez um gesto com a mo, mas se conteve a tempo.
   Sterling instruiu:
   - Agora conte-me sobre o que aconteceu quando voc conversou com a polcia.
   Natalie se lanou na histria de como os dois detetives da polcia de Minepolis tinham tocado a campainha s seis e meia da manh.
   - Eles tinham um mandado?
   - Acho que no. No mencionaram nada. E eu tambm no pedi. Achei que seria idiota eu me recusar a cooperar com eles.
   - Muito sensato. Ento voc deixou que entrassem...
   - Sim. Abri a grade pelo painel de controle da cozinha, ento corri para os aposentos do meu pai para dizer que eles estavam l. - Natalie respirou fundo e soltou
lentamente. - Ele no estava em seus aposentos. A televiso na saleta ainda estava ligada, e sua cama parecia intocada. Eu desci e verifiquei na biblioteca, onde
eu tinha encontrado meu pai na noite anterior. Ele tambm no estava l.
   - O que aconteceu depois?
   -  essa altura os detetives estavam  porta. Tem uma empregada nova na manso. Ela deixou que eles entrassem. Eles perguntaram se podiam olhar pela casa, eu
disse que podiam. Ento eles me perguntaram sobre o que tinha acontecido na noite anterior. Eu contei a eles o que acabei de contar a voc. Depois que eles finalmente
saram, e percebi que Papai devia ter sado com o carro esporte preto; ele estava em frente  casa na noite anterior assim que eu cheguei, por volta das onze.
   - Quanto voc contou aos detetives sobre o que Jake disse a voc na biblioteca?
   Natalie deu uma piscada, em seguida olhou em direo s janelas da frente.
   - Nada. - Ela olhou nos olhos de Sterling novamente. - Exatamente o que eu contei a voc. Que ele andou bebendo e que estava incoerente. Eu disse que o ajudei
a subir at a sute principal e o deixei vendo televiso. Eles me perguntaram se eu tinha visto alguma coisa estranha no comportamento dele, se eu tinha visto alguma
coisa incomum, se ele teria, por acaso, mencionado Mnica Malone. E eu... bem...
   A aflio na voz dela fez com que Rick apertasse os punhos ao lado do corpo.
   Sterling chegou para frente na cadeira.
   - Natalie. Est tudo bem. Diga-me exatamente o que voc disse.
   - Eu... - A voz dela estava muito baixa. - Sterling, ele realmente mencionou alguma coisa. Sobre Mnica Malone chantage-lo. Sobre ir v-la no comeo da noite.
Sobre ter uma discusso com ela. Mas realmente estava deturpando tudo.
   - Voc disse isso  polcia?
   Ela olhou para Sterling por um instante, depois abraou o prprio corpo e sentiu um arrepio, embora no estivesse nem um pouco frio no salo.
   - Natalie... - Sterling pressionou. Ento ela ergueu o queixo.
   - No. Eu no contei isso  polcia. Eu disse que ele tinha sido incoerente. Que eu no conseguia encontrar sentido em nada que ele dizia.
   - Entendo.
   - Sei que foi um erro, que eu de certa forma menti para eles, por omisso. Mas eu provavelmente faria tudo outra vez. Tenho andado... confusa sobre muitas coisas
ultimamente. Mas ontem  noite, quando vi Papai do jeito que estava, ficou muito claro para mim que eu sou uma Fortune, antes de qualquer coisa. Sou uma Fortune.
E quando voc  uma Fortune, voc deve ser fiel aos seus.
   Sterling examinou o rosto dela. Ento ele balanou a cabea.
   - Eu entendo. E, infelizmente para Jake, pelas peas que estou juntando aqui, eles tero uma montanha de provas contra ele. Seja l o que ele disse a voc ontem
 noite provavelmente no importar muito, em todo caso, desde que no haja mais nada alm do que voc me contou.
   - O que voc quer dizer com isso?
   O olhar firme de Sterling era um gelo azul.
   - Quero dizer, se ele disse mais, se ele, talvez, tiver confessado a voc que fez mais do que simplesmente discutir com a tal Malone, voc deveria me contar logo.
   Natalie saltou em defesa do pai.
   - No, Sterling. Ele no disse nada parecido com isso. Disse que eles discutiram. E resmungou alguma coisa sobre ela ter cado. Mas depois, quando eu tentei fazer
com que ele explicasse, ele disse que estava tudo bem com ela. Que eles tinham discutido e ele tinha ido embora e no tinha mais nada alm disso.
   - Ele disse com que Mnica Malone o estava chantageando?
   - No. Eu perguntei vrias vezes. Mas ele no me contou.
   - Voc ouviu o noticirio ou leu os jornais hoje de manh?
   Natalie deu uma risadinha estridente.
   - Eu estive muito ocupada hoje de manh, Sterling.
   Aquela foi a deixa para Rick. Ele tinha que estender o brao. Ele ps a mo no ombro dela. Ela enrijeceu e olhou para ele.
   - Calma - ele disse, e sorriu para ela.
   Ela no sorriu de volta, mas ele sentiu que ela relaxou um pouco. Ento ela olhou para Sterling.
   - Aonde voc quer chegar?
   - Est nos jornais de hoje. Mnica foi esfaqueada vrias vezes no peito com um abridor de cartas.
   Natalie soltou um pequeno grito de aflio.
   - Ai, no... - Sterling levantou-se.
   - Natalie, voc disse que o ombro de Jake estava ferido.
   - Mas ele no me disse como aconteceu aquilo. Apenas olhou para a ferida, deu de ombros e disse que no se lembrava. Sterling, ele estava realmente bbado. Era
to difcil encontrar sentido no que ele dizia.
   - Tudo bem. Mas voc tem certeza que  s isso? Tem certeza de que no h nada que voc ache que eu precise saber?
   Ela olhou para o advogado, com os olhos grandes cheios de preocupao e lamento.
   - No. No h mais nada. Isso  tudo.
   - Ento eu tenho que ir. Tenho muito o que fazer. Se mais algum detetive passar por aqui fazendo perguntas, insista que seu advogado esteja presente antes de
dizer qualquer coisa. E me telefone.
   - Sim, farei isso. Eu prometo.
   O homem mais velho sorriu para Rick.
   - Tome conta dela.
   Rick respondeu sem hesitao:
   - Pode deixar.
   Natalie olhou para Sterling, para Rick e depois de volta para Sterling.
   - No - disse ela. - Voc no est entendendo...
   - Que foi? - Sterling perguntou, erguendo uma sobrancelha grossa e prateada. E Natalie estava enrubescida.
   - Nada. No se incomode. Vou lev-lo at a porta.
   Rick ficou onde estava enquanto Natalie acompanhava Sterling at a porta. Junto  porta, Natalie pegou no brao de Sterling.
   - Se voc ficar sabendo de alguma coisa, pode me avisar?
   Ele acariciou a mo dela.
   - Claro que vou avisar.

   Sterling ligou para Kate para lhe dar notcias atualizadas assim que chegou a casa. Naquela manh, quando recebeu o telefonema de rica, ele tinha se apressado
para ir  cobertura de Kate, ento eles j tinham tido uma reunio de uma hora sobre a situao. Ela tinha mandado o advogado de volta para casa com instrues de
ficar a postos, para o caso de Jake telefonar para ele.
   - Voc teve notcias de Jake? - perguntou ela, assim que ouviu a voz dele.
   - No. Ainda no. Mas estive com Natalie:
   - Natalie? Para qu?
   Rapidamente, ele contou a ela tudo que Natalie tinha dito. Kate deu um suspiro.
   - No parece nada bom.
   - No, no parece. Nem um pouco. - Ele pensou em alguma coisa para levantar um pouco o astral. - Mas eu acho que voc tinha razo quanto ao arquiteto e Natalie.
   Ele ouviu a respirao dela suspender.
   - O qu? Conte-me.
   - No posso ter certeza.  s um palpite.
   - Um palpite j est bom.
   - Ele ficou ali, ao lado dela, todo minuto que eu estava na casa, at o momento que ela me levou at a porta.
   - Sim?
   - E no se conteve e estendeu o brao, quando comeou a ficar difcil para ela.
   - timo. Muito bom. - Ela ficou quieta. - Me ligue. Assim que voc souber de alguma coisa.
   - Voc sabe que eu vou ligar.

   De volta  chcara, Natalie insistiu em ler a matria no jornal sobre a morte de Mnica. O que Sterling dissera a ela parecia ainda pior em preto e branco.
   Depois disso, eles esperavam numa agonia de impacincia por notcias. Uma hora depois, Sterling telefonou.
   - Natalie, acabo de receber um telefonema do seu pai. Natalie agarrou o telefone com dedos que pareciam subitamente anestesiados.
   - Como ele est? Est tudo bem?
   - Ele est... bem. - Natalie no gostou da forma como ele hesitou antes de dizer a palavra, mas ele no deu tempo para ela perguntar por qu. - Tenho que sair
agora. Para tratar da situao. Est entendendo?
   Ela no estava.
   - Sim.
   - Voc pode ligar para sua me e dizer que Jake est bem?
   - Sim, claro. Mas, Sterling...
   - Eu realmente preciso ir. - E desligou. Rick tomou o telefone dos dedos dela, que estavam sem nervos.
   - O que aconteceu?
   Ela olhou para ele, ganhando fora com a firmeza do olhar dele.
   - No tenho certeza. Parece que meu pai entrou em contato com Sterling. E Sterling est planejando ir at l agora.
   - Isso  uma notcia boa, no ?
   Natalie deu de ombros, indefesa.
   - Como eu posso dizer? Ele no disse mais nada. Estava com tanta pressa.
   - Natalie, eu acho que Sterling  um homem muito competente.
   - Sim, sim, eu sei. - Ela se sacudiu. - Ele pediu que eu ligasse para minha me. Eu devo fazer isso agora.
   - Voc quer que eu faa isso por voc?
   Natalie olhou para ele, boquiaberta. E no porque ele estava oferecendo isso. Mas porque ela estava tentada a dizer que sim.
   Ela limpou a garganta.
   - No. No, eu mesma farei isso.
   Ele devolveu o telefone a ela, pressionou o descanso para desligar a ligao de Sterling e correu com o dedo pela lista de discagem automtica. Quando chegou
ao nome da me dela, ele apertou o boto ao lado.
   - Al, aqui  rica Fortune.
   - Me.
   - Ai, Nat. - A voz doce e frgil estava cheia de gratido. - Estou enlouquecendo aqui. Estou to feliz por voc telefonar.
   - Tenho notcias.
   A me dela deu um suspiro.
   - Sim?
   Rick estava fazendo sinais para ela. Ela tampou o bocal do telefone.
   - Que foi?
   - Convide sua me para vir at aqui - disse ele. - Aposto que ela est enlouquecendo sozinha em casa.
   Ela deu uma piscada e se perguntou se, de alguma forma, Rick Dalton conhecia sua me melhor do que ela.
   - Natalie? Natalie, voc est a?
   - Sim, Mame. Estou aqui. Oua. Por que voc no d uma passada aqui? Aqui em casa. E conversaremos sobre tudo isso.
   rica deu um salto com o convite.
   - Estou indo para a.

   Quando rica chegou, Natalie levou a me at l em cima, onde Toby no ouvisse, e contou as notcias que Sterling tinha dado a ela.
   - Mas onde est Jake? - rica queria saber.
   - Eu no sei, me. Sterling apenas me pediu que ligasse para voc e dissesse que estava tudo bem com ele.
   - Tudo bem. O que quer dizer isso?
   - Venho me perguntando a mesma coisa.
   Quando eles desceram, Rick tinha preparado o almoo. Toby tinha posto quatro lugares.
   - Coma conosco - disse Rick a rica.
   Ento todos se sentaram e comeram a sopa e os sanduches que Rick tinha preparado. Foi uma refeio em silncio. Por conta do silncio, Natalie no podia deixar
de pensar em Rick e como ele estava sendo maravilhoso com tudo.
   Uma vez, ele estava olhando para o prato de sopa, levantou os olhos e deu a ela um sorriso ligeiro e estimulante. O corao dela esteve prximo de derreter.
   Ela rapidamente abaixou os olhos para o prprio prato enquanto todas as coisas horrveis que ele tinha dito a ela ontem  noite se desenrolavam pelo crebro dela.
Ela vinha dizendo a si mesma, h semanas, que estava atormentada e carente e s iria enfraquec-la se ela deixasse que Rick se aproximasse. Mas, francamente, quem
era o carente aqui? Cada vez mais, ela estava descobrindo que certamente no era Rick.
   - Coma, Natalie - disse Toby.
   Natalie ouviu a me dar uma inalada suave de ar; rica sabia que Toby tinha ficado mudo por meses. Toby sorriu.
   -  bom para voc.
   Natalie sorriu de volta para o menino enquanto pegava a colher e enfiava na sopa.
   rica se despediu pouco depois que eles terminaram de comer. Mas logo depois que ela saiu, o telefone comeou a tocar.
   As irms e o irmo de Natalie telefonaram todos; bem como Tia Lindsay e Tia Rebecca. Eles tinham ouvido a notcia e queriam saber se Natalie podia contar alguma
coisa a mais do que eles tinham lido nos jornais. Natalie relatou a maior parte do que sabia, deixando de fora o que Jake tinha dito na noite anterior e no mencionando
a ferida do ombro de Jake ou a camisa rasgada e sangrenta que ele estava usando quando ela o encontrou na biblioteca.
    tarde, Rick disse que tinha que ir at Travistown para buscar uma caixa de leite; ultimamente Toby vinha tomando praticamente um galo, parecia. Ele convidou
Natalie, mas ela estava relutante a deixar o telefone, em caso de haver mais notcias sobre seu pai.
   - Mas talvez voc possa deixar Toby ficar aqui comigo - sugeriu ela, esperanosa. - Pode me servir de companhia.
   Ento Rick foi sozinho, prometendo voltar o mais rpido possvel.
   O telefone de Natalie no andar de cima era sem fio, ento ela levou o aparelho com ela at o gramado lateral e sentou-se numa cadeira de dobrar sob uma rvore,
observando Toby, que atirava um pedao de pau para Bernie buscar. Depois de um tempo, Toby ficou entediado com aquele jogo. Entrou novamente na casa e saiu carregando
uma bola de plstico e um basto. Ele foi at Natalie.
   - Jogar bola - disse ele.
   Apesar de todas as preocupaes que se remoam em sua mente, Natalie no podia dizer no queles olhos azuis que eram exatamente com os de Rick e quele sorriso
adorvel que era s de Toby. Ela seguiu o menino at o sol e arremessou para ele por um tempo. Ele conseguia acertar cerca de uma a cada dez bolas.
   - Voc precisa de uma demonstrao da tcnica de usar o basto - disse a ele.
   Ele parecia ctico.
   - Aqui. - Ela deu a bola a ele. - Voc arremessa para mim
   Ela pegou o basto e ele pegou a bola. Ento parecia que ele precisava de tanto treino com o arremesso quanto precisava com o basto. Ela largou o basto e foi
at ele e o guiou pelos movimentos de arremesso furtivo.
   Depois de dez minutos de treino, ele sabia atirar bem o suficiente para que, se eles competissem mesmo, ela tivesse a chance de perder ocasionalmente.
   - Seu pai vai ficar impressionado - disse a ele. Toby se empinou todo orgulhoso.
   Ento, logo depois disso, no prximo arremesso, ele atirou lindamente. A bola flutuou bem em direo ao basto de plstico dela. Ela deslizou para pegar, delicada
e gloriosa.
   E ela tentou, e como tentou.
   Todos os trs, o garoto, o cachorro e a mulher, ficaram observando com as bocas abertas quando a bola de plstico voou pelos ares, e por cima do telhado da casa.
   Eles ouviram a bola quicando do outro lado.
   Natalie olhou para Toby.
   - Vamos l. Vamos pegar a bola. - E eles saram em disparada.
   No quintal da frente, eles descobriram que a bola estava entalada numa calha de chuva do telhado do segundo andar.
   - Ai, droga - resmungou Toby.
   - O que voc quer dizer com "Ai, droga"? - Natalie perguntou. - Eu sei o que voc est pensando. Est pensando que vai ter que esperar at que seu pai volte para
casa para pegar a bola, no ?
   Solene, Toby balanou a cabea.
   - Porque voc acha que uma criana e uma mulher e um cachorro no podem conseguir alguma coisa como tirar uma bola do telhado sozinhos, no acha? Voc acha que
eles tm que ter um homem por perto para fazer algo assim, certo?
   Toby balanou a cabea novamente.
   - Errado.
   Toby deu um largo sorriso.
   - Apenas observe.
   Ento Toby e Bernie ficaram olhando enquanto Natalie pegava a escada de alumnio da garagem e encaixava sobre o telhado da sacada. Ela teve o cuidado de testar
a estabilidade antes de subir na escada.
   No estava longe do saiote do telhado da sacada. E, dali, ela cuidadosamente subiu, p ante p, no telhado at as janelas e a parede do segundo andar. Ao chegar
l, ela agarrou a calha com uma das mos, mas delicadamente, somente por segurana. E pegou a bola de plstico com a outra. Ento virou-se e segurou a bola no alto,
triunfante.
   Toby aplaudiu, admirado, e Bernie at soltou um latido de admirao. Natalie sentiu-se muito satisfeita consigo mesma.
   Ela olhou para o cu e viu como estava azul e claro. E sentiu-se bem pela primeira vez aquele dia.
   Agora, tudo que ela tinha que fazer era descer da escada antes que Rick chegasse em casa e gritasse com ela por no esperar para deixar que ele cuidasse daquilo.
   Ela se dirigiu  escada, sorridente, imaginando o quanto ele ficaria contente quando soubesse do progresso que Toby estava fazendo com a bola de plstico e o
basto. Ora, com algumas semanas de prtica constante, Toby poderia vir a ser um pequeno grande batedor. Talvez, agora que pensava sobre isso, ela no dissesse nada
a Rick. Esperaria um tempo, at que tivesse mais tempo para praticar com Toby, e ento...
   Ela interrompeu o pensamento no meio. Qual era seu problema? Estava pensando em Rick e no filho dele como se eles fizessem parte de sua vida permanentemente.
   E no faziam. E nunca fariam.
   Ela tinha arruinado qualquer chance disso ontem  noite.
   Natalie sabia naquele momento o quanto tinha sido idiota. E, porque estava pensando mais em Rick do que em prestar ateno aos passos, ela tropeou.


   Captulo 14

   Natalie ouviu o grito de medo de Toby quando ela escorregou pelo declive do telhado da sacada direto para fora da beirada. Conseguiu dar um pequeno impulso quando
voou pelo ar, o que fez com que casse alm da cerca viva que crescia grossa e irregular perto do parapeito da sacada. Ela aterrissou na grama.
   Infelizmente, a perna esquerda dela ficou presa por baixo do corpo em um ngulo estranho. Ela ouviu um estalo peculiar.
   Com um pequeno gemido, enrolou-se para apoiar as costas, levantou-se com a ajuda do cotovelo e olhou para a perna. Ainda estava desempenada. Mas no parecia bem.
No mesmo. Ela estendeu o brao para esfregar o local onde tinha comeado a latejar um pouco, na canela, logo abaixo do joelho. No momento em que ela tocou ali,
uma dor tomou conta dela, quente e violenta. Ela rosnou e recostou-se com a ajuda das mos, causando uma nova pontada de dor.
   Ela sentiu a respirao quente de Bernie no pescoo. O cachorro deu um ganido e uma focinhada na moa.
   - Natalie? - Toby estava bem ao lado dela; medo e preocupao se liam em seu rosto pequeno.
   Ela se apressou em consolar o garoto.
   - Estou bem. Machuquei a perna, s isso. - Por milagre, ela ainda estava com a bola de plstico na mo. - Vai l. - Ela entregou a bola a Toby. Ele olhou para
ela, e depois para Natalie mais uma vez. Ela abriu o melhor sorriso que podia dar para ele, diante das circunstncias. - E agora, que tal se voc der a volta at
o outro lado da casa e buscar o telefone para mim? Est na mesinha do lado de onde eu estava sentada.
   Ele soltou a bola e saiu em disparada.
   Ele estava do lado dela novamente em um minuto. Entregou o telefone a ela, e ela discou o nmero de emergncia, deu o endereo e chamou uma ambulncia. Quando
terminou, fez um pequeno movimento, considerando a idia de tentar se arrastar para dentro de casa. Mas desistiu daquele pensamento imediatamente. A dor na perna
dava para agentar, desde que ela ficasse imvel.
   - Acho que vou ficar deitada aqui, tudo bem? S um pouquinho. - Com a perna gritando em protesto, ela se abaixou de volta para a grama.
   Toby ajoelhou-se ao lado dela. Sua mo pequena acariciava o cabelo dela.
   - No tenha medo. Papai vai chegar.
   Natalie no disse nada, apenas se forou a sorrir mais uma vez para ele. Toby acariciava o cabelo dela, enquanto Bernie se estirava ao outro lado dela, grande
e quente e forte. Natalie olhou para a abbada azul do cu e fez com que a respirao ficasse uniforme.
   Ela deu uma olhada para Toby.
   - No tem mais cruzeiro nenhum.
   A expresso dele ficou curiosa.
   - Cruzeiro?
   - Eu iria voar para longe na segunda-feira, e depois pegar um barco grande e sair viajando para vrias terras exticas.
   - Exticas?
   - Isso  como estranhas e diferentes.
   Toby acariciou o ombro dela.
   -  melhor voc ficar aqui.
   - Sim. Sim, acho melhor. Acho que sair num cruzeiro agora no seria bom, em todos os sentidos. - Com a deciso tomada, ela tomou a pequena mo de Toby e segurou,
fechando os olhos e suspirando.
   - O que aconteceu aqui?
   Natalie fechou os olhos e viu Rick de p em frente a ela.
   - Natalie se machucou - disse Toby.
   -  minha perna - explicou ela, sentindo-se envergonhada. - Acho que quebrou.
   Rick ajoelhou-se e tocou na perna dela. Natalie conteve um gemido. Toby segurou a mo dela com firmeza.
   - No vou perguntar como isso aconteceu - disse Rick.
   - timo. - Soava mais como um rosnado de dor do que uma palavra.
   Rick continuou:
   - Eu no me atrevo a mexer em voc. Vou entrar e chamar uma ambulncia.
   Ela tateou em busca do telefone no gramado logo ao lado dela, e segurou o aparelho com um esgar orgulhoso.
   - Eu j fiz isso.
   Ele tomou o telefone da mo dela.
   - Est certo, ento. Tudo que temos de fazer  esperar.
   - Eu consigo. - Ela tentou sentar-se novamente. A perna latejava com mais fora do que antes. Com um choramingo que ela quase no conseguiu conter, mergulhou
na grama novamente. - Eu acho.

   Quando a ambulncia chegou, Rick insistiu em ir at o hospital, tambm. Ele subiu, ps o telefone de Natalie na base para recarregar e pegou uma muda de roupas
para ela, j que um dos auxiliares do servio de emergncia dissera a ele que provavelmente teriam que cortar a cala de lycra dela. Ento ele pegou Toby e seguiu
a ambulncia com seu carro. Somente Bernie ficou em casa, olhando, saudoso, enquanto eles saam pela estrada afora.
   O hospital para onde a ambulncia levou Natalie era muito menor que o Geral de Minepolis, onde a tia dela, Lindsay, era pediatra residente. A equipe da sala
de emergncia era composta por um mdico e uma enfermeira, e ambos estavam com as mos cheias de pacientes quando Natalie chegou. Ficou logo evidente que levaria
um tempo at que a perna de Natalie passasse pelos raios-x e fosse examinada. Mais de uma vez, enquanto eles aguardavam, Natalie insistiu para que Rick levasse Toby
para casa.
   - No h motivo para vocs ficarem aqui comigo - ela argumentou. - Eu posso ligar para minha me e ela vir para c num instante.
   - Sua me j tem aborrecimento demais no momento - Rick respondeu, o que era exatamente o que a prpria Natalie vinha pensando. - Por que dar mais preocupao?
Ligaremos quando tudo estiver resolvido e voc estiver em casa.
   O argumento dele fazia sentido, mas ainda assim ela se sentia culpada de fazer com que ele e Toby ficassem esperando.
   Ela tentou outra ttica.
   - Pode surgir alguma coisa sobre meu pai. Se voc estivesse em casa, poderia cuidar disso.
   Ele olhou para ela francamente ctico.
   - Ora. O mximo que vai acontecer em casa  que algum vai ligar com mais informaes sobre a situao. Eles deixaro um recado. E ns pegaremos o recado ao voltar
para casa. Deixe estar. No vou embora at que voc venha comigo.
   Ela olhou nos olhos dele e desejou que pudesse atirar os braos em volta dele e dizer a ele o quanto ele era maravilhoso. Mas aquilo seria completamente inadequado,
e ela sabia disso. Ela suspirou e parou de argumentar. No tinha vontade de argumentar, de qualquer modo. Eles tinham dado uma injeo nela para acabar com a dor
enquanto esperava. E ela estava se sentindo no meio-termo entre anestesiada e eufrica. Sem nenhuma condio de argumentar.
   - Ns ficaremos. - Rick enfatizou mais uma vez, olhando nos olhos dela. - Diga "obrigada".
   Ela disse.
   Quando eles finalmente foram para casa no incio da noite, a perna de Natalie estava protegida por um gesso de peso leve, que o doutor tinha garantido que seria
muito mais confortvel que o tipo antigo. Ela tambm saiu com um par de muletas e um frasco grande de analgsicos.
   - Voc teve sorte - o mdico disse a ela. - E s uma fratura capilar da tbia. Deixe a perna levantada o quanto puder, e no apie o peso sobre ela. Voc ser
voc mesma novamente em seis semanas, mais ou menos.
   Eles deram mais uma injeo antes de ela ir embora, ento a volta para casa foi bastante agradvel. Ela sentou-se no banco de trs, com a perna esticada pelo
banco, sentindo-se em paz, sonhadora e no totalmente ali.
   Em casa, havia vrias mensagens na secretria eletrnica de Natalie. A maioria era de membros da famlia, querendo saber se Natalie tinha alguma notcia de Jake.
Duas eram de reprteres, pedindo que Natalie retornasse a ligao. No havia nada de Sterling. Natalie ligou para os membros da famlia, ignorou os reprteres e
esperou que ainda estivesse "tudo bem" com seu pai. Ela decidiu no ligar para rica, afinal. No havia realmente motivo para incomod-la naquele momento. A me
de Natalie j tinha coisas demais na cabea.
   Como dava muito trabalho subir e descer as escadas, Rick decidiu que ela deveria ficar no quarto dele e ele dormiria num quarto extra no andar de cima.
   - Rick, no posso ficar no seu quarto.
   - Shh... no argumente. Voc no est em condies de argumentar, e sabe disso.
   Ento Natalie ficou observando, sentindo-se intil e incmoda, enquanto Rick trocava a roupa de cama para ela, carregava algumas das coisas dele para cima e trazia
as dela para baixo. Depois ele foi para a cozinha e preparou um jantar para eles. Quando ela entrou, com dificuldade, e se ofereceu para ajudar, ele disse a ela
que deixasse a perna para cima, que ele estava cuidando de tudo muito bem.
   Eles tinham que conversar, ela resolveu enquanto ele limpava a cozinha sozinho. Ento, assim que Toby foi para a cama, ela engoliu alguns analgsicos e foi mancando
at o grande salo com suas novas muletas.
   - Rick, eu gostaria de conversar com voc.
   Ele estava sentado no sof com a Newsweek no colo. A televiso estava ligada com o som baixo. Eles vinham deixando dessa maneira para o caso de pegar alguma notcia
de ltima hora sobre a morte de Mnica Malone ou sobre Jake. At ento, no havia nada que eles no estavam sabendo.
   Rick pegou o controle remoto e abaixou totalmente o som. Em seguida jogou a revista na mesa de centro e levantou-se.
   - Voc tem que manter a perna para cima.
   - Eu estou bem.
   Ele posicionou um div em frente a uma espreguiadeira e pegou alguns travesseiros soltos para pr no alto.
   - Vamos l. Venha para c.
   Ela caminhou com passos pesados at a cadeira. Quando ela alcanou ali, ele estava esperando para ajud-la a se sentar.
   - Obrigada, mas eu posso me virar.
   - Faa da sua maneira. - Ele soava exasperado, mas recuou, retornando ao sof, onde se sentou novamente, de um jeito to fcil e suave que ela ficou com inveja.
   Agora era vez de ela sentar. Ela sabia que no seria uma cena bonita. E no foi. Com mais rosnados e gemidos do que poderia ser considerado atraente, ela se atirou
numa cadeira, deitou as muletas no cho ao seu lado e pousando a perna dolorida no div, sobre a pilha de travesseiros.
   - Tudo bem - disse ele quando ela finalmente estava acomodada. - Vamos conversar. - A maneira como ele enfatizava a palavra recordava as outras conversas que
eles tinham tido desde que ele chegou para ficar na chcara. Houve uma conversa em que ela disse que nunca se envolveria com ele. A conversa em que ele perguntou
a ela se poderiam ser "amigveis". E,  claro, a conversa de ontem  noite, quando ela o acusou de ter todos os tipos de motivao desprezveis para fazer amor com
ela, at que ele finalmente concordou com ela de que o momento que eles dividiram tinha sido um grande erro.
   - Bem? - Ele ergueu uma sobrancelha.
   Ela dava ordem  sua mente cansada e dopada que permanecesse no momento atual.
   - Sim. Tudo bem.
   Como comear? Ela respirou fundo e forou o corpo para frente.
   - Isso simplesmente no  justo.
   - O que no  justo?
   - Voc est passando todo o seu tempo tomando conta de mim.
   - Estamos levando isso.
   - Mas no est certo isso. Voc veio para c para ficar com Toby, no para ser enfermeiro da sua senhoria.
   Ele bocejou.
   Uma irritao crepitava dentro dela.
   - Sinto muito. Estou forando voc a ficar acordado?
   - Est tarde. - Ele se levantou e alongou, e parecia to bonito e forte e masculino que, mesmo com aquela perna latejando sem parar e a mente confusa por causa
do remdio para dor, ela se lembrava de ontem  noite. A maneira como ele olhava para ela, a forma como tinha tocado nela, como ele era lindamente masculino quando
estava nu, e como ela o sentia quando ele...
   Ela fechou os olhos com firmeza para fazer com que as recordaes fossem embora.
   - Natalie, voc realmente precisa dormir. Deixe-me ajud-la a ir para a cama.
   Ela abriu os olhos. Ele estava parado bem em frente a ela.
   - Estou tentando falar com voc.
   - timo. - Ele encaixou os dedos nas alas para cinto da cala jeans. - Mande ver, ento.
   Ela levantou o queixo.
   - Tudo bem. Vou dizer. Eu acho que devo ficar na casa da minha me.
   Ele rosnou.
   - Voc quer ir ficar na casa da sua me?
   Ora, por que ele tinha que agir daquele jeito?
   - Eu achei que no. - O meio-sorriso dele era de uma satisfao irritante.
   Ela sentiu-se digna de pena, incompetente, completamente miservel.
   - Eu sou uma mulher capaz. - No soou convincente.
   - Eu sei que . - O tom dele era mais gentil. -  uma fase difcil, s isso. Voc j teve que lidar com coisas demais nos ltimos dias. - Ele deu um sorriso que
a abalou. - Agora, vamos. Hora de ir para a cama. - Ele pegou as muletas e estendeu a mo para ajud-la a levantar.
   Ela olhou para aquela mo.
   - Rick.
   - Que foi?
   - Sinto muito. - Ele abaixou a mo e recuou um passo. Ela se forou a levantar o olhar at o rosto dele. A garganta dela se fechou. Ela tossiu para relaxar. -
Sinto muito por todas aquelas coisas horrveis que eu disse a voc ontem  noite. Eu... eu estava confusa. E estava errada.  evidente por... tudo que voc fez por
mim e pela minha famlia hoje que voc pode tomar conta de Toby muito bem sem nenhuma ajuda minha. - Ele continuou olhando para ela. Ela no tinha a menor idia
do que ele poderia estar pensando.
   Ela se forou a continuar.
   - E Sterling insistiu em verificar tudo sobre voc antes de voc se mudar para c. O pessoal dele  muito minucioso. O que quer dizer que, se voc queria entrar
numa das empresas Fortune, ou se voc estava com problemas de dinheiro, eles teriam descoberto. Ento, eu realmente percebo que fui totalmente injusta. E no posso
retirar o que disse. Eu s posso dizer que sinceramente estou arrependida e espero que voc considere aceitar minhas desculpas. - Ela engoliu. - Por favor. - Rick
continuava olhando para ela. Quando cerca de um sculo tinha passado sem que ele dissesse alguma coisa, ela no podia mais agentar.
   - Tudo bem. Entendi. Desculpas no aceitas. - Ela comeou a empurrar o corpo para sair da cadeira. Ele se aproximou novamente, e ela recuou com um pequeno arquejo.
- Que foi?
   Os olhos dele eram como um par de faris de raio laser; cortavam exatamente no centro dela.
   - O qu? Diga. Por favor.
   - Tudo bem. Aceito suas desculpas. Agora, vamos.  hora de ir para a cama.
   Quinze minutos depois, ela estava deitada na cama de Rick, vestindo uma camisa extragrande como roupa de dormir. Sua perna, elevada em um ninho de travesseiros,
pulsava contundente. Mas ela no estava realmente pensando na perna.
   Estava pensando em seu pai, perguntando-se onde ele poderia estar, rezando para que ele resolvesse todas as coisas horrveis que estavam acontecendo a ele.
   E ela estava admitindo mais uma vez como tinha errado totalmente com Rick. Ele tinha sido no menos do que maravilhoso hoje. Ela poderia muito bem ser honesta
consigo mesma; agora, ela trocaria sua fortuna por uma outra chance com ele. Mas ele tinha sido to... seco, quando ela fez aquele errneo pedido de desculpas. Provavelmente
porque ele ainda tinha certeza, como tinha ontem  noite, de que estava tudo acabado entre eles. E, realmente, como ela poderia culp-lo se era assim que ele se
sentia? Ela tinha insistido desde o incio que no se envolveria com ele, ento ele estava apenas dando a ela o que ela tinha reivindicado que queria.
   Ai, mas ele tinha sido to gentil ao ajud-la pelo corredor at esse quarto que ela roubara dele. A perna dela parecia um peso de chumbo; ela no estava nada
graciosa, cambaleando pelo caminho. E ela podia ter tomado um banho. No estava exatamente suja. Mas certamente no estava fresca e cheirando a limpeza. No entanto,
com a perna engessada, um banho seria uma aventura, que ela no estava querendo enfrentar aquela noite. O cabelo dela estava pegajoso, pedindo um bom xampu. A verdade
nua era, ela tinha o apelo sexual de um pano velho.
   Mas, ainda assim, ela no tinha conseguido deixar de pensar em como eram fortes os braos dele. Ela chegara mesmo a imaginar a doura penetrante que seria se
ele a beijasse mais uma vez. Nem precisava ser um beijo apaixonado. Apenas um beijo rpido e gentil de boa-noite.
   Mas ele no. Ela ardia por dentro s de tomar conscincia dele, e ele a tratava como estava tratando: uma mulher suja, com uma perna recm-quebrada que precisava
de ajuda para se locomover.
   Natalie soltou um longo suspiro de lamento.
   Ela realmente tinha de encarar os fatos. Rick Dalton era um homem bom e generoso e fazia o que podia por outro ser humano durante uma poca de dificuldade. Ele
no queria nada com ela, no sentido romntico. E, quanto antes ela aceitasse isso, melhor ela ficaria.
   O telefone tocou muito tarde. Em sua ansiedade para se desculpar com Rick e na confuso que se seguiu, quando ele insistiu em ajud-la a ir para a cama, Natalie
tinha esquecido de fazer alguma coisa para conectar um telefone  linha do quarto de cima.
   Mas Rick, como de costume, cuidou do problema. Ele se levantou e atravessou o patamar para os aposentos dela no andar de cima e atendeu por ela. Ela tinha conseguido
se arrastar at a parte inferior das escadas quando ele surgiu com o telefone sem fio na mo. Ele estava de cala de moletom preta e mais nada. Ela tentou no olhar
para seu maravilhoso peito nu enquanto ele descia dois degraus de cada vez para chegar ao lado dela.
   Ele ps a mo no telefone, correndo o olho azul por cima dela. Ela sabia que devia estar com uma aparncia horrvel, com sua camiseta velha, o cabelo todo emaranhado,
segurando na pilastra para evitar emborcar no cho.
   - O que voc est fazendo fora da cama?
   A perna dela latejava duramente de dor a cada pulsada do sangue pelas veias. Ela agarrou a pilastra com um pouco mais de firmeza.
   - Eu ouvi o telefone tocar. Estava preocupada que pudesse ser...
   -  sua me. Est dizendo que acabou de falar com seu pai.
   Ela esticou-se para pegar o telefone.
   - Vamos poupar essa perna primeiro. - Ele falou no bocal. - rica? Voc pode esperar s mais um instante? Obrigado.
   Ento ele segurou Natalie pela cintura. Ela podia ter morrido, de to quente e forte que era a sensao do corpo dele.
   - Vamos l. De volta para a cama. - Ele ajudou a moa a voltar para o quarto, onde a levantou e a ps na cama e gentilmente posicionou a perna quebrada sobre
os travesseiros. Em seguida, quando ela j estava totalmente acomodada, ele entregou o telefone a ela.
   Ela grudou um sorriso no rosto, na esperana que pudesse transmiti-lo pela voz.
   - Ol, Mame. Sou eu.
   - Nat. Como vai? Rick disse que voc sofreu um acidente.
   - Eu estou bem, Mame. Mesmo.
   - O que aconteceu?
   - Quebrei a perna. Mas  somente uma fratura capilar. O mdico disse que em seis semanas eu estarei tima.
   rica soltou um som baixo de aflio.
   - Eu deveria estar a.
   - No. No, no deveria. Eu estou bem. Mesmo. Rick disse que voc falou com Papai.
   - Sim.
   - Como ele est?
   - No tenho muita certeza, para dizer a verdade. Ele disse que no era para se preocupar. - Ela deixou escapar um riso alto. - Voc acredita nisso? Todo mundo
pensa que ele assassinou Mnica Malone, e eu no devo me preocupar...
   - Onde ele estava quando voc conversou com ele?
   - L na manso.  claro que Sterling tinha ido atrs dele. Em algum lugar de Wisconsin, eu acho. Sterling o convenceu a voltar e falar com a polcia.
   Natalie sentiu um aperto no estmago.
   - Ele falou com a polcia?
   - Sim. Ele estava na delegacia. Foi interrogado. Por vrias horas.
   - Eles o acusaram de alguma coisa?
   - No... ainda no, pelo menos. Depois que o interrogatrio terminou, Sterling levou Jake de volta para a manso. E Sterling me ligou de l, para dizer que Jake
estava seguro. Eu insisti que ele me deixasse falar com seu pai. Quando Jake estava na linha, bem, foi to difcil encontrar sentido no que ele dizia. Ele insistia
que no tinha matado ningum, no importava o quanto tudo parecia ruim. Ele me pediu para ligar para todos os filhos. E dizer a vocs que ele era inocente. Ento
ele... perguntou por voc. Sobre o que voc tinha dito  polcia. O que voc acha que ele quis dizer com isso?
   - Est tudo bem, Mame. No se preocupe.
   - No me preocupar?
   - Fique tranqila. Vou ligar e esclarecer tudo com ele imediatamente.
   - No estou entendendo o que voc pode esclarecer...
   - Mame. Eu vou cuidar disso.
   - Bem. Est certo. Mas voc tem certeza que no quer que eu v at a?
   - No, Mame. Vou ficar bem. Eu prometo. Vou ligar para voc amanh. - Natalie se despediu antes que sua me pudesse continuar protestando. Diante do olhar muito
srio de Rick, ela discou o nmero da manso. Mas ningum atendeu. Em vez disso, a secretria eletrnica atendeu depois do primeiro toque e a voz gravada do pai
dela pedia que deixasse recado.
   - Papai - ela disse ao telefone - sou eu. Nat. Acabei de falar com Mame. Eu sei que est tarde, mas se voc estiver a...? - Ela deixou que a pergunta se esvasse
at virar um suspiro. - Ligue para mim, Papai. Por favor. - Ela desligou o telefone e o entregou a Rick.
   - O que est acontecendo?
   Em poucas palavras explicou o que a me dissera a ela. Ento ela se perguntou, alto:
   - Talvez eu deva ir at l.
   Rick j estava balanando a cabea antes que ela terminasse a frase.
   - De jeito nenhum. Sua perna est quebrada, Natalie. So duas da manh. Voc precisa de descanso. E voc vai descansar. Agora.
   - Mas se ele...
   - Voc no vai correr para salvar seu pai, Natalie. No esta noite, pelo menos. Hoje, voc vai... - O toque da campainha cortou Rick. - Quem diabos ser?
   Natalie comeou a balanar a perna que estava boa para fora da cama.
   - Fique - disse Rick, como se estivesse falando com Bernie.
   - Rick, eu tenho que...
   - Voc fique aqui. Eu vou atender.
   Ele se levantou da ponta da cama e saiu antes que ela pudesse dizer mais uma palavra, fechando a porta do quarto com firmeza.
   Mas ele entrou com a cabea novamente dois minutos depois. Ele no parecia feliz.
   - Algum quer ver voc.
   Antes que ela pudesse perguntar quem, ele abriu a porta totalmente. Seu pai estava atrs dele,  porta.


   Captulo 15

   Jake passou por trs de Rick e entrou no quarto.
   - Ol, Nat.
   - Papai - disse, suavemente, achando horrvel a aparncia dele, ainda que suas roupas estivessem limpas e, aparentemente, ele tivesse tomado banho e feito a barba
no fazia muito tempo. Ainda assim, os olhos dele estavam inchados e vermelhos, a pele tinha uma aparncia cinzenta e o cabelo estava desordenado, da maneira como
estava na noite anterior, como se ele tivesse passado as mos agitadas no cabelo.
   Ele virou-se para Rick.
   - Gostaria de falar com minha filha a ss, por favor. - A voz dele era somente um eco irregular de seu velho comando.
   Rick cruzou os braos sobre o peito largo, um gesto que indicava claramente que ele no ia a lugar nenhum. Mas, quando ele falou, foi de forma gentil.
   - Acho que  melhor eu ficar.
   Jake tentou dirigir um olhar congelante para Rick. Mas Rick apenas o encarou de volta, imvel. Natalie falou alto.
   - Est tudo bem, Papai. Ele sabe... tudo que eu sei. Ele estava presente quando eu conversei com Sterling.
   Jake xingou para si mesmo.
   - timo. Tudo bem. - Ele virou de costas para Rick, que permanecia perto da porta, e aproximou-se da cama. - O que aconteceu com sua perna?
   - Eu quebrei. Ca do telhado da sacada. Mas no est to mal. Em um ms e meio, estarei correndo pelas escadas para cima e para baixo.
   - timo. timo. - Ele ficou olhando para ela com um olhar meio vago por um instante. Logo suspirou. - Nat. - Ele caiu, pesado, para o lado da cama, sacudindo
sonoramente a perna dela e provocando uma careta nela. - Sinto muito, Nat. Por tudo. Mas eu no fiz aquilo. No fiz mesmo. Voc sabe disso, no sabe?
   - Sim - ela disse, e era verdade. Seu pai no tinha matado ningum. Ela sabia disso na pele.
   - Eu no lembro exatamente o que eu disse ontem  noite, Nat. Mas eu... estava confuso, sabe?
   - Sim, Papai. Eu sei. Entendo.
   - Sterling disse que tudo que voc disse  polcia foi que me encontrou bbado na biblioteca e me ajudou a subir para meus aposentos.
   - Sim, foi isso que eu disse a eles.
   - timo. - Ele acariciou a mo dela. Ento ele chegou mais perto. O hlito dele parecia uma garrafa aberta de scotch. Ela tentou no se afastar. - Eu expliquei
 polcia que discuti com Mnica Malone ontem  noite. Foi s isso que aconteceu, Nat.
   - Eu sei. Voc me disse.
   - Ento se a polcia vier bisbilhotando atrs de voc novamente, isso  tudo que voc tem que admitir. Espero que voc no diga nada alm disso.
   Ela olhou firme para os olhos dele vermelhos de sangue.
   -  claro que no vou dizer nada alm. Afinal,  tudo que eu sei.
   Seu pai deu uma piscada.
   - Sim. Est certo.  tudo que voc sabe. Eu estava bbado. Eu mencionei a voc que tinha tido uma briga com Mnica Malone. Voc me levou para meus aposentos.
   - Exatamente.
   - Bem. Est timo, ento. - Ele fez como quem vai se levantar.
   Ela pegou a mo dele antes que ele pudesse ir embora.
   - Papai, voc parece to cansado.
   - Eu estou bem.
   Ela tentava falar de forma reluzente.
   - Tenho uma idia. Por que voc no vai l para cima? V para o meu quarto, descanse um pouco...
   Mas ele j estava se levantando para ir embora.
   - No. No posso. Tenho que ir.
   - Mas, Papai...
   - Sinto muito, Nat. Que confuso maldita. Sinto muito mesmo. Tenho que ir. - Ele se virou e foi embora.
   Ela lanou um olhar suplicante a Rick enquanto Jake desaparecia pelo corredor.
   - Ele no deveria dirigir...
   - Fique a. Vou ver se ele est bem. - Rick saiu atrs de Jake. Natalie escutava. Ouviu um carro dar partida do lado de fora. Rick retornou antes que ela conseguisse
se arrastar para fora da cama novamente.
   - Que diabos voc est fazendo? - Ele se ps ao lado dela com trs longos passos.
   - Ouvi um carro dar partida. Ele...?
   Gentilmente, ele empurrou Natalie de volta entre os travesseiros.
   - Relaxe. Ele no est dirigindo. Entrou no banco de trs de uma limusine. Havia outra pessoa na direo.
   - Edgar, provavelmente.  o chefe dos motoristas.
   Rick deu de ombros.
   - O que importa  que ele no vai se matar ou matar algum tentando dirigir um carro agora.
   Ela balanou a cabea.
   - Ele est com uma aparncia terrvel.
   Rick concordou com a cabea.
   - Sim.
   - Queria tanto poder...
   - O qu?
   Ela deu de ombros.
   - No sei. Melhorar a situao. Fazer com que tudo se acertasse.
   Ele levantou o lenol e acomodou sobre ela.
   - Bem, voc no pode.
   - Sim. Eu sei.
   O telefone dela estava na mesinha-de-cabeceira.
   - Vou levar o telefone l para cima de novo.
   Ela agarrou nele antes que ele pudesse peg-lo e colocou-o no seu peito.
   - No. Deixe aqui. Desta forma, se tocar, no vai incomodar voc.
   - No vai descarregar, fora da base?
   - Rick. Deixe aqui.
   - Eu quero que voc durma.
   - Eu quero que voc durma.
   Eles olharam, srios, um para o outro, e em seguida ambos sorriram. Ele dirigiu-se  porta.
   - Boa noite - ele disse, suavemente.
   Ele entrou no corredor e puxou a porta at fech-la. Ela ficou olhando para a porta fechada.
   - Boa noite - ela sussurrou, de volta.

   Na manh seguinte, a primeira coisa que Natalie fez foi entrar no banheiro de baixo, com toda dificuldade, e se recusou a sair dali at conseguir tomar banho.
   Rick deu uma batida na porta enquanto ela deixava a gua correr.
   - Precisa de alguma ajuda a?
   - No, obrigada.
   Levou bem mais de uma hora, mas quando ela saiu do banheiro, cada centmetro dela estava fresco e limpo.
   Logo depois que eles terminaram o caf da manh, a intrpida tia de Natalie, Rebecca, chegou com Gabe Devereaux, o investigador particular que a famlia tinha
contratado originalmente para apurar o acidente de avio que causara a morte de Vov Kate. Eles explicaram que tinham estado na manso, mas Jake ainda estava dormindo
quando chegaram l. Gabe, um homem vigoroso, de estrutura poderosa com um ar de quem est no comando, disse que eles teriam que providenciar uma segurana reforada
ali. Os reprteres j estavam se amontoando junto s grades. No levariam muito tempo para descobrir o quanto era fcil entrar pelo lago.
   Tia Rebecca, com seus cabelos ruivos, revirou os olhos.
   - Gabe faz questo da segurana.
   Gabe olhou para ela muito srio.
   - Seu pai no ficar feliz quando eles comearem a rastejar pelas janelas, devo dizer. - Ele se dirigiu a Natalie, que estava sentada na espreguiadeira, com
a perna no div coberto de travesseiros.
   - Eu entendo que voc esteve l na manso na noite em que Mnica Malone foi morta.
   Natalie sabia o que estava acontecendo naquele momento. Gabe e Rebecca estavam cuidando do caso, tentando descobrir qualquer coisa que Natalie pudesse saber sobre
a noite do assassinato.
   - Sim, eu estava l.
   - Voc falou com Jake aquela noite?
   Natalie contou a eles a mesma histria que tinha dito  polcia.
   - E o que mais? - perguntou Gabe.
   Natalie encarou os olhos examinadores dele sem vacilar.
   -  s isso.
   Naquele momento, a campainha da frente tocou. Rick foi atender, e Gabe e Rebecca compartilharam um olhar contundente.
   - Tem certeza que no est deixando nada de fora? - Gabe perguntou, rapidamente, antes que quem estivesse  porta pudesse interromp-los.
   -  tudo que eu sei - respondeu Natalie.
   rica, com Rick atrs dela, apareceu vindo do corredor central.
   - Estou aqui para cuidar da minha filha - declarou ela. Depois que ela abraou Natalie, Rick trouxe uma xcara de caf para ela e se certificou de que ela estava
confortvel na outra espreguiadeira.
   Natalie tentou no deixar evidente que estava observando a interao entre Rick e sua me. Rick tinha jeito para deixar as pessoas  vontade. Toda a famlia dela
parecia aceit-lo sem questionamentos desde o incio, como se ele sempre tivesse estado entre eles. E rica, que era to arredia com a maioria das pessoas, parecia
ter escolhido Rick como algum em que podia se apoiar, da mesma forma que se apoiava em Natalie.
   Natalie se pegou perguntando a si mesma novamente como ela poderia ter pensado nele como sendo igual aos outros homens que ela conhecera. Ele era pelo menos to
bom em tomar conta dos outros quanto ela mesma era. E ela sentia verdadeira vergonha de como tinha julgado mal a Rick, e tinha uma conscincia dolorosa de que tinha
sido idiota o tempo todo com ele.
   - Voc viu Toby? - Rick perguntou, quando voltou ao grande salo depois de ver os visitantes parados  porta. Natalie balanou a cabea.
   - Acho que ele foi l para fora cerca de meia hora atrs.
   No demorou para que Rick encontrasse o filho.
   Ele fez um circuito pelo quintal da frente e o de trs, depois saiu at a doca. Ouviu a vozinha pela janela aberta do abrigo para barcos.
   - E tudo est bem aqui, embora seja muito, muito mido e s vezes escuro, profundo como ...
   Rick deu uma olhada furtiva e viu o filho, prximo ao Lady Kate, com algo que parecia uma pequena pilha de cartas velhas ao lado dele e uma folha de papel amarelada
esticada sobre os joelhos. Bernie estava sentado, a alguns metros de distncia, escutando com uma orelha empinada enquanto Toby fingia ler o que estava escrito na
pgina amarrotada.
   Por um instante, Rick ficou parado ali, observando e escutando, enquanto o filho tagarelava. Ele j sabia h um tempinho que Toby ficaria bem, mas cada prova
a mais ainda conseguia dar um aperto na garganta e afogar seus olhos numa nuvem de lgrimas.
   Ele entrou no abrigo para barcos, onde a gua batia suavemente e o Lady Kate esperava.
   - O que voc tem a, filho?
   Toby tirou os olhos da pgina e olhou para ele.
   - Cartas do monstro camarada do lago. Venha ver, Papai.
   Rick agachou ao lado do filho e pegou um dos envelopes. Estava endereado a Benjamin Fortune. O endereo para resposta era em Sussex, Inglaterra; a carta tinha
sido postada mais de vinte anos antes.
   Rick deu uma olhada na pilha de envelopes semelhantes que estavam no cho do abrigo para barcos entre ele e o filho.
   - Onde voc pegou isso, Toby?
   Toby pegou a mo dele e o levou at uma parede do outro lado, onde ele apontou para uma tbua solta. Rick ajoelhou-se e levantou aquela coisa. Debaixo da tbua
estava um compartimento revestido de metal.
   - Voc encontrou as cartas aqui?
   Toby fez que sim com a cabea.
   - O monstro camarada deve ter deixado aqui.
   Rick deu um sorriso lago.
   - Eu no sei se monstros escrevem cartas.
   Toby ficou firme.
   - Monstros camaradas escrevem.
   Rick resolveu no argumentar.
   - Talvez escrevam. Mas eu acho que Natalie provavelmente gostaria de ver essas cartas.
   Toby deu de ombros.
   - Est bem.
   Eles pegaram o resto das cartas e levaram todas para dentro de casa.
   Natalie olhou para eles, com um sorriso aliviado cruzando seu rosto, quando eles entraram no grande salo.
   - A esto vocs. Eu estava ficando um pouco nervosa, tenho que dizer. - Ento ela franziu as sobrancelhas. - O que  isso?
   Rick carregou as cartas para a cadeira dela e entregou-as a ela.

   Quando Natalie terminou de ler todas as cartas, Toby j tinha perdido interesse nas folhas amareladas do monstro camarada do Lago Travis. Ele e Bernie estavam
no quintal dos fundos, brincando de pega.
   Natalie tirou os olhos da ltima carta e dirigiu-se a Rick, que estava sentado no sof, a poucos metros de distncia.
   Ele perguntou:
   - Bem?
   - Ai, Rick... - Ela no sabia por onde comear.
   - O qu?
   - Eu... essas cartas so de algum chamado Clia Simpson, na Inglaterra. Mencionam uma filha chamada Lana, filha do meu av Ben com essa tal de Simpson. Pelo
que eu posso ler nas entrelinhas, Clia criou Lana como filha de seu marido, George. E parece que Vov Ben queria conhecer Lana, mas Clia no queria que ele interferisse
na vida que ela construra para si mesma com o marido. Ento ela manteve Vov Ben  distncia. - Ela olhou para as cartas novamente. - Tambm fazem meno a uma
neta, Jessica, na ltima das cartas, com data de aproximadamente quinze anos antes da morte de meu av. A neta seria poucos anos mais jovem que eu.
   Rick levantou-se do sof.
   - Jessica, voc disse?
   - Sim.
   - Lembra da mulher que ligou duas semanas atrs?
   Natalie lembrava.
   - Jessica Holmes.
   - E ela telefonou da Inglaterra.
   Natalie mordeu o lbio inferior.
   -  provvel que seja uma coincidncia, voc no acha?
   Rick no parecia achar a mesma coisa, de jeito nenhum.
   - Voc por acaso anotou o nmero dela?
   Natalie balanou a cabea.
   Rick sugeriu:
   - Podemos tentar o servio de informaes em Londres.
   Depois de um instante, ela fez um gesto afirmativo com a cabea.
   - Tudo bem.
   Rick pegou o telefone enquanto Natalie se ocupava de pr as cartas de volta nos envelopes e reatar o cordo que amarrava todas juntas.
   Rick falava com ela por cima do telefone.
   - O servio de informaes mostra Jessica Holmes e J. Holmes. Devemos tentar esses nmeros?
   Ambivalente, mas sabendo que ele estava certo, ela fez uma careta para ele.
   - Tente.
   Dez minutos depois, eles tinham descoberto que J. Holmes era homem. E Jessica no estava em casa. Ela tinha uma secretria eletrnica, no entanto. Rick deixou
um breve recado.
   -  o melhor que podemos fazer no momento - disse ele, assim que desligou. Ele olhou para a pilha de cartas antigas, agora amarradas de forma organizada no colo
de Natalie.
   - O que voc vai fazer com elas?
   - Vou lev-las a Sterling da prxima vez que eu o vir. Ele vai mandar verific-las. - Ela disps as cartas sobre a mesa ao seu lado.
   Quando se virou de volta para Rick, ele estava examinando a moa.
   - Por que esse rosto decepcionado? - ele perguntou.
   - Ai, eu no sei...
   - Sabe sim. - Ele se sentou na ponta do sof, prximo  cadeira dela. - Conte-me.
   Ela no podia deixar de se abrir para ele.
   -  que... bem, essas cartas mostram que meu av Ben pode ter trado minha av Kate.
   - E voc no gosta de pensar nele dessa forma.
   - No, no gosto. E o que  pior, essas cartas trazem  mente as histrias horrveis sobre Vov Ben e Mnica Malone. Poderiam ser verdadeiras, tambm?
   - Neste momento, no h maneira de saber.
   - Ai, Rick. Para mim, Vov Ben era um homem doce que me levava para pescar. Que me escutava. Que prestava ateno em mim quando havia tantas crianas mais interessantes
na famlia com quem ele poderia passar o tempo.
   - Ele era bom para voc.
   - Sim.
   - E no era perfeito.
   - Parece que no. - Ela deu uma olhadela nas cartas novamente. - Eu tenho esse problema, Rick.
   - E mesmo?
   - Eu costumava ver o mundo atravs de culos-cor-de-rosa. Todo mundo dizia isso. Recentemente, eu venho tentando cair na real em relao s coisas, sabe?
   Ele fez um som de compreenso.
   - Mas eu meio que... estraguei tudo, tambm.
   - Como?
   - Bem...
   - Como?
   - Com voc. Eu fui muito dura quando julguei voc. Arruinei tudo entre ns. - Ela aguardou, meio na esperana de que ele iria interromper e dizer a ela que ainda
havia esperana para eles dois. Mas no disse. Ele apenas esperou que ela continuasse.
   Ela mordeu o lbio e disse a si mesma pela centsima vez para parar de desejar algo que nunca aconteceria.
   Rick ainda estava pensando em Vov Ben.
   - Voc acredita que seu av amava voc?
   - No tenho dvida disso.
   - Ento concentre-se nisso - aconselhou Rick. - E aceite o fato de que ele era humano... e falvel. Ele cometeu erros. Como todos ns.

   O dia parecia se arrastar. Natalie tentou entrar em contato com sua agente de viagem, para ver se havia alguma forma de recuperar parte do dinheiro que iria perder
por cancelar o cruzeiro no ltimo momento. Mas era domingo, e a agncia de viagens estava fechada. Ela teria que esperar at amanh para ver o que poderia ser feito.
   Assim como tinham feito no dia anterior, eles deixaram a televiso ligada, na esperana de ouvir alguma notcia importante sobre o mistrio envolvendo a morte
de Mnica Malone. No havia nada de novo.
   Mas Tracey Ducet deu uma entrevista que apareceu no noticirio da tarde. Ela franzia a boca muito vermelha e piscava com os clios falsos e ainda conseguia parecer
um animal ferido.
   - Odeio dizer isso - contou ela ao reprter. - De verdade. Mas o mundo inteiro sabe da relao de dio entre Mnica Malone e minha famlia, os Fortune. - Tracey
deu um suspiro. - Eu suponho que a polcia j tenha uma idia de quem fez isso.  uma tragdia.  realmente...
   Natalie agarrou o controle remoto e desligou a televiso. Se no tivesse feito isso, poderia ter atirado uma das muletas para quebrar a tela.
   - Deixe para l - disse Rick depois disso. - Vamos chutar isso para o alto.
   - O que voc quer dizer com isso?
   - Vamos pegar Toby e Bernie e alguns sanduches e sair para o lago.
   Natalie abriu a boca para dizer que no. Rick no deixou que ela dissesse as palavras.
   - Voc tem um rdio e uma televiso no Lady Kate. E eu vou ligar para sua me com o nmero do meu celular, caso algum tenha que entrar em contato com voc.
   - Mas...
   Ele j estava se dirigindo  despensa.

   Meia hora depois, Natalie se viu sentada no convs, a perna escorada em frente a ela, comendo um almoo improvisado de biscoitos e queijo.
   Estava um dia quente. Natalie olhou pela borda, lembrando da primeira vez quando Rick e Toby tinham chegado para ficar no Lago Travis. Apenas algumas semanas
tinham passado desde ento.
   No entanto, Natalie sentia como se conhecesse Rick e seu filho a vida inteira.
   Assim como tinha acontecido no outro dia, Toby e Bernie adormeceram no deck.
   Estava tranqilo. Natalie sentou-se de lado no banco acolchoado com a perna machucada esticada em frente a ela. Ociosa, enquanto ouvia a batida suave das ondas
no barco, ela brincava com o amuleto de boto de rosa que estava pendurado em seu pescoo. Rick saiu da cabine e sentou-se na parte do banco de costas para ela.
   Ela ps a mo na borda e torceu um pouco o corpo para poder v-lo. Ele estava se curvando para o lado.
   Ela sorriu.
   - O que voc est procurando?
   Ela sabia da resposta antes que ele respondesse:
   - O monstro camarada do Lago Travis.
   Ela ficou observando Rick de seu ngulo desajeitado, quando teve que admitir para si mesma: Ela estava total e completamente apaixonada por ele. Ele estava morando
na casa dela h menos de um ms, e ela no tinha a mais plida idia de como iria sobreviver quando ele e Toby voltassem ao seu verdadeiro lar.
   No entanto, teria que encontrar um jeito. Ela iria perder os dois, muito em breve.
   - Veja - Rick disse, suavemente.
   - Voc consegue v-lo? - Contendo as lgrimas, Natalie entrou no jogo dele, segurando na borda um pouco mais firme e ignorando a pontada de dor na perna ao espichar-se
para o lado.
   - Bem? - ele perguntou. - Voc est vendo?
   - No consigo... hum...
   - Claro que consegue.
   Ela ergueu os olhos das profundidades musgosas debaixo deles. Ele estava bem ali. Olhando para ela.
   - Ai, Rick... Ela comeou a chorar.
   Ele estendeu o brao para ela.
   - Nat... - Ela o afastou. - Venha c - disse ele, cheio de ternura. E dessa vez, quando ele estendeu o brao, ela deixou que ele a puxasse para o seu colo.
   Ele tirou um leno do bolso. Ela pegou o leno, assoou o nariz e limpou as lgrimas. Ento, por fim, ela simplesmente ficou ali deitada, no lugar onde mais queria
estar: nos braos de Rick Dalton.
   - Eu confundi tudo - disse ele.
   - Voc confundiu tudo? No...
   - Sim. Fique quieta. Deixe-me dizer isso.
   Ela arquejou.
   - Tudo bem.
   - Fui duro demais com voc naquela noite. Eu sabia que voc tinha sido usada demasiadas vezes. E deveria ter ido com mais calma. Mas no fui. Eu queria voc.
Ento eu forcei as coisas.
   - No, de verdade...
   - Voc vai me deixar terminar?
   - Tudo bem. Sim. Est bem.
   - Eu poderia ter sido mais gentil, depois, quando voc tinha todas aquelas dvidas. Mas tenho minhas prprias memrias sombrias, e elas tomaram conta de mim.
   - Sua esposa, voc quer dizer?
   Ele afirmou com a cabea.
   - Ela... tomava muitas concluses precipitadas. E no tinha como conversar com ela, uma vez que ela tivesse posto algo na cabea.
   - Assim como eu.
   Ele tirou o cabelo do rosto dela cheio de carinho nas mos.
   - Ainda assim, eu deveria ter sido mais paciente. Mas no fui. Ontem  noite, depois que voc me disse que sentia muito pelas coisas que tinha dito, eu admiti
para mim mesmo que no queria que estivesse tudo terminado entre ns.
   Natalie olhou para ele, jorrando felicidade por dentro. Ele no tinha terminado.
   - Eu fiz uma promessa para mim mesmo que iria fazer a coisa certa desta vez.
   - Ai, Rick...
   - Espere.
   Ela pressionou as pontas dos dedos sobre os prprios lbios.
   - Tudo bem. Desculpe. Continue.
   - Eu prometi a mim mesmo que iria mais devagar, dar a voc o tempo que voc precisasse para ver que pode confiar em mim para tomar conta de voc... exatamente
tanto quanto eu sei que voc sempre estar l para tomar conta de mim.
   Ela no conseguia mais ficar quieta por mais um segundo.
   - Rick, voc me mostrou. Estou vendo. Acredite em mim, eu sei a verdade agora.
   - No, eu ainda estou indo rpido demais.
   - No, no est mesmo. Nem um pouco.
   Ele balanou a cabea.
   - Eu me apaixonei por voc no primeiro momento em que vi voc. De costas. Com aquela capa de abajur na cabea. E no posso esperar nem mais um pouco.
   Natalie segurou a mo de Rick e pressionou os lbios na palma da mo dele.
   - Posso dizer o que eu quero dizer agora? Por favor.
   Ele riu.
   - Tudo bem. V em frente.
   Ela enlaou os dedos nos dedos dele.
   - Me parece que eu esperei a vida inteira por voc. Acho que eu meio que fiquei cansada de esperar. Eu comecei a... no acreditar mais que voc viesse. Comecei
a viver com Joel... me acomodar com Joel  mais apropriado. Entende o que eu quero dizer?
   - Acho que sim.
   - Ento, quando as coisas pareciam muito desmotivadas, ali estava voc. Mas eu j tinha decidido que voc no viria, ento eu no iria me deixar acreditar que
voc tinha chegado finalmente.
   Ele inclinou a cabea para o lado.
   - Sabe, se voc se casasse comigo, sua vida seria muito mais simples.
   Natalie olhou no fundo daqueles olhos muito azuis, sentindo-se radiante e leve como os raios de sol que danavam nas guas do lago. Mesmo os medos dela por causa
do pai no podiam ofuscar a beleza de um momento como esse.
   Ela deu continuidade  provocao dele.
   - Como minha vida seria mais simples, se eu me casasse com voc?
   Rick apertou a mo dela.
   - Se voc se casasse comigo, ns poderamos sair em lua-de-mel sem ter que encontrar um inquilino que tomasse conta do cachorro.
   Ela tateou em busca do talism de boto de rosa no pescoo, e se deu conta de que Vov Kate sabia exatamente o que estava fazendo, afinal.
   - Voc tem razo.
   Ele deu um beijo na ponta do nariz dela.
   - Mas voc conhece a gente... vamos descobrir uma forma de levar Bernie junto.
   - E Toby, tambm.
   - Certo. O que seria de nossas vidas, sem o menino e o cachorro?
   - Ento. Quer casar comigo?
   No havia nenhuma dvida na cabea dela. No mais.
   - Voc sabe que sim.
   - Eu amo voc.
   - Eu tambm amo voc.
   - Posso beijar voc?
   - Por favor. Sim. Me beije agora.
   Os lbios de Rick se juntaram aos lbios dela. Natalie envolveu os braos em volta do pescoo dele e beijou Rick de volta, com todo seu corao.

   Kate baixou os binculos.
   Uma alegria doce e avassaladora se movia dentro dela, dando-lhe de volta um pouco da fora que tanta sujeira recente tinha levado pelo ralo.
   Querida Natalie tinha encontrado a felicidade, finalmente. E Kate estava satisfeita.
   E claro, Sterling ficaria furioso com ela se soubesse que ela estava ali. Mas ele no iria saber.
   E ela precisava disso, precisava ver isso. Ver o triunfo do amor num mundo em que, ela tinha pouca dvida agora, seu filho mais velho em breve seria preso e condenado
pelo assassinato de Mnica Malone.
   Kate largou os binculos e dirigiu-se ao barco em busca de uma cova secreta que ela conhecia. Era hora de voltar a Minepolis e se preparar para a provao que
estava por vir.

   FIM

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
